Album Review: dos anos 80 aos 2000, o ‘Veneno’ da Banda Uó brinca com as décadas passadas, mas os garante para o futuro

Faz 4 anos desde que um trio de Goiânia, formado pelos amigos Mateus Carrilho, Davi Sabbag e Candy Mel, quebrou a internet com uma versão de “Whip My Hair”, da Willow Smith, com muita inspiração vinda do eletrobrega brasileiro e, o principal, uma letra pra lá de escrachada, baseada na história ~de amor~ da Luciana Gimenez com o roqueiro Mick Jagger.

“Shake de Amor” parou a internet por inúmeros motivos. Em primeiro lugar, estávamos diante de uma das produções pop mais divertidas dos últimos anos no Brasil, com uma proposta lírica e sonoramente 101% menos engessada do que qualquer outro artista do gênero no Brasil; em seguida, vínhamos também com uma surpresa pela qualidade do seu clipe, naquele tempo produzido e lançado de forma independente, também deixando no chão qualquer artista com grandes orçamentos por aqui, além de mandarmos de vez para o espaço aquela história de que “clipes nacionais não devem ser comparados com os gringos, porque a gente não tem as mesmas estruturas, né?” e logo depois tínhamos ainda todo o contexto em que eles chegaram até nós, por trazer esse pop escrachado, descarado, e com um grupo formado por dois gays e uma mulher trans negra lindíssima e extremamente confiante do que representava.



Passado o belo tapa na cara que a banda representava para a família tradicional brasileira só por essa estreia, eles lançaram então o EP “Me Emoldurei de Presente Pra Te Ter” e daí em diante foi uma conquista atrás da outra: contrato com a Deckdisc, parceria com o produtor Diplo, pouco depois dele colaborar com a Beyoncé, lançamento do CD “Motel” e, entre outras coisas, participação na line-up do Planeta Terra Festival, parcerias com a MTV Brasil e, recentemente, a inclusão de “Catraca” na trilha sonora de “I Love Paraisópolis”, da Rede Globo. Mainstream mesmo.



Um tanto distantes do cenário underground em que surgiram, principalmente após a parceria com o Mr. Catra e Boss In Drama em “Catraca”, para a MTV, o novo álbum da Banda Uó marca uma importante fase na carreira do trio, visto ser a prova real do sucesso conquistado desde o “Motel”, uma comprovação de que eles realmente ainda têm muito a conquistar pela frente, provando ser mais que outro simples fenômeno da música nacional.

Mas e aí, será que eles conseguiram?

“Veneno” é o nome do segundo CD da Banda Uó e o título deriva do seu carro-chefe, “É Da Rádio?”, em que a banda encarna o punk rock do Offspring em “Pretty Fly (For A White Guy)”, numa viagem cronológica que passeia de referências dos anos 90 aos dias atuais, indo de tendências, frases e vestimentas à até mesmo uma indireta para a polêmica Andressa Urach, que foi assunto nesse ano pela reviravolta que sua postura midiática teve desde o acidente em que ela terminou internada pela aplicação de hidrogel (daí o Veneno, RS) nas pernas — no disco anterior, eles também se inspiraram em celebridades para algumas músicas, como Luciana Gimenez em “Shake de Amor” e Rita Cadillac em “Show da Rita”. O rock, cru e pra lá de divertido, retoma a fórmula que a Banda Uó assumia em sua estreia, brincando com a cultura pop nacional da atualidade e itens obrigatórios da nossa história de outrora, em tempo que brinca com uma sonoridade que vai dos saudosos Mamonas Assassinas aos seus padrinhos, do Bonde do Rolê.



Falando sobre esse novo trabalho, Carrilho afirmou que eles investiriam em algo menos brega e mais pop, mirando a expansão do seu público e, assim como aconteceu com “Catraca”, planejando sair da internet para outras mídias, como as rádios e TV. Parece que as coisas sairão do papel. “Cremosa”, entretanto, é a única que sobreviveu ao eletrobrega de estreia da banda dentro desse álbum. A música flerta bem entre o pop de agora e o brega que o lançou.

De início, a produção parece atingir o reggae eletrônico há pouco alavancado por produtores como Diplo (“Unapologetic Bitch”, com a Madonna, e várias com o Major Lazer) e David Guetta (“No Money, No Love”), mas basta começar o vocal remixado de Candy Mel com o aviso, “eu te disse que ela tá cremosa-a-a-a-a-a-a”, pra que surjam os sintetizadores e então nos sintamos em casa. Sem muito para onde crescer sonoramente, a letra parece anunciar um produto milagroso que tornará a mulher a mais atraente de todos os ambientes que fizer parte e uma das nossas partes favoritas é quando cantam “não é feitiçaria, é tecnologia”, remetendo o produto em questão àquele cinto-milagroso-tabajara Elisbelt, que prometia definir o corpo com choques elétricos, “sem nenhum castigo”, hahaha. Em que ano eles estacionaram pra ressuscitar isso, gente?

