Crítica: para o bem de "Atividade Paranormal", é bom que "Dimensão Fantasma" seja o último

Pela primeira vez vimos a atividade...e não nos impressionamos tanto assim

Quando Oren Peli lançou de forma independente “Atividade Paranormal” lá em 2007 ele jamais imaginou o impacto que o filme teria. Divulgado em pequenos festivais, a Paramount Pictures viu o potencial do longa e logo comprou os direitos, re-editando e lançando-o em 2009. Aquele projeto que custou míseros 15.000 dólares arrecadou mundialmente quase 200 milhões, o que o marcou como o filme mais rentável da história do cinema – a bilheteria daria para fazer 13 mil filmes iguais –, batendo o recorde que parecia inabalável de “A Bruxa de Blair” (1999), o mais rentável por 10 anos.

Curiosamente, “Atividade Paranormal” e “A Bruxa de Blair” são filmes de terror found footage. Ambos foram decisivos em suas respectivas épocas como ditadores de estilo no gênero, mas “Atividade Paranormal” conseguiu manter-se vivo por quase uma década, algo que “A Bruxa de Blair” de forma cambaleante tenta até hoje. “A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras” (2000) tentou continuar o sucesso da futura franquia, mas foi um caos rejeitado pesadamente pela crítica. O reboot “Bruxa de Blair” (2016) veio quase duas décadas depois dar um sopro de vida na franquia, apesar das gratuidades. Não está fácil para o terror.


“Atividade Paranormal” teve sorte: contando todos os filmes da franquia, desde os lineares até os spin-offs, temos sete filmes – mas “Atividade Paranormal em Tóquio” é sempre deixado de lado por não conter fatos da linhagem original. O que viria a ser apenas uma trilogia acabou se desdobrando em duas. Enquanto os três primeiros são bem coesos ao abordar de diversas formas a família da trama central, os três últimos começaram a extrapolar o mundo criado pelos originais, introduzindo novas famílias que de alguma forma se ligarão com os protagonistas da série, o que claramente diminuiu tanto nosso envolvimento quanto o próprio desenvolvimento da série.

Em “Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma” temos Ryan (Chris J. Murray), a esposa Emily (Brit Shaw) e a filha Leila (Ivy George). Os três se mudam para a nova casa, onde esperam recomeçar a vida. Lá, o pai encontra uma caixa dos antigos moradores cheias de fitas VHS e uma câmera. Ao explorar as descobertas eles se deparam com filmagens de duas meninas numa espécie de culto, enquanto a câmera registra estranhas entidades pela casa. É aí que a atividade paranormal começa contra a família.


O arco narrativo do filme é igualzinho a todos os outros. A casa que parecia pacífica e um novo ponto de partida começa a se mostrar hostil e perigosa. Qual é o diferencial em “Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma”? Depois de cinco filmes nós finalmente podemos ver as atividades. A câmera encontrada por Ryan foi modificada com lentes especiais para registrar a entidade na casa. O que antes era algo invisível que puxava as pessoas e jogava objetos para cima agora tem forma – de fumaça, óleo, ou seja lá o que for. Além disso, o sexto exemplar da franquia é o primeiro a ser feito em 3D.

O uso do 3D em filmes de terror é quase sempre clichê: feito para jogar os mais diversos objetos na cara do espectador. “Dimensão Fantasma” faz isso sim, com o demônio, ou, para os íntimos, Toby, lutando contra a câmera que o denuncia, porém não se limita a isso. A profundidade de campo cria efeitos interessantes para a áurea do filme, além de ser bem utilizada em momentos onde a câmera entra no espectro, jogando o espectador de forma mais realista na situação. Mas alguém pode explicar porque o filme é tão escuro? Em alguns momentos nós não conseguimos ver tudo o que o 3D veio a acrescentar, o que acaba irritando – para que o efeito então?

O início do filme foi feito de forma que não se encaixa com os filmes anteriores, filmado de modo que não tem de fato tanta justificativa. Só na metade do longa, quando os pais decidem espalhar câmeras pela casa, que o tom da franquia se encaixa – e o filme começa de verdade. Isso acaba prejudicando o andar da carruagem, que, ao não encontrar justificativa convincente para as filmagens desde o início do filme, soa gratuita, só se fortalecendo quando a família percebe que realmente há algo de errado.


A própria família, que tem absolutamente nada relacionado com Katie e Micah (os protagonistas originais), também demora a engatar. Já estávamos condicionados na realidade dos personagens, então, ao aparecer do nada pessoas que devem começar do zero seus desenvolvimentos em curtos 88 minutos, muita coisa se perde – efeito parecido com “Atividade Paranormal 4”, que ainda funciona de forma melhor. Tudo só termina (mesmo aos trancos e barracos) dando certo por já estarmos engatados na história. Os roteiristas não perdem tempo introduzindo os personagens quando deveriam, afinal, nós já sabemos o que eles passarão, e é isso que importa.

Como já apontado, o uso do 3D foi minimamente aprovado, mas o filme perdeu ao construir a entidade numa forma indefinida. Não dá para esquecer de uma cena do primeiro filme: Micah joga talco pelo chão da casa e, ao acordar, encontra pegadas não humanas, o que em nada se assemelha com a coisa mostrada aqui – e estamos falando do mesmo demônio. Isso pode comprovar uma das máximas do cinema de terror: o medo habita naquilo que não podemos ver. Quando Toby era invisível, nós grudávamos na cadeira. Agora que ele é visível, a magia se perdeu, principalmente por não ser uma criatura realmente assustadora – como o demônio do filme “Sobrenatural” (2011), o que continuaria a assustar.


Depois de seis filmes, os sustos se tornam previsíveis. É possível saber todos os momentos onde vai acontecer alguma coisa, mesmo que ainda assim a tensão surja. Nossos olhos calejados depois de tantas estripulias agora são mais rígidos e não tremem por qualquer coisa, soando como algo que não deu tão certo assim – levando em consideração o fato que podemos ver o demônio que pula na nossa cara com o 3D e ainda assim soa fraco perto de algo que não existia fisicamente nos primeiros filmes.

Recém-chegado no catálogo da Netflix, obviamente a película é exibida em 2D, o que tira grande peso da pouca novidade que o longa trazia – sem o 3D, “Dimensão Fantasma” soa ainda mais como um terror ordinário, tão distante do frescor e do pavor criado pelos filmes originais, tão distantes. E esse é o revés de qualquer franquia, principalmente as voltadas para o terror: sua longevidade possui data de validade curta, já que a reciclagem da fórmula cansa, os sustos se dissipam e a comodidade impera.

“Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma” é um filme não-tão-necessário assim para a conclusão da franquia – o final do anterior, “Marcados Pelo Mal” (2014), foi bem mais interessante ao fechar arcos da história –, mas consegue ser minimamente divertido e ter sequências empolgantes (como a do lençol no clímax, uma das melhores). Não há imperdoáveis pecados além dos efeitos especiais plásticos e das fitas VHS filmadas em qualidade de DVD, todavia as atuações, algo cada vez pior no terror atual, são corretas (principalmente da menininha), o que faz o filme passar de ano com uma grande dose de boa vontade. Para não acabar com toda nossa simpatia, é bom que “Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma” seja o último filme da saga mesmo. "Jogos Mortais" (2004-presente) nos provou que tudo pode acontecer.

Crítica: para o bem de "Atividade Paranormal", é bom que "Dimensão Fantasma" seja o último Crítica: para o bem de "Atividade Paranormal", é bom que "Dimensão Fantasma" seja o último Reviewed by Gustavo Hackaq on 4/18/2018 03:37:00 PM Rating: 5

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