A Marvel Studios revolucionou o cinema. Por mais que para o Scorsese os filmes sejam apenas "parques temáticos", a quadrinista acertou em cheio ao apostar em um universo cinematográfico compartilhado, o que culminou em um dos maiores eventos da sétima arte quando um arco de pouco mais de 10 anos chegou ao fim em "Vingadores: Ultimato". Entretanto, apesar do grandioso sucesso na tela grande, o mesmo não se repetiu como tanta maestria na televisão.

"Agents of Shield" foi sua primeira aposta e, entre todas, foi a única que realmente perdurou, mas se tornou refém por muito tempo da proposta de fazer parte de um universo compartilhado - mesmo com sua mãe (o cinema) pouco se importando com seus eventos. As séries da Netflix fizeram bem e "Runaways", que foi para o hulu, também, mas nenhuma delas conseguiu se tornar um fenômeno ou então se provar como um produto realmente interessante enquanto universo compartilhado. "WandaVision", que chegou ao Disney+ na última sexta-feira (15), vai mudar esse cenário.


A série protagonizada por Elizabeth Olsen (Wanda) e Paul Bettany (Visão) é a primeira com o selo Marvel Studios, o que prova um verdadeiro compromisso da quadrinista com as novas produções que também chegarão no Disney+ ao longo de 2021. O estúdio está realmente levando à sério esses produtos menores para TV, como também irá levar suas consequências para os cinemas. "WandaVision", inclusive, irá repercutir em "Doutor Estranho: Multiverso da Loucura", invertendo pela primeira vez os papéis entre cinema e TV.

Na trama, acompanhamos o casal mais amado desse universo compartilhado após os eventos de "Vingadores: Guerra Infinita" - onde Visão morre - e "Ultimato". Enquanto produto para aqueles mergulhados no Universo Cinematográfico Marvel, a produção se justifica fácil e não demora muito para que o espectador fique instigado a descobrir porquê Wanda e Visão estão nessa realidade e, o principal, como Visão retornou a vida. Me questiono se esses pontos se validam facilmente para quem teve pouco contato com o universo. Talvez seja por isso que "Lendas", série que resume o arco dos personagens, tenha entrado no catálogo.

Dito isso, é preciso comentar sobre os dois primeiros episódios, que foram liberados juntos na última sexta-feira. Ambos caminham de mãos dadas, como se fossem um único episódio porque tudo é muito introdutório. Enquanto o primeiro é muito mais tímido em dar dicas ao espectador de que há algo errado nesta realidade, o seguinte é bem mais claro neste ponto. Essa evolução deve ficar cada vez mais forte e interessante conforme a trama avança. Caso aconteça o contrário, a série pode ficar cansativa e com a sensação de que a trama não evolui.

Incomoda não saber o que está acontecendo, mas tal incomodo se torna um de seus maiores trunfos.


Se banhando no formato de sitcom - com até mesmo plateia na gravação de algumas cenas, "WandaVision" ganha muito em apostar em um humor estranho com todos os clichês possíveis do gênero, como o humor físico - destaco Bettany no segundo episódio, em que ele fica "bêbado" ao engolir um chiclete. Essa escolha de humor, adicionada às falhas de realidade, que servem para mostrar ao espectador de que há algo errado ali, resultam em uma série que convida o espectador a embarcar nesta viagem cheia de mistérios. Incomoda não saber o que está acontecendo, mas tal incomodo se torna um de seus maiores trunfos.


Não somente uma boa trama, mas os dois primeiros episódios também servem para relembrar ao espectador o quão bem Olsen e Bettany ficam juntos em tela. Eles têm química. O casal foi pouco explorado no cinema e a série irá trazer a justiça tão desejada pelos fãs - principalmente em relação a Wanda. Enquanto Elizabeth domina muito facilmente o papel, com muito carisma, Paul consegue trazer uma versatilidade que seu personagem nunca teve ou sequer exigiu.

O saldo final é bem positivo, provando que "WandaVision" é um ótimo passo para o Universo Cinematográfico Marvel. A série tem todos os elementos para segurar o espectador semanalmente, mas precisa tomar cuidado com o próprio formato escolhido. Compramos o ingresso - neste caso, assinamos o serviço - pelo mistério, não pelas homenagens - que são ótimas - às sitcoms ou algumas boas risadas. Material para se sustentar existe e com toda certeza será utilizado, só tenho medo de quando.

A melhor época do ano para o escritor que cá se encontra é a época de fazer as listas de melhores do mundinho cinematográfico no ano. Gasto horas catalogando tudo o que assisti até a marca temporal que quero fechar (seja a de metade do ano, ano inteiro ou da década), a fim de trazer a você, leitor, o que considero o suprassumo dos lançamentos (dentro da enorme cerquinha da subjetividade, é claro). Mas 2020 foi um ano diferente.



Com a pandemia, a indústria cinematográfica parou. A produção de muitos filmes foram interrompidas, e os já finalizados foram adiados até que as salas de cinemas possam ser reabertas. O mercado brasileiro - ironicamente - acabou sofrendo menos com isso por receber filmes que já rodaram em outros países meses antes - vários do Oscar 2020, por exemplo, que estrearam internacionalmente em novembro e dezembro, só chegaram aqui após a virada da década. No entanto, mesmo com o fluxo de obras sendo drasticamente reduzido, ainda conseguimos assistir a filmes imperdíveis que salvaram nosso ano (e nossa quarentena). Aqui estão meus 20 longas favoritos de 2020.



