Crítica: "Okja" é um filme caricato e panfletário pronto para a Sessão da Tarde

"Okja" perde a seriedade de suas discussões no meio de situações e personagens dignos do "Zorra Total"

Atenção: a crítica contém spoilers.

"Okja" pode parecer um filme bastante inocente quando temos a história de uma garotinha tentando salvar a vida de sua amiga porca, mas desde a estreia no Festival de Cannes, em maio, a produção encontra polêmicas – conservadoras, mas ainda assim polêmicas. O festival, bastante tradicional, abriu as portas pela primeira vez para filmes que não são exibidos nos cinemas na competição da Palma de Ouro, o que enfureceu a muitos.

Quando o logo da Netflix, produtora da obra, apareceu durante a exibição, vaias ecoaram pela sala. Se de um lado temos essa resistência pela era dos streamings, por outro parece um final óbvio para a nova era do Cinema: o império construído pela Netflix já chegou até ao Oscar. Mesmo com as vaias, para contrabalancear, o longa recebeu palmas no término da sessão.

"Okja" é o sétimo filme do sul-coreano Bong Joon-ho, diretor dos ótimos "O Hospedeiro" (2006) e "Mother: Em Busca da Verdade" (2009), e o segundo filmado (parcialmente) em inglês - o primeiro foi "Expresso do Amanhã" (2013). Destrinchando ainda mais a premissa, temos um mundo onde a fome impera e a Corporação Mirando, liderada pela CEO Lucy Mirando (Tilda Swinton) desenvolveu um "superporco": uma raça de porcos modificada que aumentam seu tamanho e podem ser a solução da fome. 26 desses bichinhos (nada pequenos) são enviados para 26 fazendeiros ao redor do mundo para que, com as condições climáticas diferentes, a empresa descubra qual será, em 10 anos, o melhor dos superporcos. É aí que entra Mija (Ahn Seo-hyun), uma garotinha dona de Okja, a malfadada superporca que será eleita a melhor da raça (feita com competentes efeitos especiais).


A menina é enganada pelo avô (Byun Hee-bong) quando Dr. Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), zoólogo e porta-voz da Mirando, anuncia que Okja é a vencedora. O avô, que mentiu dizendo que tinha comprado a porca, revela que a empresa não quis vendê-la e que agora ela vai até Nova Iorque, o que enfurece Mija. A garota então parte numa caçada global para resgatar sua melhor amiga.

A obra então se divide em duas vertentes: de um lado temos a aventura de Mija para se reencontrar com Okja e do outro temos uma viagem ao submundo da indústria alimentícia. A corrida da protagonista se difere em nada de qualquer filme da Sessão da Tarde onde o dono perde o cachorro e sai à procura para, no final, voltarem juntos felizes para casa, por exemplo, então o peso da mensagem cai em cima da segunda vertente.


Sabe aquele ditado “Quando você descobre como se faz salsicha, não vai mais querer comer”? Pois é, é mais ou menos assim que “Okja” deseja discutir o uso animal na indústria. Joon-ho, no entanto, não é um cineasta que se leva tão a sério. Em “Mother” o diretor aborda assuntos bastante complexos, porém, não abre mão de uma veia cômica que dificilmente funciona na maior parte dos filmes. Mas em “Mother” funciona pelas doses modestas, o que não acontece em “Okja”.

Talvez pela visibilidade, sendo um filme com grande elenco hollywoodiano e distribuído pela Netflix, Joon-ho cai de cabeça no pastelão, no mais comercial possível. Praticamente todos seus personagens são extremamente caricatos, parecendo bem mais personagens de desenho animado. O pobre Jake Gyllenhaal, coitado, é uma mistura bizarra de Ace Ventura (Jim Carrey) com Borat (Sacha Baron Cohen), cheio de trejeitos insuportáveis e uma voz desastrosa. Bêbado então, uma vergonha. O personagem, literalmente, poderia não existir que a história mudaria em pouquíssima coisa, sendo facilmente substituído.


E esse é o principal problema da película: levar na brincadeira algo que deveria ser mais sério. Não, o tema não precisaria de um estilo documental, seco, corretíssimo, no entanto, há tanta baboseira envolvida que é impossível apreciar as discussões mais relevantes do roteiro: ao invés de transformar o riso em algo inteligente, a linguagem não nos faz levar a sério o que está exposto. É quando o lúdico deixa de agregar para ser pateta.

