Crítica: "Death Note" é o novo e terrível capítulo da empreitada netflixiana no cinema

Original Netflix, o live action do cultuado mangá japonês é mais um desastre americanizado para o catálogo da plataforma

A maioria das pessoas segue uma rota certeira no consumo da cultura moderna: elas preferem ler o livro - ou seja lá a plataforma original de uma obra - antes de assistir à adaptação para o cinema (ou tv). Aqui criou-se a máxima de que "todo livro é melhor que o filme", o que é, no mínimo, uma generalização equivocada. Mas não entremos nesse mérito, o ponto que quero chegar é: eu faço o caminho inverso, prefiro assistir primeiro à adaptação audiovisual antes de embarcar na mídia original.

A justificativa para isso é simples. Eu, como crítico de cinema, quero prezar ao máximo a análise do que está diante de mim na tela. Quando já temos todo o background de um livro, meio que sem querer não assistimos ao filme, e sim vamos fazendo uma lista de check-in ou check-out em tudo que o filme (ou a série) tirou (ou acrescentou) do tal livro. No fim das contas, estamos julgando uma mídia com uma linguagem completamente diferente baseada em outra. Nos contaminamos.

Esse rápido desabafo não tem o intuito de fazer com que você, leitor, pegue a contra-mão do seu já delimitado caminho de consumo, você pode continuar tranquilamente lendo o livro antes de assistir ao filme, porém, por favor, não veja o filme com os olhos do livro. Ele não está ali para ser 100% igual (e nem deveria). Essa síndrome acaba acometendo de forma mais crônica se você for muito fã da obra-original, aí é partir para o pronto socorro mais próximo. Não importa se o vestido da Hermione na adaptação de "Harry Potter e o Cálice de Fogo" era de uma cor diferente no livro, procure ajuda psiquiatra.


Dito isso, venho por meio desse informar que não li o mangá original de "Death Note", live action lançado essa semana pela Netflix, antes de assistir ao filme (o primeiro volume do mangá está na minha mesa neste momento). Mesmo conhecendo a história, não pude ainda me aprofundar nos detalhes que a intrigante trama nos entrega, então a análise do filme será baseada unicamente no que ele apresenta, uma forma mais, usando uma péssima palavra, "objetiva" de criticá-lo. Você não verá aqui que o longa mudou a personalidade de tal personagem ou se aquela cena no mangá era diferente. Provavelmente já devem existir posts na internet comparando tais obras, porém aqui isso é irrelevante.

O longa conta a história de Light Turner (Nat Wolff), adolescente que certo dia encontra um caderno preto. Chamado de "Death Note", o tal caderno, como informam as instruções, mata qualquer nome que você colocar ali. Mas o caderno não vem sozinho: acompanhado dele surge Ryuk (voz do ótimo Willem Dafoe), o deus da morte que criou o livro. O demônio (podemos chamar assim) passa a ser o mentor de Light enquanto esse vai desfrutando dos poderes do caderno.


"Death Note" então encontra várias similaridades com "A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell" (2017). Ambos são 1 filmagens americanas 2 baseadas em mangás japoneses 3 ricos em filosofia 4 com personagens brancos ao invés de orientais e 5 produções terríveis. Enquanto "Ghost" até tenta não deixar tão óbvio sua veia ocidental, "Death Note" é nada sutil em gritar "sim, eu sou norte-americano". O filme começa com um prólogo onde vemos, em câmera lenta, toda a apoteose do clichê hollywoodiano: líderes de torcida de um lado, atletas jogando futebol americano do outro, numa escola secundária que você já viu em inúmeras produções da terra do Trump. Já de início o diretor Adam Wingard esfrega na nossa cara o distanciamento da obra original - o que não é um problema. O problema é abraçar tantos lugares-comum de uma só vez.

Light também é um chavão ambulante: nerd que faz o dever de casa dos outros, deslocado, que tem crush numa líder de torcida e apanha dos valentões da escola. É certo que as expectativas são problemas nossos, mas quando estamos diante de uma premissa que fala sobre um livro que mata pessoas, é impossível esperar uma obra que não seja, no mínimo, sombria. Porém, o tom adotado por "Death Note" é o mais puro "Sessão da Tarde". Quando o protagonista encontra Ryuk pela primeira vez, dá gritinhos estridentes e saltinhos. Os diálogos entre os dois são desconcertantes tanto por Light quanto pela personalidade adotada pelo demônio.


Estamos falando de um deus da morte que, por pura diversão, joga um livro mortal na Terra para testar como os seres humanos se comportam diante de tamanho poder. É ou não é uma sacada brilhante? Mas Ryuk aqui é quase um bobo da corte, com risadinhas irônicas e vício em maçãs. Um demônio de mais de dois metros de altura deixa de ser uma composição visual impactante e que poderia gerar tensão para se tornar banal.