De indicados e vencedores do Oscar a pérolas de todos os cantos do mundo, os critérios de inclusão da lista são os mesmos de todo ano: filmes com estreias em solo brasileiro em 2020 - seja cinema, Netflix e afins - ou que chegaram na internet sem data de lançamento prevista, caso contrário, seria impossível montar uma lista coerente. E, também de praxe, todos os textos são livres de spoilers para não estragar sua experiência - mas caso você já tenha visto todos os 20, meu amor por você é real. Preparado para uma maratona do que há de melhor no cinema mundial de 2020?

 



20. O Que Ficou Para Trás (His House)

Direção de Remi Weekes, Reino Unido/EUA.

Um casal de refugiados chega na Inglaterra fugindo da guerra no Sudão. Lá, eles são realocados em uma casa e devem aprender a conviver naquela sociedade abertamente racista, porém, o que há de pior não está do lado de fora, e sim dentro da própria casa. "O Que Ficou Para Trás" é o primeiro filme de terror com qualidade a receber o selo Netflix, e isso se deve graças ao diretor e roteirista Weekes que se utiliza de uma situação bastante específica e contemporânea para orquestrar seu horror com competência. Com referências a várias correntes do gênero, de terror coreano a James Wan, o longa acerta (e muito) ao priorizar o drama familiar e introduzir veia cultural e folclórica para gerar autenticidade. "O Que Ficou Para Trás" consegue ter relevância social e cenas visualmente assustadoras na mesma medida.



19. Os Lobos (El Lobos)

Direção de Samuel Kishi, México.

Uma mãe solteira migra do México para os EUA com dois filhos pequenos. O cenário é um que já conhecemos bem: a ida para o utópico sonho americano, e a familiarização com os personagens e suas histórias é instantânea. O longa se passa majoritariamente por meio da ótica dos dois filhos - e remete bastante a "Projeto Flórida" (2017) e "Nós Os Animais" (2018), todos cinemas de denúncia das mazelas do capitalismo com uma narrativa construída ao redor das crianças e como elas enxergam a pobreza. Quando as economias da família são roubadas, o tom do filme de Kishi é imposto, demonstrando perfeitamente qual é a sua visão (fundamental) de nós enquanto sociedade.



18. Rede de Ódio (Hejter)

Direção de Jan Komasa, Polônia.

Um estudante de Direito é expulso por plágio. Sem expectativas, ele tem como único objetivo entrar no coração de uma família rica enquanto possui uma vida dupla em uma agência de relações públicas especializada em difamações online. "Rede de Ódio" - disponível na Netflix - é um terror da contemporaneidade. Entramos no fundo do poço de mentiras, manipulações e narrativas de ódio que permeiam a política, empurrando o roteiro para medidas extremistas. Uma sessão desoladora por refletir tão bem nossa realidade que se utiliza da tecnologia para promover a intolerância e o fascismo. Pode se passar na Polônia, porém, consegue refletir bem o que passamos no aterrador Brasil atual.



17. Os Perseguidos (Queen & Slim)

Direção de Melina Matsoukas, EUA.

"Queen & Slim" é um daqueles filmes corretos lançados no momento correto. Seguindo o casal protagonista, a vida dos dois é permanentemente afetada quando são parados com um policial branco, que - por basicamente nada - quase os mata. Em legítima defesa, Slim atira no policial, desencadeando uma fuga nacional enquanto protestos contra abusos raciais rolam pelo país. Estreia no Cinema de Melina Matsoukas, diretora de vários videoclipes, como "Formation" da Beyoncé, é bastante intrigante - e também triste - que "Queen & Slim" tenha sido lançado poucos meses antes de George Floyd perder a vida. Floyd não foi o primeiro (e, infelizmente, não deve ser o último) a passar pelo o que passou sob o poder de um sistema que não encontrou falhas ao longo do caminho, e sim foi construído para ser assim, o que faz de "Queen & Slim" um quadro e um aviso de uma sociedade claramente doente.



16. A Primeira Vaca (First Cow)

Direção de Kelly Reichardt, EUA.

Jogando o espectador para o séc. XIX, no interior dos Estados Unidos, "A Primeira Vaca" é um filme que exala simplicidade à primeira vista, mas é muito mais complexa do que aparenta. A amizade improvável de dois homens, que mudará os rumos de toda a cidadezinha em que vivem, é transformada com a chegada da primeira vaca de toda a região, propriedade do homem mais rico de lá. Eles então começam a roubar o leite da vaca para ganhar dinheiro, o que trará uma ruína já exposta na primeira cena. É realmente impressionante como Kelly Reichardt é capaz de extrair tanta pureza, conflitos e divertimentos em cima de uma trama tão básica. Nunca na história do Cinema uma vaca causou tantos problemas.



15. Lindinhas (Mignonnes)

Direção de Maïmouna Doucouré, França.

A Netflix deve se culpar até hoje pela maneira como (quase) destruiu "Lindinhas": inicialmente com uma identidade visual completamente inadequada, a própria diretora da obra, Maïmouna Doucouré, revelou que que se chocou com as escolhas da plataforma e com o número de ameaças de morte que recebeu com a explosão do filme pós-Netflix. Ela não foi consultada sobre as estratégias de marketing adotadas e recebeu um telefonema do próprio CEO da plataforma, desculpando-se pelo ocorrido. No entanto, era tarde demais. O fenômeno ao redor de "Lindinhas" é um afinco estudo sobre a cultura do cancelamento e como as pessoas estão ávidas para eleger o anticristo da semana e derramar ódio sem total embasamento. Se a Netflix errou ao criar a arte inadequada para a obra, é um erro pequeno perto da narrativa criada contra o filme, que culpabiliza (e ameaça) não apenas uma indústria, mas pessoas reais como eu e você. "Lindinhas" encontra precisão enquanto complexa e desafiadora arte contra a sexualização de crianças e um bom objeto de estudo (apesar de involuntário) sobre a criação de percepções na internet em tempos de redes sociais.