Na primeira música propriamente pop, “Primeiro Encontro”, a gente tem como principal atrativo o lirismo debochado da banda. Nela, eles cantam em tom romântico sobre o primeiro encontro de um casal sem compromisso, com um refrão em que Candy Mel confessa, “no primeiro encontro eu já faço de tudo, me usa e eu te uso, pode aproveitar! No primeiro encontro eu já tô toda nua. Se é pra ser sua, pra que tanta enrolação?”. Com um arranjo bem radiofônico, a música ainda conta com um sample de “Don’t Lie”, sucesso de 2005 do Black Eyed Peas.

Quebrando o clima romântico de “Primeiro Encontro”, a música seguinte eleva as temperaturas, mas de uma maneira um tanto platônica. Se lembra de quando ter uma musa na capa de uma revista adulta era, tipo, uma das coisas mais polêmicas que elas podiam fazer? Era algo como, “meu Deus, fulana vai mesmo ficar nua???”, e pra muitos, ter Xuxa, Carla Perez, Reinaldo Gianecchini seminus ou peladões em algumas páginas era a realização pra toda uma vida ou pelos menos por alguns minutos, até que.... AH, não vamos ser tão específicos. “Sonho Molhado” gera um certo desconforto pela maneira com que trata essa paixão platônica, falando sobre alguém que protagoniza suas fantasias sexuais, mas sequer faz ideia disso. Brincando entre o urban, saxofone e muita percussão, a música passeia de “I Don’t Care” da britânica Cheryl à “Grown Woman” da Beyoncé, terminando com uma referência à trilha sonora da famosa “Banheira do Gugu”, RS. O refrão vem com um desenfreado “é no banheiro que eu toco em você, é no chuveiro que eu te dou prazer, nos meus pensamentos é que eu posso te ter. Fica essa noite? Você nem vai saber”, que acaba num break sensacional.



De volta ao romantismo, “Boneca” é uma balada que fica entre os anos 80 e 90, virando o disco novamente. Sem muitos exageros, a produção mais apurada deixa em destaque os sintetizadores da faixa, enquanto os vocais dos três, mais suaves do que nunca, entoam versos como “e agora eu sei, meu bem, que essa boneca me fez um grande refém” e “eu sou escrava do seu amor, woah-oh, o que me resta é aceitar, i-ah”. Uma das marcas mais interessantes da música são as repetições ao fim dos versos, numa proposta bem próxima da recém lançada “All That”, da canadense Carly Rae Jepsen com o produtor Dev Hynes. Atenção aos mínimos detalhes, que revelam o fato da boneca ser uma daquelas infláveis, RS.



Ao lado da rapper Karol Conká, “Dá1LIKE” é a primeira parceria do “Veneno”, que ainda traz outras duas participações. A música aposta de vez no urbano que eles flertaram em “Sonho Molhado”, toda trabalhada na trap music, que está em alta nos EUA e teve seu primeiro contato nos trabalhos deles em “Gringo”, produzida pelo Diplo no “Motel”. Como a própria banda contou ao lançar a canção, “Dá1LIKE” fala sobre essa geração “prostituta de likes”, que sai publicando mil e uma fotos em redes sociais como o Facebook e Instagram, na tentativa de alimentar o seu ego com a curtida de seus amigos. A participação de Conká termina sendo o empurrão que a música precisava para assumir a vertente do hip-hop, mais ou menos como fez a Katy Perry ao se unir com o Juicy J em “Dark Horse”. Nosso verso favorito fica para os segundos finais, quando finalizam de forma melódica implorando “não desmaia agora, vem cá, enche minha bola, vem, dá um like logo aê!”, além dos momentos em que utilizam samples dos seus próprios vocais para integrar os breaks da canção.

Assim como nos lembramos de artistas como Mamonas Assassinas e Bonde do Rolê em “É Da Rádio?”, outra referência nos vem em mente na faixa “Arregaçada”. Não, nem estamos falando do sample de “U Can’t Touch This”, clássicão noventista do MC Hammer, até porque isso fica mais do que óbvio, mas sim dessa proposta “falada”, provavelmente herdada da banda Blitz, sucesso brasileiro dos anos 80, com hits como “Você Não Soube Me Amar” e “Biquini de Bolinha Amarelinha Tão Pequenininho”. Quase que ressuscitando o personagem de “Vânia”, a letra é um desabafo dela, que está acabada naquele fim de balada lá pra seis da manhã e, mais bêbada do que nunca, não hesita em parar de dançar, já que não deve satisfações a ninguém. No fim, a própria é quem assume, “Ai, me deixa! Tô só dançando aqui só, eu gosto de dançar. Eu tô arregaçada mesmo, ninguém paga as minhas contas”.



“Na Varanda” pega um pouco da mesma sonoridade oitentista de “Boneca”, mas desta vez o synth-pop é só um flerte, sendo que a faixa termina caindo para algo mais próximo desse “novo MPB”, também abordado pela Anitta em produções como “Ritmo Perfeito”, do álbum de mesmo nome. Com uma letra bem contida, são os aspectos sonoros quem prendem nossa atenção, ficando em destaque os versos finais, em que, com uma voz mais grave, eles nos lembram dos sucessos do finado Sampa Crew. Uma proposta bem Gazeta FM, se é que nos entende.