E se estamos falando de um filme sobre um livro que mata gente, então estamos falando de morte. Para dar aquele climão, as mortes no filme são exageradíssimas, com sangue jorrando para todos os lados a fim de chocar o máximo possível. Nem na saga "Jogos Mortais" vimos decapitações, empalamentos e um gore tão histriônicos - e que nunca funciona. É o mesmo que tentar dar sustos colocando um barulho muito alto. Você pula da cadeira, mas gratuitamente.

O filme possui três momentos que são os pilares da sustentação do roteiro. O primeiro é quando Light encontra o caderno, o estopim principal para toda a trama. O segundo acontece quando ele se aproxima de Mia Sutton (Margaret Qualley), a tal crush da escola. Na primeira vez em que conversam, ela vê o garoto lendo o caderno (porque claro, nada mais óbvio que você levar uma arma mágica para folhear dentro do ginásio). Ao ser questionado sobre o que era aquilo, ele, depois de relutar um pouco, revela o que o caderno faz. Ele poderia ter dito "Ah, é um livro que simula um manual de serial killers, bem estranhão" ou qualquer desculpa (essa foi, literalmente, inventada por mim durante a exibição do filme), mas não, ele diz o que o caderno é. Para uma garota que ele nunca falou na vida. Qual grau de irresponsabilidade é atingido quando você conta para um estranho um segredo que pode matar qualquer pessoa?


O romance miojo então é posto para ferver e os dois viram parceiros da eliminação de bandidos que eles encontram na internet e pelo acesso de Light no banco de dados criminal, já que seu pai, James Turner (Shea Whigham), é da polícia. Num desenvolvimento porco, o casal (já podem ser chamados assim) cria então o Kira, uma entidade quase onipresente que mata bandidos ao redor do mundo - um Dexter sem fronteiras. A personalidade acaba virando alvo de culto popular e se torna quase uma entidade divina na terra, ganhando rapidamente seguidores internacionalmente. Aqui estamos frente a frente com outro argumento poderosíssimo de discussão, todavia, mais uma vez, o roteiro apressado e raso faz toda a dominação mundial/social/política/religiosa do Kira ser feita em pouquíssimos minutos. A força bélica de uma entidade invisível que quer "eliminar o mal" em nome de "deus" vai por ralo abaixo.

Com a influência do Kira, surge então o terceiro pilar do filme: L (Keith Stanfield), um detetive altamente excêntrico e viciado em doces, passa a caçar a entidade - já que ele matou mais de 400 pessoas, mesmo sem L saber de que forma. Um jogo de gato e rato então se inicia enquanto L está cada vez mais perto de Light, que tem que administrar o caderno e o ego de Mia, cada vez maior. A partir de então, "Death Note" se torna um legítimo filme policial, se afastando da ideia elementar e focando nas formas que Light tenta para escapar das garras de L - esse, pelas composições rasteiras impostas pelo roteiro, deixa de ser uma figura excêntrica e enigmática para soar forçado.


A escalação de Keith foi alvo de muitas críticas por ele ser, bem, negro. A ironia maior é que seu personagem é o único que ainda consegue funcionar dentro da catarata de escolhas erradas da produção. Não houve tanta comoção na escolha dos outros atores brancos - Wolff é absolutamente sem carisma e nunca consegue dar profundidade ao complexo protagonista. São tantos erros juntos que o whitewhasing é quase soterrado, no entanto o problema existe e os dedos apontados apenas para Keith demonstram como o embranquecimento é perdoado. Quando a cor da pele é moeda mais importante que o talento em atuar.

"Death Note" é um filme ruim por si só pela equivocada direção, roteiro terrível e atuações deprimentes, mas se torna ainda pior por ser originário de um material tão rico, inteligente e desafiador. A migração para a América parece que emburrece fontes estrangeiras, e aqui temos muito pano para manga. Seria então o público norte-americano tão plastificado que o nível intelectual de algo de fora tem que ser diminuído para ser posto à venda? O número de remakes massacrantes comprovam.

A Netflix, que se orgulha de colocar o selo "Original" na produção, acrescenta mais um capítulo na sua escolhas péssimas de distribuição da sétima arte. Se no campo das séries a plataforma mostra domínio ("Orange Is The New Black", "House of Cards", "Stranger Things" e "Desventuras em Série" são alguns felizes nomes), no cinema de ficção seu dedo é podre. Mesmo possuindo bons nomes e documentários relevantes no máximo grau, exemplares como "Os Seis Ridículos", "Okja" e "O Último Capítulo" são amostras de que a gigante da cultura deveria mesmo apostar nas séries.

"Death Note" entra para esse lamentável hall como produto descartável que não faz justiça nem a quem não é familiarizado com o mangá (para os fãs, então, deve ser um crime). Chegamos a um ponto em que devemos cada vez mais louvar a criatividade, a expertise e as boas produções e repudiar mercadorias que colocam o espectador em papel de idiota, para que filmes como esse "Death Note" sejam barrados antes mesmo de verem a luz do dia.