14. Nunca Raramente Às Vezes Sempre (Never Rarely Sometimes Never)

Direção de Eliza Hittman, EUA/Reino Unido.

O aborto é um dos temas mais controversos da nossa sociedade atual, encontrando discussões muito calorosas sobre os dois extremos do debate. "Nunca Raramente Às Vezes Sempre" é a carta-aberta de Eliza Hittman sobre a temática. Uma garota de 17 anos está grávida e, com a ajuda da melhor amiga, vai até Nova Iorque para realizar um aborto. A superfície do longa carrega características que, de maneira previsível, nos dará a ideia de irresponsabilidade por parte da garota, contudo, o roteiro nos empurra para um mergulho muito complexo que explica tudo o que ocasionou a protagonista estar ali. A cena que dá título ao filme já é uma das mais incríveis do ano pela veracidade e dor que o corpo feminino está sujeito nas mãos do patriarcado.



13. Outra Rodada (Druk)

Direção de Thomas Vinterberg, Holanda.

Thomas Vinterberg teve uma carreria de altos e baixos: de criador do movimento Dogma 95 com Lars Von Trier a filmes rechaçados pela crítica, o holandês viu na década passada a estabilização de sua arte. "Outra Rodada", sua segunda parceria com Mads Mikkelsen, é mais um capítulo de sucesso em sua filmografia. Vinterberd e Mikkelsen se uniram em 2012 com "A Caça", obra-prima indicada ao Oscar e que verá o mesmo feito com "Outra Rodada"; um grupo de amigos de meia-idade abraçam uma teoria de mantimento do nível alcóolico no sangue para salvar o marasmo de suas vidas, o que não demorará a se mostrar um plano ruim. Unindo em doses sábias de humor e drama, o longa é um estudo esperto da nossa relação com o vício e uma carta de Vinterberg ao amor pelo Cinema: sua filha iria estrelar a fita, porém, morreu com três semanas de filmagens.



12. O Poço (El Hoyo)

Direção de Galder Gaztelu-Urrutia, Espanha.

"O Poço" talvez seja o filme mais badalado de 2020. Não por ser o mais assistido ou o melhor, mas por ter sido lançado em um terreno absurdamente fértil para fomentar suas discussões - e foram inúmeras ao longo das semanas após a Netflix jogar a obra em seu catálogo. Conhecemos uma prisão vertical que tem uma curiosa (e cruel) forma de alimentar seus detentos: através de um poço, onde o andar de baixo comerá o que sobrou do andar de cima. As discussões de “O Poço” soam óbvias – é só você ler a sinopse que a fundamentação central da fita estará presente. Sim, esse é um filme que quer mostrar como a estruturação do Capitalismo é falha, desumana e cruel – e provavelmente você, proletariado, já sabe disso. “O Poço” é uma alegoria brilhantemente terrível da natureza humana que gera indagações ao mesmo tempo que executa um trabalho de gênero delicioso.



11. E Então Nós Dançamos (And Then We Danced)

Direção de Levan Akin, Geórgia/Suíça.

A melhor fita LGBT do ano até o momento, "E Então Nós Dançamos" vem de um país que você talvez nem saiba onde se encontra: a Geórgia, um pequeno país na divisa entre a Europa e a Ásia. Com um cinema ainda proporcional ao tamanho do país, não se engane, a Geórgia é dona de filmes fantásticos, e "E Então Nós Dançamos" foi o selecionado ao Oscar 2020. Um dançarino vai ter que escolher entre aceitar sua sexualidade em um país sufocantemente homofóbico ou viver uma mentira assim que outro dançarino chega em sua escola. A dança georgiana, presente em todo o filme, é usada como catalizador desse amor proibido que termina, também, como um belíssimo documento cultural - e, sem surpresa, foi recebido com protestos pedindo o cancelamento das sessões. No entanto, o filme foi lançado, uma vitória para a resistência LGBT.



10. Devorar (Swallow)

Direção de Carlo Mirabella-Davis, EUA.

Esse pequeno horror indie causou desde a estreia no Festival de Tribeca ano passado, e, ainda bem, não ficou apenas no shock value: uma jovem e recém-casada mulher tem dificuldade em manter o casamento e a vida doméstica. Afogada em tédio e distanciamento emocional, ela descobre que está grávida, fato que desencadeia um transtorno que a faz engolir os mais diferentes objetos. "Devorar" recebeu uma embalagem colorida, harmônica e deliciosa, um contraste perfeito para toda a carga obscura de sua trama. Carregado pela atuação exemplar de Haley Bennett, o filme é uma mistura de "Grave" (2016) com "O Bebê de Rosemary" (1968), transformando o drama de sua protagonista em potência do horror. Bon appétit, baby.



09. Viveiro (Vivarium)

Direção de Lorcan Finnegan, Irlanda.

Todo ano precisamos de pelo menos um longa que seja a definição de "amei, mas não entendi", e "Viveiro" é o nome perfeito para isso. Quando um casal visita um conjunto habitacional em busca de um imóvel e fica preso nas ruas com casas totalmente iguais, rapidamente percebem que foi sua última decisão na vida. Estamos vivenciando uma fase interessante na mistura de horror e ficção científica, casando criatividade com as colunas dos dois gêneros: atmosfera e reflexão. "Viveiro" sem dúvidas não é um longa para qualquer paladar: é uma fita lenta, estranha, sufocante e que não vai entregar seus segredos de mão beijada. Sua beleza imagética esconde toda sua bizarrice com uma estética que passeia por "Edward Mãos de Tesoura" (1990) e "O Show de Truman" (1998), e transforma a casa própria, uma das mais desejadas paisagens, em um verdadeiro labirinto em que cada esquina é um pesadelo.



