Os Grammys de Beyoncé dizem muito sobre o problema racial da premiação

Com vinte prêmios Grammy em sua estante, a cantora só possui um gramofone dentro das categorias principais.

Não é de hoje que, ao debatermos os problemas raciais em torno do Grammy, surgem pessoas questionando onde fica o racismo quando a premiação premia artistas como Beyoncé, Jay Z, Alicia Keys, entre outros, e prestes a assistirmos à mais uma edição do evento, temos aqui a resposta.

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Na edição desse ano, Beyoncé é uma das artistas mais indicadas, por conta dos trabalhos com o disco “Lemonade” e voto de confiança da sua gravadora, que tentou nomeá-la até mesmo para a categoria country, por conta da faixa “Daddy Lessons”, mas a cantora possui grandes chances de terminar a noite sem o gramofone mais importante, de ‘Álbum do Ano’, graças a um histórico muito perceptível na sua estante de prêmios.



Sendo uma das maiores ganhadoras de Grammy da indústria atual, Beyoncé ostenta nada menos do que 20 prêmios da academia, entretanto, basta olhá-los com mais calma para perceber o detalhe assustador: na maioria das vezes em que compete com artistas brancos, a cantora perde, tendo apenas três prêmios dentro de categorias gerais.

Com exceção do prêmio técnico ‘Best Surround Sound Album’, de “Beyonce” (Grammy de 2015), ‘Melhor Vocal Pop Feminino’ de “Halo” (2010) e ‘Música do Ano’ de “Single Ladies” (2010), todos os outros gramofones de Beyoncé estão nas categorias dedicadas ao hip-hop e R&B, há anos utilizadas como uma forma da academia – e outras premiações – separar os artistas negros dos seus favoritos brancos, numa forma de reconhecer o talento dos primeiros, enquanto permanecem com o privilégio dos segundos.



A discussão em torno da segregação racial dentro do Grammy acontece há muito tempo e, nos últimos anos, artistas como Azealia Banks, Kanye West, J. Cole e Frank Ocean foram alguns dos que já se posicionaram sobre o assunto, mas na mesma medida em que esses debates avançam, percebemos o quanto ainda estamos longe de atingir um ponto de equidade, com ênfase para as edições dos últimos três anos, nas quais percebemos o crescimento de artistas brancos nas ditas categorias negras, perceptível favoritismo aos brancos que fazem R&B e hip-hop e até mesmo exclusão de negros entre as apostas e revelações do ano. 



Cientes da cobrança cada vez maior em torno dessas premiações, como foi o caso do Oscar, que lidou com a campanha ‘Oscar So White’ (Oscar Tão Branco, em português), a edição do Grammy desse ano se empenhou em refletir certa diversidade: Beyoncé é a artista mais indicada e, numa tentativa de reparar o erro de suas edições anteriores, o evento dedicará um prêmio de honra para Nina Simone, que nunca ganhou um Grammy em vida. O cantor Prince, que conquistou apenas quatro gramofones ao longo de sua carreira, também será homenageado.



Em 2017, nossa atenção fica para as categorias de Álbum, Gravação e Música do Ano, majoritariamente disputadas por Adele e Beyoncé, bem como Artista Revelação, que traz os artistas negros Chance The Rapper e Anderson Paak, ao lado de The Chainsmokers, Kelsea Ballerini e Maren Morris.



O Grammy Awards 2017 acontece na noite desse domingo (12), com transmissão ao vivo no Brasil pela TNT, e ficamos na expectativa de tê-los assumindo uma postura diferente dos anos anteriores. Já deu de ver artistas negros sendo desvalorizados por conta de trabalhos brancos muitas vezes superestimados.