Crítica: a viagem surrealista (e por vezes assustadora) de Melanie Martinez com o "K-12"

Coloridíssimo, exagerado e importante, "K-12" sai vitorioso no que se propõe

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Quando Melanie Martinez anunciou que tinha planos de transformar seu segundo álbum de estúdio em um filme, achei que seria uma empreitada quase impossível. Uma gravadora apostar suas fichas (e seu dinheiro) em um longa é algo para poucas Beyoncés, mas a menina conseguiu. Quatro anos após o lançamento de sua estreia, Melanie lança o filme "K-12" (de graça no YouTube!).



O conceito artístico de Melanie gira em torno de Cry Baby, que foi apresentada através dos 13 clipes retirados do seu álbum de estreia. Em "K-12", a garota vai até a escola, onde encontrará dificuldades em um meio absolutamente repressor. Caso você não tenha assistido aos clipes anteriores, a história do "K-12" se transcorrerá sem grandes problemas - porém é claro, ter a bagagem da história da personagem só acrescentará.

"K-12" é um musical, com todas as treze músicas do álbum de mesmo nome inseridas dentro da narrativa. Desde o primeiro quadro, o que há de mais forte da produção é vigente: seu visual. O universo criado por Melanie - que dirige e roteiriza o filme - é expandido ao máximo imageticamente. Tudo extremamente colorido, com babados e lacinhos, o mundo de Cry Baby é uma mistura perfeita de Wes Anderson com "Desventuras em Série" (2017-19). Há uma clara preocupação na construção de todas as cenas e suas locações faraônicas, figurinos exagerados e até perucas cada vez mais insanas, tudo primordial para fomentar a atmosfera do longa, uma fantasia com ares vitorianos e barrocos. 


A K-12, escola de Cry Baby, é um sistema refletor bem exagerado - e crível - da nossa própria realidade: controlada por um tirado diretor, os alunos são oprimidos das mais bizarras formas. Essa história conhecemos de perto. Inclusive a faixa que fala diretamente com o diretor é um hino contra diversos líderes políticos mundiais, ascendidos pela crista do conservadorismo - os Trumps e Bolson*ros da vida. E como esperado, a protagonista é a voz da resistência: "Você não sabe a dor que está causando /  Sim, suas ações machucam, assim como suas palavras / Quanto mais você tenta nos ferrar / Mais estaremos lá gritando na sua porta".

Aliás, as músicas são elementos fundamentais na narrativa; elas não estão ali só para animar uma cena. As letras são partes integrais do roteiro, e você precisa estar atento à elas para poder entender o que está rolando, afinal, a maior parte do texto é cantado. Quando o filme se distancia das músicas, sua força é empalecida - fica evidente que o processo de criação começou pelas músicas, para depois o roteiro surgir e conectar tudo.

E isto é uma faca de dois gumes: enquanto potencializa o que há de melhor ali - porque, querendo ou não, Melanie é uma cantora, não uma cineasta -, também mostra as fraquezas do seu lado puramente cinematográfico. Há momentos que a história não alcança grandes passos apenas pelo seu roteiro, precisando das músicas para poder sair do lugar - além de sequências que subutilizam as canções, como o caso de "Recess". Contudo, quando o trabalho ao redor das músicas acertam, são fenomenais - a sequência de "Orange Juice" é belíssima.


É curioso ver como o público consumidor de Melanie tem uma enorme parcela de adolescentes (e até crianças), o que é assustador: sua arte, definitivamente, não é destinada para plateias tão novas. Em 15 minutos de filme já tinha rolado maconha, cocaína e bunda de fora. Todavia, concomitantemente, a artista está ciente de que precisa ser porta-voz de temas necessários dentro do contexto em que habita, e o "K-12" é deveras feminista. Até a divindade suprema do filme não é o Deus convencional, e sim Lilith, a primeira mulher de Adão que se rebelou contra a submissão (e interpretada por uma mulher negra).