08. Nós Duas (Deux)

Direção de Filippo Meneghetti, França.

O cinema LGBT viu um apogeu na década passada, e tivemos inúmeras fitas que já entraram para a história, no entanto, ao mesmo tempo, estamos em uma era de saturação na exploração dessa temática, apesar de ser uma comunidade tão plural. A premissa de "Nós Duas", representante francês ao Oscar 2021 de "Melhor Filme Internacional", parecia sobrevoar essa mesma saturação: duas mulheres guardam seu romance há décadas, até que uma tragédia fará com que o segredo saia do andar em que as duas vivem. Lésbicas sofrendo as opressões da sociedade para poderem se amar, groundbreaking. Contudo, "Nós Duas" atinge insano sucesso por trazer um casal idoso, algo por si só negligenciado nas telas, e pelas construções afiadas para justificar sua existência. Esse é um romance lésbico violentamente apaixonante que faz com que esqueçamos os clichês para abraçar uma veracidade rara.



07. Mentira Nada Inocente (White Lie)

Direção de Yonah Lewis & Calvin Thomas, Canadá.

A história nem é tão inovadora: uma garota está fingindo ter câncer e sua mentira vai chegando cada vez mais perto de um inevitável fim. As grandes sacadas de "Mentira Nada Inocente" são: o roteiro, que prende a plateia na indagação "onde isso vai parar", e Kacey Rohl, na pele da protagonista. Não apenar um filme LGBT que foge totalmente das pautas clássicas da temática, a película é carregada pela insana atuação de Rohl, que dá literal vida a uma enganação de maneira tão forte que ela mesma acredita. A tensão é construída brilhantemente, e não conseguimos desviar os olhos da tela graças à certeza da ruína eminente de plano na protagonista. Até aonde alguém vai para sustentar uma mentira? A resposta está aqui.



06. Joias Brutas (Uncut Gems)

Direção de Josh Safdie & Benny Safdie, EUA.

Adam Sandler é um ícone do cinema norte-americano, mas pelos motivos errados. Ele já possui nada mais nada menos que NOVE Framboesas de Ouro (que premia o que há de pior no Cinema), inclusive sendo o detentor do recorde de maior número de prêmios em uma noite: "Cada Um Tem a Gêmea Que Merece" (2011) foi indicado a sete Framboesas e ganhou todas. Todavia, Hollywood adora ver um nome falido encontrando o Olimpo com alguma fita, e Sandler encontrou com "Joias Brutas". Os diretores, os irmãos Josh e Benny Safdie, adoram pegar atores considerados ruins e transformarem em donos de prêmios - como Robert Pattinson com "Bom Comportamento" (2017) -, e o Olimpo de Sandler foi fabuloso: dono de uma joalheria, ele é viciado em jogos de azar e vai levar a vida de todo mundo ao redor numa montanha-russa eletrizante, marca dos irmãos Safdie. "Joias Brutas" é um estudo de personagem raro e imperdível que entrega muito mais que um ator ruim conseguindo quebrar o estigma.



05. Os Miseráveis (Les Misérables)

Direção de Ladj Ly, França.

O vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2019 ao lado da obra-prima tupiniquim "Bacurau" (2019), "Os Miseráveis" é mais um filme a analisar a brutalidade da polícia (majoritariamente contra pessoas negras), tendo a França depois da vitória na Copa do Mundo 2018 como palco principal. Indicado ao Oscar 2020 de "Melhor Filme Internacional", o filme possui vários polos que se chocarão da mesma forma como os diferentes contextos culturais do caldeirão que é Paris, tendo um policial que atira em uma criança negra como estopim de uma revolta. É um daqueles filmes enormes, que não terminam com o rolar dos créditos, permanecendo com o espectador por muito tempo ao pôr no ecrã tantos debates pertinentes e atuais.



04. 911 (idem)

Direção de Tarsem Singh, EUA.

Raramente nas listas de melhores do ano incluo curtas-metragens - é meio injusto comparar um trabalho de minutos com outro que percorre horas -, todavia, "911" consegue burlar qualquer duração. O curta musical de Lady Gaga para a faixa de mesmo nome é, de longe, um dos maiores atos audiovisuais do ano ao transformar uma música pop em um ato imagético de profunda simbologia. Tocando em temas como ansiedade, doenças mentais e remédios antipsicóticos, Tarsem Singh deixa jorrar toda sua veia estilística e molda o filme como uma grande odisseia alucinógena em que cada quadro é milimetricamente irretocável - e, não se contentando em ser visualmente espetacular, ainda tem um plot twist de cair o queixo. Seja pelo nível de produção absurdo ou pela extrapolação do conceito da canção, "911" é um daqueles trabalhos que merecem ser chamados de geniais e que devem em nada na corrente do cinema folclórico, simbolista e surrealista.



03. 1917 (idem)

Direção de Sam Mendes, Reino Unido.

Filme de guerra chegando em premiações, alguém ainda aguenta isso? "1917" teve o trabalho inicial de conseguir conquistar um público cansado de um molde bélico feito para arrepiar a epiderme de premiações, e o resultado é (quase) irretocável - não por acaso ganhou três Oscars e sete BAFTAs. Com foco na Primeira Guerra Mundial, o trabalho segue dois soldados que são mandados em uma missão a fim de evitar um combate ainda maior e mais trágico. Filmado com a técnica de plano sequência - como se não houvesse cortes -, "1917" possui a consciência de que toda a fotografia, som, direção de arte e qualquer elemento técnico não sustenta uma arte que é, primordialmente, o ato de contar uma história. Os pequenos tropeços são ínfimos em meio à experiência visual e sensorial que imerge o espectador nos horrores e nas glórias desse período, sendo um daqueles filmes que nos recorda o quão impressionante e indispensável é a Sétima Arte. Nenhuma outra mídia seria capaz de causar o mesmo impacto.



