Frank Ocean critica o racismo do Grammy: “Meu maior tributo é ficar fora disso”

Em resposta aos produtores da premiação, cantor publicou uma carta aberta, na qual questiona o privilégio branco da premiação.

Na noite desse domingo (12) acontece mais uma edição do Grammy Awards e, apesar de contar com alguns dos melhores lançamentos do último ano entre seus indicados, a academia não terá a oportunidade de premiar o cantor Frank Ocean por seu maravilhoso “Blonde”.



A decisão partiu do próprio Ocean, que não se vê representado pelo evento, e apesar de muitos apontarem o boicote da academia, visto que, como já fizeram outras vezes, poderiam considerar o disco elegível mesmo assim, o cantor não parece interessado no seu gramofone. E o motivo é simples: o racismo que ainda persiste dentro da premiação.

Faltando pouco para o evento acontecer, entretanto, as discussões reascenderam por conta dos produtores da premiação, David Wild e Ken Ehrlich, que deram uma entrevista para a Rolling Stone, na qual recordam o episódio com Frank e afirmam que sua recusa ao Grammy está relacionada à performance que ele fez em 2013.

Frank tinha uma ideia muito definida sobre o que e como ele queria fazer isso [a performance de ‘Forrest Gump’, em 2013]. Ken disse que ‘isso não é bom para a TV’, e o que ele disse foi ‘Nós não estamos colocando isso num programa de rádio... Você tem que tornar isso grandioso para a TV’”, relembrou David. “Ele sabia desde o início que esse não seria seu caso.

“Ele foi rígido”, continuou Ken. “Nós executamos sua visão sabendo que era defeituosa. Seus sentimentos sobre o Grammy hoje provavelmente estão ligados à isso.”



Em seu Tumblr, o cantor de “Nikes” respondeu aos comentários por meio de uma carta aberta, na qual ressalta que seu desinteresse pelo Grammy vai além de motivos pessoais, criticando o racismo e privilégio branco por trás da premiação do álbum “1989”, da Taylor Swift, na edição em que concorria com “To Pimp A Butterfly”, do rapper Kendrick Lamar.

Leia a carta traduzida na íntegra abaixo:

“Certo, Ken (e David). Por mais que eu odeie torna-los famosos ou mesmo responde-los diretamente, todos vamos morrer um dia e vocês já estão velhos pra caralho, então que se foda. 

Sim, minha performance de 2013 no Grammy foi absolutamente ruim. Dificuldades técnicas, bla bla bla. Obrigado por me lembrarem. Muito obrigado. Mas que se foda essa performance. Vocês acham que é por isso que eu deixei meu trabalho fora do Grammy neste ano? Não acham que eu teria aceitado tocar no evento para me ‘redimir’ se fosse o caso? 

Na verdade, eu queria participar da homenagem ao Prince, mas depois percebi que meu melhor tributo ao legado desse homem seria continuar sendo eu mesmo fora disso e bem sucedido. Vencer um programa de TV não me consagra bem sucedido. E levei algum tempo para aprender isso. Eu comprei todos meus mestres no ano passado, no auge da minha carreira, isso é ser bem sucedido. ‘Blonde’ vendeu um milhão de cópias sem uma gravadora, isso é ser bem sucedido. Eu sou jovem, negro, talentoso e independente... Esse é o meu tributo. 

Eu realmente andei assistindo a CBS durante essa época do ano para ver quem receberia a honra máxima, e sabem o que não é ‘bom para a TV’, caras? [Ver] ‘1989’ ganhando de ‘To Pimp A Butterfly’ na categoria de álbum do ano. Sem comentários para um dos momentos mais ‘defeituosos’ que eu já vi na TV. Acredite nas pessoas. Acredite naqueles que preferem assistir às seletas performances do seu programa pelo Youtube no dia seguinte, porque seu evento dá sono. Use esse velho gramofone para ouvi-los de verdade, caras. 

Eu sou um dos melhores vivos e, se você estiver disposto a discutir sobre os problemas culturais e os danos causados pela premiação que vocês produzem, então estarei aqui para isso. Tenham todos uma boa noite.”

Se for para acrescentar algo, só desenhando, hein?



Com a indicação do álbum “Lemonade”, da Beyoncé, ao lado do “25”, da Adele, na categoria ‘Álbum do Ano’, a edição do Grammy desse ano tem grandes chances de repetir a mesma polêmica da anterior, visto que um dos discos carrega não só o apreço crítico, como também um importante contexto questionador e político, enquanto o outro tem um dos maiores hits de sua intérprete, em tempo que, apesar da aclamação crítica, não reflete a grandiosidade dos seus trabalhos anteriores.