A cena de ciúmes da Ivete, a paródia machista da drag brasileira e a graça: tá rindo do quê?

Bastaram uns dias longe das redes sociais, para aproveitar o final de ano, pra que um novo assunto tomasse a internet e, quando me dei conta, estava totalmente perdido sobre a discussão do momento. Mas não foi nada que uma rápida rodada pelo Facebook e, consequentemente, outros sites, não me ajudasse.

O assunto era a Ivete Sangalo e, em vez do seu último clipe, super produção e todo em 360º, igual aquela versão estendida que a Rihanna lançou para “Bitch Better Have My Money”, estavam falando sobre uma cena de ciúmes que a cantora protagonizou durante uma apresentação, ao parar o show para tirar satisfações com seu marido, que estava conversando com uma mulher.

O bordão da vez era “Quem é essa aí, papai?”, soando até divertido, antes de chegarmos ao momento que Ivete continua. “Tá cheio de assunto, hein? Vou passar a mão na cara. Quem é essa daí? Conversando pra caralho. Manda ela subir aqui no palco para fazer essa conversinha de ouvido comigo!”.



Não é preciso ser o marido, que não estava fazendo nada demais, para se sentir constrangido com essa fala, mas o sentimento pode ser pior ainda se você era a mulher, que foi tão exposta quanto o cara, como se estivesse se apropriando de algum objeto da cantora e não apenas conversando com uma pessoa com quem ela possui um relacionamento.

Toda essa perspectiva de “posse” soa, inclusive, bastante abusiva, se tratando de um relacionamento, e é preocupante, já que Ivete Sangalo parece se ver na posição de dona que, de maneira inquisitiva, tira satisfações tão rudemente e no momento mais impertinente possível, sem que nada realmente sério esteja acontecendo entre seu companheiro, que deveria ter sua confiança, e a mulher desconhecida.

Mas se tratando da internet e a forma com que sua rotatividade se torna cada vez mais ágil, o assunto passou e, depois de muito rir e debater sobre, entenderam que isso não era da nossa conta. Que Ivete e seu marido acertassem isso de maneira íntima, como deveria ter acontecido desde o começo.

Volto então para o Facebook e me deparo com um mesmo vídeo compartilhado por vários amigos. Agora, a publicação é sobre uma paródia de “Bitch I’m Madonna”, da cantora Madonna, cantada por uma drag brasileira, Seketh Bárbara, e intitulada “Mexeu Com Meu Homem”. Não precisei de muito tempo pra associar a composição com o caso da Ivete e, pela capa da música da brasileira, ela também não.


Ela chega cheia dos papos, mas comigo não, comigo é na voadeira. Assista agora o meu novo clipe. <3 https://youtu.be/W47baschuxU
Publicado por Seketh Bárbara em Terça, 5 de janeiro de 2016

Começo então a assistir ao videoclipe e, sem grandes surpresas, encontro justamente o que eu temia: uma letra que, “na brincadeira”, naturaliza e induz a violência em caso de traição e, o pior, contra a amante e não o cara, fomentando a rivalidade entre mulheres, enquanto o homem é colocado na posição de “prêmio” e inocentado já que, poxa, não pôde controlar seus instintos em meio às provocações do sexo oposto. 



O assunto rende e, de maneira escancaradamente associada ao machismo, é preciso pensar porque a responsabilidade da traição sempre termina nas mãos das mulheres, sejam elas as amantes, como na letra de Seketh e, numa visão exagerada, no que Ivete temia ao intervir na conversa de seu marido, ou as autoras da traição (quem não ouviu falar na Fabíola, que terminou exposta por meio de um vídeo em que é fisicamente agredida ao ser flagrada cometendo uma traição, sob o pretexto de que iria “fazer a unha”?).

A parte mais triste e preocupante das duas histórias é que, entre os comentários, tudo termina sendo levado mesmo na brincadeira, até porque estamos no país da zoeira, e, no riso, acumulando mais e mais pessoas que até tentam se explicar, mas caem nesse mesmo pensamento, do sentimento perda herdado pela falsa sensação de posse, à visão deturpadamente machista, em que a mulher, independente do seu papel na história, é a culpada e, mais, precisa arcar com isso da pior maneira possível.

Falando sobre relacionamentos, é preciso compreender que a confiança é a base pra que as coisas funcionem bem, sem que um precise cercear ou ficar o tempo todo policiando o outro, e, no caso da traição, mesmo de cabeça quente, o essencial é ter discernimento suficiente para compreender que a terceira pessoa não é com quem você deve tirar alguma satisfação: essa pessoa de fora não tem responsabilidade alguma com você. E quanto a que tinha e falhou nisso, que ao menos possam resolver isso com o diálogo, de forma que ambos possam seguir bem, independente disso.

De volta à paródia da Seketh, foi a maior bola fora. Entendo que, numa primeira perspectiva, tudo possa ter soado como uma simples brincadeira, mas a piada possui seu peso de responsabilidade social e ter uma letra em que ela se vangloria por acabar com a vida da mulher que roubou “seu macho” é, no mínimo, vergonhoso. O que chega a ser controverso, já que a paródia vem sendo aplaudida pela mesma internet que, quando pode, está diminuindo e criticando o humor questionável de programas como “A Praça É Nossa” e “Zorra Total”. Aliás, quer algo em comum entre eles, a paródia da drag e o caso da Ivete? Nenhum nunca teve graça.

Mas sequer culpamos Seketh. Boa parte desses pensamentos, tanto da ideia de domínio quanto do senso machista, é construção social, coisas que aprendemos com os outros, com a vida, e julgamos ser o certo a fazer, mas nunca é tarde pra voltar atrás e desconstruir essa ideia errônea, né? E fico na torcida pra que percebam isso o quanto antes.

As paródias nacionais pra hits gringos parecem estarem de volta e com tudo. Quem não se lembra de como a Banda Uó fez carreira, cantando versões abrasileiradas de Willow Smith e Two Door Cinema Club? E, pensando numa referência mais recente, tem até a Pabllo Vittar, que também é drag e arrasou numa versão “samba pop” para o hit do Major Lazer, “Lean On”. Isso sim merece nossa atenção e ser compartilhado até o dedo doer.



(Texto originalmente publicado lá no meu Medium, “Guia de Sobrevivência”.) 
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