02. O Chalé (The Lodge)

Direção de Veronika Franz & Severin Fiala, Reino Unido/EUA.

O segundo filme da dupla austríaca que nos presenteou o clássico moderno "Boa Noite Mamãe" (2014), "O Chalé" satisfará o paladar de quem gosta do tipo de terror do primeiro. Duas crianças perdem a mãe quando ela se suicida depois de um ex-marido começar a namorar uma mulher nova. O pai tenta (com insistência) aproximar os filhos da namorada, que possui um passado macabro e, segundo a prole, possui algo de muito errado. Eles ficam presos em uma cabana, e situações inexplicáveis desafiam a sanidade de todos. "O Chalé" nada contra a maré do modelo atual de cinema de terror, acomodado em berrar sustos, e edifica sua atmosfera com muito cuidado, trabalhando com sugestões e temáticas geralmente tratadas com pobreza. A religião católica já perdeu as contas de quantos filmes a tomam como ethos de maneira preguiçosa, sem agarrar o quão assustador pode ser quando roteirizada da maneira certa, e "O Chalé" é um desses exemplos de sucesso, ainda mais louvável quando não possui uma trama sobrenatural, bengala batida e saturada dentro do gênero.



01. Nova Ordem (Nuevo Orden)

Direção de Michel Franco, México.

"Nova Ordem" provavelmente é o filme mais controverso do ano. O "ame ou odeie" definitivo da aurora da nova década, a nova empreitada de Michel Franco segue a coerência de sua filmografia ao contar mais uma história polêmica e difícil: durante uma revolta das classes mais pobres, os militares aproveitam para dar um golpe de Estado, que levará ricos e pobres para o mesmo buraco. A película é mais uma enciclopédia de "franciana" sobre a maldade humana, mas dessa vez com fortíssimo viés político. Sua moral é óbvia: em um mundo sem a menor empatia e afogado em egoísmo e corrupção, todos nós perdemos. Em meio a uma onda do conservadorismo, do reacionarismo e do fascismo que vêm assolando inúmeras nações mundo afora, a distopia do longa choca pela gigante proximidade com o real. Assistir a este nascimento de uma ditadura termina tão forte, alarmante e pretensioso graças à escolha do diretor de não dar uma aula de História no ecrã, e sim realizar um verdadeiro filme de terror.



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O Cinematofagia está cada vez mais próximo de publicar a lista com os melhores filmes deste difícil 2020, mas antes vamos celebrar as 15 melhores atuações do ano.


De vencedoras da temporada a estreias inacreditáveis, a lista segue as seguintes regras: não há separação entre papéis protagonistas e coadjuvantes, tendo como critério de inclusão a estreia do filme em solo tupiniquim dentro do ano ou com o filme chegando à internet sem distribuição no país até o fechamento da lista.



Não assistiu a algum dos longas aqui listado? Não se preocupe, pode ler todos os textos que são sem spoilers - e em seguida correr para aclamar essas performances maravilhosas. Quem é indicado ao Oscar Cinematofagia de "Melhor Atuação" do ano? Você pode conferir abaixo.




Adam Sandler em "Joias Brutas"

A missão dos irmãos Josh e Benny Safdie no mundo do Cinema é pegar atores considerados medíocres e transformá-los em apostas no Oscar. Em "Joias Brutas", foi a vez de Adam Sandler. O ator, guilty pleasure e recordista em Framboesas de Ouro (o Oscar dos piores filmes), é há tempos massacrado pela crítica com sua enxurrada de comédias tenebrosas, mas lá no fundo há um bom ator, e aqui está a prova. Sua atuação em "Joias Brutas" - que, apesar de injustamente não ter sido indicada ao Oscar, rendeu o Spirit Award e o National Board of Review de "Melhor Ator" - é um daqueles casos que Hollywood faz renascer a carreira de um nome falido.



Kacey Rohl em "Mentira Nada Inocente"

A história nem é tão inovadora: uma garota está fingindo ter câncer e sua mentira vai chegando cada vez mais perto de um inevitável fim. As grandes sacadas de "Mentira Nada Inocente" são: o roteiro, que prende a plateia na indagação "onde isso vai parar", e Kacey Rohl, na pele da protagonista. Não apenar um filme LGBT que foge totalmente das pautas clássicas da temática, a película é carregada pela insana atuação de Rohl, que dá literal vida a uma enganação de maneira tão forte que ela mesma acredita.



Lady Gaga em "911"

Lady Gaga não surpreende mais no mundo da música, provando há mais de uma década o monstro que é nos palcos, mas foi com "Nasce Uma Estrela" (2018) que ela mostrou seu talento para atuação. É verdade, ela já revelava isso em alguns de seus curtas musicais, e "911" é o ápice: percorrendo toda a narrativa onírica de maneira estrelar, é no plot twist que Gaga libera toda a sua potência e já nos deixa ansiosos para seus próximos passos na Sétima Arte.



Haley Bennett em "Devorar"

Longas que quebram a glamourização da maternidade - e que até a transformam em terror - estão aí há tempos, e "Devorar" é o filhote de "O Bebê de Rosemary" (1968) que estávamos esperando. Uma jovem e recém-casada mulher tem dificuldade em manter o casamento e a vida doméstica. Afogada em tédio e distanciamento emocional, ela descobre que está grávida, fato que desencadeia um transtorno que a faz engolir os mais diferentes objetos. Haley Bennett talvez não havia aceitado um papel tão desafiador quanto esse em sua carreira, e o desafio foi conquistado de forma brilhante.