De volta ao pop, “Sauna” traz uma proposta ainda mais radiofônica, com versos que nos lembram músicas como “Vânia” e “I <3 Cafuçu”, do “Motel”, enquanto aproveitam a zona pop para mandar uma referência às meninas do Rouge, quando cantam “olha o Diego lá na esquina”, o mesmo do sucesso “Ragatanga”, que marcou a estreia do grupo lançado no começo dos anos 2000 pelo reality show do SBT, Popstar. Pelo Twitter, a banda confirmou que a ideia era nos lembrar de Rouge mesmo, tendo esse sido um toque especial do Mateus, que é fã assumido do grupo. A sonoridade também funciona bem com essa onda pós-“Fancy”, da Iggy Azalea, ainda que somada à diversas outras influências e samples, fazendo dela quase que uma faixa aos moldes das produções mais contidas do trio americano Major Lazer.



A segunda parceria do “Veneno” vem com a participação da Vanessa Jackson em “X-Bacon”. Pra quem não sabe ou lembra, Vanessa foi a vencedora da primeira edição do Fama, da Rede Globo, em 2002, e recentemente voltou a ser assunto após ganhar o programa “Esse Artista Sou Eu”, do SBT, ao interpretar covers da cantora Jennifer Hudson. Falando sobre esse CD, também foi Carrilho quem explicou a escolha dessa participação: “queríamos uma negra ‘power’ para cantar. Música de negona americana. Queríamos uma brasileira ‘bafo’, então chamamos elas [Vanessa e Karol Conká]”. “X-Bacon”, por sua vez, é uma das propostas mais absurdinhas de todo o disco, com uma letra Bondedorolêtística em que jogam na cara do seu interlocutor, “eu comi x-bacon, é melhor que chupar seu peito” e seguem por toda a canção fazendo essa analogia que vai dos relacionamentos à bandeja de um fast-food. Fora a Vanessa, também há uma participação da voz do Google Tradutor.

Sem seguir uma linearidade, “Suja” é mais uma baladinha e, perto do fim do disco, nos lembra de músicas como “Cowboy”, do álbum anterior. Quase uma “Beautiful”, da Christina Aguilera, a música é sobre um romance que chegou ao fim e, naquele velho clichê, deixou marcas. Candy Mel, por sua vez, é quem encarna o personagem principal, justificando que dormiu com vários caras, mas sabe que não é suja, pois ele foi o único que a marcou e causou esse efeito nela. Com versos tristes como “vai buscar o que quer (...) se despedir já não é mais sentir saudade”, um dos trechos mais marcantes é quando Mel chega a soluçar ao dramaticamente entoar “eu dormi com mais de meia dúzia. Eu sei que eu não sou suja... Mas foi você quem causou isso em mim. Eu queria ser somente sua, eu sei que eu não sou suja. De tantos, foi o único...”. Choramos.



Quando vimos “Poperô” na tracklist do “Veneno”, estávamos certos de que viria uma faixa com sample de “Pump Up The Jam”, do grupo Technotronic, outro hit dos anos 90, mas erramos, só não fomos tão longe. Sob um eletrônico bem genérico, daqueles que estavam em alta justamente quando o poperô começou a crescer lá fora, a música narra uma noite numa balada e traz de volta o brega dentro de sua letra, enquanto usam e abusam de termos como “na night o poperô rola solto”, hahaha. Não soa muito bem de início, mas é tão ruim que termina ficando boa. Aliás, outra que vem nessa mesma linha do “tão ruim que fica bom” é a parceria com o Mr. Catra e Boss in Drama em “Catraca”, que encerra o disco. A parceria, planejada para um programa da MTV Brasil, vem cheia de sintetizadores, assim como boa parte do álbum, mas perde alguns pontos pela fórmula genérica, até um tanto preguiçosa, além de sua letra, que é divertida e despretensiosa, mas sem toda a ousadia que nos acostumamos a encontrar com a Banda Uó. Diríamos que ela é equivalente à “Faz Uó” no primeiro CD.



Em suma, com seu “Veneno”, a Banda Uó demonstra que ainda tem muito o que explorar dentro de suas influências e principais inspirações. Enquanto brincam com composições que revivem o pop nacional, despertando em nós um apetite mais apurado para esse gênero tão subestimado em solo tupiniquim, eles passeiam entre referências à décadas passadas, mas olhando para o futuro, afinal, quanto mais ouvimos, mais desejamos que nossa música seja envenenada pela ousadia desses três. Outro ponto a favor do trio é a possibilidade de tornar suas letras mais associáveis a nossa realidade, visto se tratar de personagens que estão na TV, internet e, quando fica ainda mais engraçado, nas nossas noites ou pelo dia à dia, e fazem disso tudo mais um importante acerto em sua breve carreira, uma vez que o álbum marca uma evolução no seu trabalho em todos sentidos, continuando tão divertido quanto outrora, mas sendo cada vez mais feito para levarmos à sério.

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