Há, aqui, um cerne claro: consumo irresponsável de carne é ruim. Diferente do que muitos dizem, “Okja” não é um filme pró-veganismo; a própria protagonista come carne. O que o filme tenta debater é como a indústria lida com a vida de animais para o consumo humano e como ignoramos todos os maus tratos enfrentados pelos bichos em prol do nosso churrasco de domingo.

Tal discussão é absolutamente válida e urgente, entretanto, “Okja” não abre mão dos macetes mais forçados possíveis para julgar toda a trama: de um lado temos Mija, a inocente e determinada protagonista, que encontra forças com uma associação de libertação animal (uma versão mais radical e ficcional do PETA); do outro, a Corporação Mirando, com seus malvados e cruéis proprietários, que só visam o lucro a qualquer custo. O binarismo “bem” versus “mal” de segunda série aqui não dá o peso das enormes camadas que a situação pede, com toda a trajetória obrigando o espectador a cair de um dos lados do ringue ao invés de expor seus lados de forma natural. Você é obrigado a engolir o que o filme diz, o que torna a discussão sem propósito, já que, no fim das contas, não é bem uma discussão.


Com a discussão posta goela abaixo, sobra ao longa a viagem de Mija até Okja. Uma das melhores coisas da obra é o uso de atores orientais e falas coreanas, o que não torna toda a coisa em uma novela da Glória Perez onde todas as pessoas do mundo falam a mesma língua (sem sotaque). Nos primeiros encontros dos americanos com Mija, há um tradutor, que inclusive gera um dos melhores momentos da fita, porém, em determinado momento, o filme se cansa dessa barreira linguística e faz com que a protagonista aprenda inglês dentro de um voo. Sim, a garotinha sai do avião entendendo e falando inglês básico, uma língua absurdamente diferente do coreano. Superdotada, QI avançado.

Outro ponto interessante é a inteligência dos superporcos: eles são capazes de realizar cadeias de pensamentos complexas. Numa cena, onde Mija cai num precipício, Okja, com uma corda, consegue desenvolver grandes cálculos matemáticos para poder salvar a dona. Perto do final, ao sair de um matadouro na sede da Mirando, um casal de porcos entrega seu bebê porco para que Mija o leve a salvo, numa hiper humanização dos bichos, mais humanos que nós mesmos. A cena, o ápice constrangedor do filme (e olha essa disputa que é páreo duro), joga gás lacrimogêneo tela adentro com todos os porcos se compadecendo da própria situação e chorando em coro. Melodrama mexicano.


Para finalizar o show de erros que encontramos aqui, a solução é completamente sem propósito: Okja vai até Nova Iorque porque o avô de Mija não consegue comprá-la. Com o dinheiro, ele compra uma porca de ouro e dá para a neta. Faltando segundos para a morte de Okja (claro), Mija oferece a porca de ouro em troca de sua amiga. Nancy Mirando, a irmã (ainda mais) malvada de Lucy (também interpretada por Swinton, dessa vez reforçando a afetação), decide aceitar a oferta. Ora, pra quê então todas as duas horas de projeção se a solução já estava ali desde o começo do filme? E se a irmã "menos malvada" não aceitou a venda, quais as chances da pior aceitar?

E é cômico, para não dizer trágico, a forma como o filme termina: tudo continua do jeito que começou. A Mirando continua abatendo porcos enquanto Mija volta para casa tranquila com Okja (e o bebê porco). Ela só queria resgatar a amiga, e quando o fez, seguiu com sua vida enquanto o próximo porco entrou na linha de produção para ser morto. "Okja" é um ciclo vicioso: toda a sua duração começa e termina praticamente no mesmo lugar, Mija com Okja, Mirando matando seus animais. A obra faz a mesma coisa que critica: todos nós sabemos dos problemas e crueldades da indústria animal, mas continuamos a viver sem grandes preocupações, assim como a "heroína".

“Okja” tem boas intenções, isso não há como negar, num longa que minimamente nos bota para pensar sobre capitalismo e o que colocamos em nossos pratos, e há um belo design de produção e momentos agradáveis  o início, mostrando a vida de Mija com sua porca de estimação, é fofo , contudo, a propaganda panfletária e didática contra o uso indiscriminado de animais para o consumo predatório se torna chacota com todos os elementos paupérrimos utilizados para construí-la, o que desvia também o público-alvo da película. Não é um clássico infantil, pelas discussões avançadas e sua linguagem, mas definitivamente não é um filme adulto, por todo o pastelão "Zorra Total". Pela aventura clichê e previsível, o emocionalismo barato, as soluções preguiçosas e os personagens vergonhosos, “Okja” é um ótimo filme para vender pelúcia, mesmo seu animal mais parecendo um hipopótamo do que um porco.