Sidney Flanigan em "Nunca Às Vezes Raramente Sempre"

Sidney Flanigan fez uma daquelas históricas estreias no Cinema: seu primeiro papel, em "Nunca Raramente Às Vezes Sempre", inundou a atriz de aclamação e prêmios na atual temporada. No filme, ela é uma menina de 17 anos que, ao se ver grávida, embarca em uma viagem pelo país em busca do aborto. É claro que com essa temática a produção está rodeada de polêmicas, contudo, o roteiro empurra as previsibilidades e coloca Flanigan como porta-voz de um tópico que ainda precisa de muito debate.



Daniel Kaluuya & Jodie Turner-Smith em "Os Perseguidos"

"Os Perseguidos" - ou como eu prefiro chamar, "Queen & Slim" (o título original) - ganharia o Oscar de "Melhor Timing" caso houvesse a categoria. É uma fita sobre truculência policial contra a população negra lançado em meio ao movimento "Black Lives Matter". Quando um casal negro, em uma abordagem totalmente desproporcional, mata um policial branco, suas vidas estão condenadas para sempre. O road-movie de estreia de Melina Matsoukas (diretora do lendário clipe de "Formation" da Beyoncé) é lindamente conduzido por Jodie Turner-Smith (em seu primeiro protagonismo) e Daniel Kaluuya (protagonista do oscarizado "Corra!", 2017), que choram, suam e sangram em nome das vidas negras que são constantemente dizimadas pelo racismo estrutural.



Delroy Lindo em "Destacamento Blood"

Depois do imenso sucesso com "Infiltrado na Klan", 2018 (que finalmente lhe rendeu um Oscar), Spike Lee apertou as mãos da Netflix e lançou "Destacamento Blood", mais uma empreitada que deve ir direto para o coração da Academia. E o que há de maior apreço aqui é a atuação antológica de Delroy Lindo. O longa se divide bastante em termos de protagonismo, contando até com o recém-falecido e jamais esquecido Chadwick Boseman, no entanto, é Lindo que assalta todos os momentos em sua caída rumo à loucura, potencializada pela caça a um tesouro que custará a vida de muitos. O Oscar de "Melhor Ator" já tem um indicado.



Kelvin Harrison Jr. em "As Ondas"

"As Ondas", até metade de sua duração, é uma obra-prima, e isso se deve, e muito, à Kelvin Harrison Jr. Popular aluno, aspirante e brilhante atleta, sua vida é completamente perfeita até que ele descobre uma lesão em seu ombro que o tirará permanentemente do esporte. Com sua vida ruindo rapidamente, ele levará a situação a um ponto extremo que só funciona graças à sua performance de tirar o fôlego que hipnotiza pela veracidade.



Fathia Youssouf Abdillahi em "Lindinhas"

Sem entrar muito no tópico de como a Netflix quase destruiu "Lindinhas" com seu marketing desastroso, esse foi um dos filmes mais falados do ano na plataforma. Há muita discussão acerca de seu posicionamento, mas há um ponto que se destaca: como Fathia Abdillahi, de 11 anos e em seu primeiro trabalho na telona, foi capaz de interpretar uma personagem TÃO complexa. Esmagada entre a cultura tradicional de sua família versus a liberdade por vezes sem freios da modernidade, a garotinha entra para um grupo de dança que replica o que há de pior na sexualização de crianças. É um trabalho difícil e Abdillahi jamais fica aquém da empreitada.



Maria Bakalova em "Borat: Fita de Cinema Seguinte"

Sacha Baron Cohen deu um show de atuação como o tresloucado jornalista cazaque no filme original de 2006. É claro que a história não seria diferente no lançado-de-surpresa "Borat 2". Só que ele nem é a maior revelação do longa, e sim Maria Bakalova, atriz búlgara que interpreta Tutar, a filha do jornalista que é usada como presente para o então vice-presidente dos EUA. Muito mais que um pastelão escatológico, a presença de Bakalova é fundamental para a veia feminista de toda a loucura, e ela definitivamente rouba a cena de Cohen - e isso quer dizer muita coisa.



Helena Zengel em "Transtorno Explosivo"

Outra criança mostrando que talento não tem idade? Sim, temos. Helena Zengel teve, de longe, o trabalho que mais exigiu de um ator em 2020, e ela entregou sem defeitos. Vivendo uma menina com o transtorno do título, sua personagem é corretamente insuportável ao carregar uma doença mental seríssima que dificulta a vida de todo mundo ao seu redor. Ela grita, ataca e esperneia, e fica ainda mais impressionante assistir às entrevistas de Helena, tão doce e contrastante à sua personagem, um poço e ódio nem sempre reprimido.



Imogen Poots em "Viveiro"

Imogen Poots é uma atriz que merece ser descoberta pelo grande público. Apesar de um currículo vasto, a inglesa ainda não caiu nos radazes de grandes performers do momento, todavia, "Viveiro" veio para mudar essa impressão. Na bizarra fita, ela, juntamente com o namorado, está em busca da tão sonhada casa própria, que não tardará a ser um pesadelo. Poots cai em uma espiral de paranoia, isolamento e desespero com uma facilidade sobrenatural, já trazendo uma das melhores atuações do século.



Riley Keough em "O Chalé"

"O Chalé" não poderia ser O terror de 2020 sem uma atuação à altura. Riley Keough não tem medo de personagens que vão exigir o máximo dela - seu currículo filmográfico não mente -, e ela adiciona "O Chalé" ao seu mais-que-capaz portfólio. Uma breve descrição de como é seu papel é capaz de ilustrar o tamanho da responsabilidade: filha de um fanático religioso, ela foi a única a sobreviver de um massacre-suicida que matou todos da sua comunidade; agora, já adulta, ela ainda sobre gatilhos com imagens sacras, tomando remédios para manter sua curta sanidade mental. Keough, como em todo bom filme de terror, vai perdendo o controle da sua mente e calmamente arromba as portas do Inferno na tela.