Melanie declama (e canta) sobre diversas inseguranças de tantas garotas: seus corpos, bombardeados de pressões para um modelo perfeito ("Eles querem uma bunda grande em um jeans novo / Essa não é a vida para mim / Eu não quero parecer com a merda de uma Barbie", ela afirma em "Lunchbox Friends"); a cultura do estupro, que objetifica e ainda culpabiliza a figura da mulher ("Os garotos agem como se nunca tivesse visto pele antes / Tenho que ir para casa me trocar porque minha saia é muito curta / A culpa é minha, eu coloquei cobertura por cima / E agora os garotos querem provar desse bolo", em "Strawberry Shortcake"); e o tabu (ultrapassadíssimo) da menstruação. Destaco a cena em que Cry Baby (literalmente) troca de olhos com uma amiga, para que ela se veja com olhos menos condenatórios. Sororidade em seu estado bruto.

Dentro dessas temáticas, tudo é bem didático, quase expositivo, o que é importante para deixar claras suas mensagens de empoderamento e auto-aceitação, até porque o mote colegial é pra lá de batido quando visto de maneira objetiva. Quando os temas são mais complexos, Melanie decide trabalhar por meio de metáforas e ilustrações, como em "Teacher's Pet", que entra em algo bem obscuro: a pedofilia. A letra e a sequência visual podem causar náuseas quando temos um professor seduzindo uma de suas alunas: "Você tem mulher e filhos, você os vê todo dia / Se eu sou tão especial, por que sou um segredo? / Você se arrepende das coisas que nós fizemos que eu nunca vou esquecer?".


A variedade de temas é tão grande dentro do filme que, inevitavelmente, um ou outro não iria receber o tratamento necessário. "K-12" aborda gênero, transexualidade, racismo, bullying, distúrbios alimentares, desvalorização da arte, etc etc etc. E, sejamos sinceros, Melanie não é uma roteirista, falando em termos técnicos. Ela é, sim, uma exímia contadora de histórias, que consegue transformar um álbum em uma grande peça para ser apreciada em sequência, no entanto, ela não possui um background de linguagem, e isso fica gritante em vários momentos. Há arcos que são abertos e abandonados; outros que encontram desfecho, mas insatisfatoriamente; e alguns que nem sentido fazem.

É importante termos em mente que o filme só pode ser levado a sério até certo ponto - ele é uma fantasia, no fim das contas, então se permite burlar a lógica. Assim como em "Desventuras em Série", tudo é bastante whimsical, lúdico e por vezes macabro, e a mistura surrealista funciona. Cry Baby e suas amigas são basicamente X-Men, possuindo poderes sobrenaturais que as farão sobreviver àquela tortura - e só me recordava de "Inferno no Colégio Interno", o quinto livro da saga literária "Desventuras". Felizmente, os efeitos visuais dão conta de nos transpor até o universo que, assim como em "Peles" (2015), é enganosamente colorido - há muita sujeira escondida em cada canto da K-12.

Para alguém sem embasamento teórico de linguagem cinematográfica (e feito de forma quase independente), Melanie Martinez realiza um competente filme. Se o roteiro por vezes falha - e as atuações, majoritariamente feita por não-profissionais, não sustentam como deveriam -, o "K-12" compensa em composições imagéticas fantásticas e músicas teatrais e socialmente engajadas - chegam até a soarem misantropas. Aqui temos um estilo - visual e musical - que pode não ser tão saboroso em todos os paladares, porém, Melanie demonstra seu poder em autenticidade, relevância e olhar crítico, qualidades que todo artista busca, mas que nem sempre conseguem.

Crítica: a viagem surrealista (e por vezes assustadora) de Melanie Martinez com o "K-12" Crítica: a viagem surrealista (e por vezes assustadora) de Melanie Martinez com o "K-12" Reviewed by Gustavo Hackaq on 9/06/2019 07:20:00 PM Rating: 5