Recap | “AHS: Cult”: a seita está em combustão

A relação de Winter e Kai mostra suas primeiras rupturas;

Winter tem uma fé cega em Kai, uma admiração de irmã mais nova para irmão mais velho ainda intocada e, por isso, a moça funciona como pilar da seita. O oitavo episódio “O Inverno do Nosso Desgosto” mostra as primeiras rupturas nessa relação, onde Winter tem seus valores constantemente testados por Kai. Ela aceita ser subjugada pelo irmão, em contraposição a suas posições feministas. Todas as outras mulheres já acordaram para o que está acontecendo, mas há uma esperança em Winter de que ela seja especial – esperança essa que Bervely já sentiu e agora amarga com a escolha. 

Kai sai dos trilhos em sua megalomania e ficamos sabendo sobre seu cabelo azul e todo seu plano de falar pelos oprimidos surge de uma experiência bizarra na casa do Pastor Charles. Sério, “AHS: Cult” conseguiu se superar com uma sala cheia de bonecos sadomasoquistas, uma mulher ensanguentada pós aborto malfeito e, a cena particularmente difícil para mim, com um homem cheio de seringas com cocaína, heroína e ópio. De fato, não consigo imaginar alguém que tenha visto essa temporada sem sentir arrepios com medos e fobias particulares em algum momento. 

O Pastor Charles mostra a Kai que experiências traumatizantes colocam as pessoas juntas, como iguais por uma causa – no caso do pastor, sua indolência ao julgar quem deveria ou não viver. Fica claro que Trump foi para Kai uma oportunidade de reproduzir o sentimento de liderança que sentiu na casa do terror de Charles. 

Se em algum momento nós sentimos empatia por Kai, seja por seu charme ou persuasão, à essa altura só sentimos pena e raiva. Ele é na verdade um charlatão que usa teorias básicas, como instaurar o medo para atrair seguidores, conseguir votos e até influenciar o conselho da cidade para aceitar sua milícia na segurança da comunidade. 

Assim como em “The Handmaid’s Tale”, fica o alerta sobre como momentos de histeria e medo geral podem permitir que direitos ditos básicos e universais sejam suprimidos em troca de alguma segurança e estabilidade. Como vimos no episódio sobre Valerie Solanas, os seguidores buscam líderes, crenças e ideologias que possam dar proteção e sentido em meio as agruras do mundo.

Além disso, seus discursos são rasos e podem ser rapidamente criticados por alguém que possa racionalizá-los e argumentar. Por exemplo, sua insistência em dizer que não existe tal coisas como “homossexualidade” e “heterossexualidade”. Se pelo menos ele estivesse falando sob uma perspectiva nova, sei lá, transgressora de gênero e sexualidade..., mas não. Kai está falando como aqueles pastores que ouvimos por aí dizendo que existe cura gay ou os “g0ys”, lembram-se deles? 

Kai nega o termo “gay” não porque é revolucionário, mas sim porque é conservador e homofóbico, assim como os gays que o rodeiam, como era Harrison e é Samuels (Colton Haynes), além de extremamente misóginos. Eles se esforçam em performar o masculino mais do que qualquer drag em RuPaul’s performando o feminino. 

É nesse episódio que descobrimos mais sobre Samuels, o policial amante de Harrison. Ele conheceu Kai vendendo prescrições médicas roubadas de seu irmão Vincent, e pediu suborno em troca do silêncio. A relação se estreita quando Kai vai à casa de Samuels e o encontra desesperado após ter brochado com uma mulher. É aí que Kai despeja sua ladainha sobre não precisar de rótulos nem de mulheres “toda vez que você faz sexo com elas, elas drenam seu poder” e onde Samuels encontra a paz necessária para dar a bunda. 

Esse aprofundamento no personagem do policial é necessário para compreender a cena anterior, onde Winter é quase estuprada por Samuels em um ritual de Kai para provar a lealdade da irmã. Kai deveria penetrar o policial enquanto ele o faz em sua irmã para a concepção do futuro Messias. Para a sorte de Winter, Samuels só consegue se excitar com uma mulher se essa estiver sofrendo. 

A seita não é um espaço para as mulheres, essa é a verdade. E até Winter, que como disse tinha um afeto genuíno por seu irmão, vê-se impelida à traição. Enquanto está devolvendo lixo ensacado para a rua como punição por terminar o ritual da noite anterior – e porque Kai não acredita no aquecimento global – Winter é abordada por Samuels, que conta sua história e o porquê de seguir Kai. Winter diz a Samuels que ele não passa de um homem gay, que surta e tenta – mais uma vez – estupra-la. Felizmente homens não pensam muito com a cabeça de cima, e Winter consegue pegar a arma (de um policial!) e atirar nele, não antes de um bom discurso “quando Hillary perdeu, eu também perdi, eu deveria ter revidado, ficado irritada, me juntei a isso e é tarde demais para mim e para você”. Um membro original a menos na seita. 

No final, vemos Vincent morrer nas mãos do irmão, e descobrimos que o coitado do psiquiatra não sabia de nada da seita ou das mortes. Não foi ele que passou os laudos dos pacientes, incluindo Ally, para Kai — na verdade, ele os roubou. Aliás, Ally, que “vendeu” Vincent por seu filho, é a mais nova participante da seita, e fica com a fantasia de Bervely, que se vê sem poder amarrada como um qualquer no sótão de Kai e vocifera para ele “nada é maior do que seu maldito ego”

A seita está em combustão. Winter não é mais uma seguidora fiel, disso temos certeza. Tampouco Ally vai se deixar manipular a essa altura do campeonato. Não tenho mais certeza se Kai tem mesmo o controle de tudo, como achávamos até então. Quando a ameaça vem de dentro, as cartas no jogo podem mudar muito rápido, e não sei se Kai consegue responder a essas ameaças todas rápido o suficiente.