Julia Garner em "A Assistente"

Julia Garner tem apenas 26 anos, mas já se encontra no caminho perfeito para cair nas graças de Hollywood. A garota, que começou a carreira liderando dramas indies, já possui um Emmy - de "Melhor Atriz Coadjuvante" pela série "Ozark" (2017-). Ela agora retorna em mais um protagonismo que mostra todo o seu talento. Em "A Assistente", Garner é a personagem título de uma empresa cujo chefe impõe um ambiente totalmente tóxico e machista. Com uma câmera que não descola de seu rosto, ela entrega nuances certeiras de um meio sufocante para quem é mulher.


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Para abrir as listas de "Melhores de 2020" aqui no Cinematogafia, depois de um dos anos mais instáveis da história da Sétima Arte, aqui estão as 10 melhores fotografias do ano, aquelas que nos fizeram falar "dá o Oscar para esse enquadramento". Mas antes de tudo, o que é fotografia?


A fotografia - ou cinematografia, no jargão técnico mais apropriado - é o termo que mais sofre quando alguém elogia o "visual" do filme. Ao contrário do que se pode presumir, a fotografia não é necessariamente tudo o que está na tela, tudo o que podemos ver; ela é a "impressão" do roteiro, ou seja, os enquadramentos, movimento de câmera, uso de filtros, manipulação de cores, exposição de luz e afins.


Quando alguém solta um "olha a paleta de cores maravilhosa desse filme!", muitas vezes ele não está falando da fotografia, e sim do design de produção - a chamada "direção de arte", que compõe todo o aparato físico que está no ecrã. As cores, parte visual mais emblemática, entra tanto na fotografia - pelo trabalho do colorista - como na direção de arte - no trabalho do cenógrafo - e nos figurinos - no trabalho do figurinista. São departamentos distintos e realizados por profissionais diferentes; é a união de todos que fazem um filme ser "bonito" (ou não, caso propositalmente).


Então, o que a lista está julgando é o trabalho de câmera juntamente com a colorização das películas. O critério de inclusão dos citados é o de sempre: ter estreado nacionalmente (em salas comercias, festivais ou plataformas de stream) em 2020 ou ter chegado à internet sem data de lançamento previsto. Preparado para fazer a linha cult na próxima roda de amigos e falar das fotografias mais estonteantes do cinema em 2020? Aqui as 10 melhores pelo Cinematofagia:



Mank

Cinematofragia: Erik Messerschmidt. Edição de Cor: Eric Weidt.

"Mank", novo filme de David Fincher, tem todos os elementos que fazem a Academia tremer da base: é uma homenagem ao eleito "melhor filme de todos os tempos", "Cidadão Kane" (1941). O longa não apenas vai até os passos que levaram à produção do clássico como remonta perfeitamente a rodagem de um filme na Era de Ouro de Hollywood, e a fotografia não poderia ficar de fora. Pesadamente inspirada no trato visual de "Kane", revolucionário dentro do quesito, todo quadro da cinematografia de Erik Messerschmidt aponta para a grandiosidade das películas de época. Pelo menos a indicação ao Oscar da categoria o filme leva - e se ganhar a estatueta, não será surpresa.



A Primeira Vaca

Cinematografia: Christopher Blauvelt. Edição de Cor: Sam Fischer.

Jogando o espectador para o séc. XIX, no interior dos Estados Unidos, "A Primeira Vaca" é uma obra que exala simplicidade à primeira vista, mas é muito mais complexa do que aparenta. A amizade improvável de dois homens, que mudará os rumos de toda a cidadezinha em que vivem, é capturada com uma fotografia estonteante de Christopher Blauvelt, sabiamente executada em um plano mais quadrado, um dos principais elementos que fazem o público embarcar no período.



911

Cinematografia: Jeff Cronenweth. Edição de Cor: Dave Hussey.

Lady Gaga, conhecida pelos videoclipes extravagantes e produções faraônicas, é uma cinéfila de carteirinha, já tendo referenciado inúmeros filmes ao longo da carreira. Com "911", curta em parceria com o aclamado diretor Tarsem Singh, o patamar é elevado para níveis raramente vistos na cultura pop. Inspirando em nomes como "A Cor de Romã" (1969), "8½" (1963) e "A Montanha Sagrada" (1973), a execução imagética realizada pelas mãos de Jeff Cronenweth é de cair o queixo, não se contendo em abocanhar imagens belíssimas como ousando em enquadramentos que denotam toda a carga de sua temática.



Casa de Antiguidades

Cinematografia: Benjamín Echazarreta. Edição de Cor: Mickaël Commereuc.

Se "Casa de Antiguidades" frustrou enquanto obra, sua fotografia deve em nada. Fincado no Brasil atual, em uma colônia de leite sulista, o longa busca retratar as garras do racismo e ageísmo da nossa sociedade. Como era de se esperar, esse retrato vai ganhando ares cada vez mais fantasiosos para encaminhar suas discussões para campos além do óbvio, e a cinematografia de Benjamín Echazarreta é um dos transportes dessa viagem sempre imageticamente bonita.



Devorar 

Cinematografia: Katelin Arizmendi. Edição de Cor: Sam Daley.

"Devorar" pode ser usado com excelente estudo de como a fotografia deve ir bem além de um elemento "bonito" dentro do filme: ela é usada para potenciar a atmosfera da narrativa. Seguindo uma dona de casa de classe alta que passa os dias na tediosa rotina doméstica, Katelin Arizmendi é largamente influenciado por "O Bebê de Rosemary" (1968), ao atirar a maternidade em um campo que beira o sobrenatural e a questionar de formas corajosas e longe de toda a glamourização a obrigação imposta sobre as mulheres no ato de procriar.



