Por que somos tão resistentes ao pop nacional?

Não tem Taylor Swift que supere o nosso gingado.

O primeiro álbum que escutamos neste ano foi “Vai Passar Mal”, da drag queen brasileira Pabllo Vittar, e com produção do Rodrigo Gorky (Bonde do Rolê, Banda Uó e Luiza Possi), o disco consegue mesclar tendências do pop internacional com ritmos brasileiros, indo do trap radiofônico do Diplo ao brega antes explorado pela Banda Uó, contando ainda com participações de Rico Dalasam, Lia Clark e Mateus Carrilho.

Logo em sua primeira semana, o primeiro CD de Vittar emplacou várias canções na parada viral do Spotify e, dias mais tarde, ganhou ainda o videoclipe do seu atual single, a parceria com Rico Dalasam em “Todo Dia”, mas quanto melhor e maior se mostrava o trabalho, mais a cantora era alvo de críticas, tanto pela sonoridade adotada no disco, quanto por seus vocais, criticados pela entonação aguda e, por conta disso, em alguns momentos estridentes.



Pabllo Vittar canta bem e, no geral, apresentou um trabalho bem mais interessante e coeso que boa parte do que consumimos da “drag music” americana, não se limitando a repetir os trejeitos do que assistimos no programa de RuPaul e misturando bastante do que ouvem os fãs de música pop com uma pegada brasileira, mas o limite ao apreço por seu trabalho chega no mesmo ponto em que também criticam Anitta e vários outros artistas nacionais: o velho viralatismo. 

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Quando se fala em cultura pop, muitos ignoram o fato de que a primeira palavra do termo é “cultura” e, se tratando dela, estaremos falando de elementos e valores diferentes dependendo do lugar que ela vier. Nos EUA, o som de Britney Spears, Madonna, Lady Gaga e Katy Perry é pop, assim como, no Reino Unido, é a sonoridade de artistas Adele, Sam Smith e James Arthur quem sai com a melhor, enquanto, no Brasil, somos atingidos por diferentes ritmos de acordo com cada região, sendo alguns dos gêneros mais predominantes o sertanejo, em território nacional, e funk, principalmente entre São Paulo e Rio de Janeiro.




Sempre tão impactados pela cultura do exterior, somos educados a gostar – e, consequentemente, julgar como bom – aquilo que se assemelha ao que vem de fora e, pela mesma razão, tratar como inferior o que parte diretamente da nossa história, e entrando no cenário pop, incessantemente alimentado por referências americanas e inglesas, os limites são ainda mais estreitos.

Por conta disso que, para elogiar Ivete Sangalo, tem quem diga que ela é a nossa Beyoncé, assim como por isso que Anitta soou mais interessante quando mesclou o funk brasileiro com as batidas de Major Lazer, também explorados de forma abrasileirada no hit que lançou Pabllo Vittar para a internet, “Open Bar”.


Diante de uma cultura tão diversa, é lamentável que nossos artistas precisem recorrer aos elementos de fora para conquistarem um público de dentro. Todavia, para diluir um preconceito tão enraizado, incentivamos e parabenizamos também àqueles que buscam irem contra essa previsibilidade, como fez Anitta quando misturou seu pop com pagode em “Essa Mina É Louca” ou, no começo desse ano, mostrou ainda mais versatilidade ao se unir com Simone & Simaria em “Loka”.


Os meios de comunicação também têm a sua responsabilidade e, cientes de sua influência às massas, poderiam usar melhor o seu espaço para essa reeducação do público, o que não só movimentaria de forma significativa esse mercado, como incentivaria que grandes selos apoiassem e investissem cada vez mais na qualidade do trabalho desses artistas, na maioria das vezes preteridos até que emplaquem algum sucesso.

Não tem Taylor Swift que supere o nosso gingado.


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Na matéria “Tentamos entender porque os brasileiros não consomem o pop nacional”, a MTV Brasil conversou com a gente e outros blogs parceiros para tratar sobre o mesmo tema explorado nesse post. Leiam a matéria neste link.