Crítica: os prazeres da carne escancarados no canibal e saboroso "Grave"

Bom apetite, bebê

Uma das formas de marketing mais eficientes que um filme de horror pode conseguir, e ainda melhor, de graça, é quando alguém na plateia passa mal, vomita ou até desmaia. Desde “O Exorcista”, que fez o público levar saquinhos de vômito às sessões, até nossa digitalizada modernidade, as manchetes contando como as cenas gráficas de um longa reviram os estômagos são tiro e queda para fazer o sucesso no boca a boca.

Exemplo atual dessa propaganda gratuita está com “Bite” (2015): durante sua exibição no Festival Fantasia International Film, uma pessoa vomitou, duas desmaiaram e uma bateu a cabeça na escada da sala de cinema ao tentar fugir da sessão (!?). É claro que o filme não desperdiçou o feito, que logo foi chamado de “o terror que fez pessoas desmaiarem”. Pena que essa propaganda serviu só para atrair atenção ao longa, que é absolutamente descartável.

Em 2017 já temos o detentor de uma marca parecida. Dezenas de pessoas desmaiaram e passaram mal durante a sessão do francês “Grave” no Toronto International Film Festival ano passado. O filme conta a história de Justine (Garance Marillier), uma garota recém-aprovada na faculdade de Medicina Veterinária. Ela provém de uma família completamente vegetariana, incluindo seus pais e irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), também estudante de veterinária. Ao chegar ao trote do curso, ela é forçada pela irmã a comer carne – para sua surpresa, já que seus pais não sabem que Alexia largou o veganismo.


A partir dessa ruptura em sua dieta, Justine vai pouco a pouco percebendo as delícias do mundo carnívoro, porém sua fome é específica: ela anseia por carne humana. Sim, “Grave” é um legítimo body-horror sobre canibalismo, como o recente (e péssimo) “Canibais” (2013), porém não espere o choque de filmes como “Jogos Mortais” (2004) ou “O Albergue” (2005). “Grave” segue a tradição do horror francês e dá ênfase aos seus simbolismos, usando o gore como material de costura da trama.

O corpo de Justine é o templo da obra. A garota pura, virgem, vegetariana e dentro da linha encontra na faculdade um universo completamente destoante da sua realidade. Após comer a carne no trote e, pela primeira vez, experimentar algo novo, seus sentidos se abrem para todas as novidades que ali habitam, não sem antes passar por radicais mudanças físicas, como as urticárias terríveis que aparecem em seu corpo, filmadas sem piedade, a primeira grande dose do horror a ser explorado pela película.


O colega de quarto da protagonista é Adrien (Rabah Naït Oufella). Mesmo sendo gay, o rapaz começa a virar interesse de Justine conforme sua fome vai aumentando. Numa cena bastante emblemática, durante uma aula, os dois devem dissecar um cachorro. Justine o faz sem o menor tremor, enquanto conversa sobre coisas corriqueiras, para o espanto de Adrien. Como uma premonição, tanto para o lado de cá da tela, que sabe que há algo de errado, como para Adrien, é o momento em que a garota perde sua humanidade para abraçar o lado bestial da nossa espécie. 

Há certa áurea de dualidade na persona de Adrien. O rapaz se torna alvo do desejo de Justine, porém há o fator preponderante para a não confirmação dessa luxúria: ele é gay. Não fica exatamente claro os motivos que levaram a diretora a dar essa característica a ele. Seria o reforço da proibição da fome de Justine? Esta fome é tanto a fome sexual como "alimentícia", então seria assim o modo encontrado pela diretora de deixar Adrien completamente aquém dos desejos da garota? Há, sim, uma discussão interessante aqui, porém existem acontecimentos que incomodam diante da realidade homossexual do personagem, bastante sexualizado (há diversas cenas dele envolvendo sexo). Não sabemos a real intenção da realizadora, então preferimos levar a trama que o envolve para um lado não-homofóbico, sem enxergar o personagem servindo de puro objeto carnal da protagonista, ignorando sua própria sexualidade.


O próprio curso superior é por si só uma bela metáfora para a obra: Justine não estuda Medicina, e sim Medicina Veterinária. Ela pouco a pouco vai se aproximando do prisma animalesco que reside nela mesma e ao seu redor. O fato de ela estudar animais é uma jogada esperta da diretora/roteirista Julia Ducournau, que usa e abusa de takes com os mais diversos bichos, unindo uma realidade humana com a natural. Para Justine, estuprar um animal é tão psicologicamente traumático quanto estuprar um ser humano, prova da igualdade entre nós para a garota. E também seria bem prático se Justine estudasse Medicina: era só fazer um lanchinho de um dos cadáveres do curso e resolvido o problema.

Numa outra cena, Justine ouve uma música hiper sexualizada enquanto dança diante do espelho. Remetendo a uma cena-chave de “Demônio de Neon”, a protagonista passa um batom vermelho e beija o próprio reflexo, assim como Jesse (Elle Fanning) beija sua imagem em puro torpor. Ambas estão ali aceitando seus poderes femininos, seus corpos, suas sexualidades.

No fim das contas, é exatamente sobre isso que “Grave” quer debater: repressão sexual feminina. Todo o gore usado é, claro, puro elemento cinematográfico, capaz de extrair grandes emoções – é improvável que você não sinta pelo menos repulsa de alguma das cenas –, todavia, esse jogo visual nada mais é que uma metáfora sobre Justine conhecendo o sexo. Sua família a cria numa restritiva dieta vegetariana, assim como garotas são criadas para serem recatadas, sem sexo, virgens. A partir do momento em que ela prova a carne proibida, ela descobre as alegrias dos prazeres da carne, passando a desenvolvê-los cada vez mais.


O problema é que a garota não consegue controlar seus impulsos. A fome que a deixa animalesca – como a cena da filmagem na festa comprova – são os desejos mais primitivos do homem controlando sua existência. A única coisa que a move é saciar essa fome, e a carne humana ali serve para qualquer tipo de vício. “Grave” poderia muito bem ser um longa sobre uma garota que vai à faculdade, descobre as drogas e acaba se viciando, no entanto, o peso cinematográfico empregado pelo uso da metáfora do tema – canibalismo – é enriquecedor tanto pro texto como para a realização da obra. 

Riquíssimo em simbolismos, realizado com violento requinte de beleza (a trilha sonora é primorosa), atuado com grande poder (Garance Marillier está perfeita) e provocador diante da plateia em vários sentidos, “Grave” é um exercício de gênero criativíssimo que agrega em muito ao horror contemporâneo por não abrir mão de discussões relevantes sem desmerecer o choque visual que o estilo propõe – algo que "Corra!" fez muito bem ao pegar o racismo e transformar em matéria-prima para seu desenvolvimento. Numa sociedade onde as mulheres são tratadas como pedaços de carne, Julia Ducournau faz seu filme canibal onde as mesas viram e tabus são digeridos sem pudores. Estamos servidos?