Viveiro

Cinematografia: MacGregor. Edição de Cor: Gary Curran.

O objetivo de quase toda cinematografia é emoldurar o ecrã da maneira mais natural e real possível, contudo, o caso de "Viveiro" vai para o extremo oposto. O filme necessita de uma cinematografia totalmente artificial para dar vida ao seu estranho roteiro, e MacGregor atinge sem dificuldades o propósito. Com seu design de produção esteticamente correto é fachada para a trama, com a fotografia escondendo toda a bizarrice com uma estética que passeia por "Edward Mãos de Tesoura" (1990) e "O Show de Truman" (1998), e transforma a casa própria, uma das mais desejadas paisagens, em um verdadeiro labirinto em que cada esquina é um pesadelo.



O Chalé

Cinematografia: Thimios Bakatakis.

Um dos elementos mais seminais para a construção de um bom terror é a fotografia - e não é de admirar que os melhores filmes do gênero também possuem cinematografias de sucesso. "O Chalé" entra nesse panteão: a película nada contra a maré do modelo atual de cinema de terror, acomodado em berrar sustos, e edifica sua atmosfera com muito cuidado, trabalhando com sugestões e temáticas geralmente tratadas com pobreza. A fotografia - do mesmo responsável por "O Lagosta" (2015) e "O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017) - é fundamental na imersão da história quando captura luzes naturais de maneira não convencional, no limiar entre claridade e escuridão.



1917

Cinematografia: Roger Deakins. Edição de Cor: Greg Fisher.

O atual detentor do Oscar de "Melhor Fotografia", falar do trato visual de "1917" é chover no molhado: a maneira como o longa foi filmado é espetacular. A fotografia de Roger Deakins - que também levou o Oscar por "Blade Runner 2049" (2017) - faz um preciso balé coreografado enquanto segue os protagonistas incessantemente. Editado para parecer uma rodagem sem cortes, o trabalho de câmera rende sequências que já entraram para a história do Cinema pela precisão e poder - e aqui, os exemplos são vários.



Maria & João: Conto de Bruxas

Cinematografia: Galo Olivares. Edição de Cor: Mitch Paulson.

"Maria & João" foi uma fita quase universalmente subestimada, tanto pelo público como pela crítica. É claro, a releitura da história clássica poderia ser muito mais potente caso não cedesse a comodismos (o final é particularmente fraco), todavia, há um elemento indiscutivelmente fantástico aqui: sua cinematografia. "Maria & João" aprendeu com "A Bruxa" (2015) a como fazer um filme de época no aparato visual. Cheio de simbolismos, cores artificiais e enquadramentos irretocáveis, Galo Olivares - em seu trabalho de estreia na cadeira de cinematógrafo em um longa - mostra a que veio sem sutilezas.



O Poço

Cinematografia: Jon D. Domínguez.

Quando um filme longe dos cofres bilionários de Hollywood consegue um feito além da média em termos técnicos, sabemos que é um sucesso. "O Poço", produção espanhola, é um desses filmes. "O Poço" impressiona pelo requinte técnico – e é a estreia do diretor Galder Gaztelu-Urrutia, mais um motivo para potencializar a boa realização da película. Toda a concepção visual da trama é realizada fantasticamente; quase inteiramente filmado em um único cômodo, o que exigiu o triplo da cinematografia de Jon Domínguez, que foi capaz de dar o tom correto da claustrofóbica trama.


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O feat é real, Brasil! Depois de muitas especulações e o silêncio ensurdecedor de todas as artistas envolvidas, chegou a confirmação: na próxima segunda-feira (21) tem música nova da cantora Luísa Sonza ao lado de Pabllo Vittar e Anitta.


Primeiro single de seu segundo álbum, sucessor do aclamado “Pandora”, do qual extraiu hits como “Pior Que Possa Imaginar” e “Garupa”, a parceria se chama “Modo Turbo” e precisou ser revelada após o vazamento de sua capa pelas redes sociais.



Levando em consideração o histórico de colaborações entre as cantoras, é certo que o hit virá mais do que pronto: Luísa e Pabllo cantam juntas em “Garupa”; já com Anitta, a cantora dividiu os vocais em “Combatchy”, e, sem a cantora de “Braba”, Anitta e Pabllo são as vozes do smash hit “Sua Cara”. OU SEJA.


A ficha técnica da faixa também é promissora. “Modo Turbo” tem os mesmos compositores de hits como “Boa Menina”, da Luísa Sonza, e “Disk Me”, da Pabllo, além da produção do criador do Baile da Gaiola, Rennan da Penha, ao lado do Rafinha RSQ, que assina faixas como “Loka”, de Anitta e Simone & Simaria, “Século 21”, de Luísa com Léo Santana, e um dos maiores hits brasileiros do segundo semestre deste ano, “Só Tem Eu”, do cantor Zé Felipe. Os streamings que lutem.



Gente como a gente, quem já está animadíssima pra essa parceria é ninguém menos que a rapper Cardi B, que celebrou a colaboração pelo Twitter, afirmando: “mal posso esperar pra ouvirrr!”. Super por dentro do pop brasileiro, a artista colabora com Anitta em “Me Gusta” e, recentemente, também elogiou o visual de Pabllo Vittar inspirado em um de seus penteados no clipe de “Bandida”.



Se tem a benção da Cardi, tá mais do que aprovada, né? Anota aí: Luísa Sonza, Pabllo Vittar e Anitta. “Modo Turbo”. Segunda.