Do podcast para a tela, “Lore” extrai o terror de histórias reais

A nova série da Amazon nos lembra que alguns costumes e superstições antiquados podem ressoar no mundo moderno mais do que percebemos.


Às vezes não queremos respostas. Queremos reafirmar que o mundo é como queremos que seja.
Esse é o tema que amarra os seis episódios da nova produção original da Amazon.

Dos produtores executivos de The Walking Dead e Arquivo X, a série antológica dá vida ao premiado podcast de mesmo nome, revisitando eventos da vida real que já fizeram parte dos piores pesadelos de muitos. Através de reconstituições em live-action, imagens de arquivo e animações primorosas, Aaron Mahnke (também criador do podcast) conta histórias do folklore, superstições e pseudociência, bem como suas implicações nas nossas vidas através das décadas.



Num misto de ceticismo à la Carl Sagan (Cosmos) com o criticismo de Rod Serling (Além da Imaginação), Lore vai bem além de uma mera contação de histórias. No mesmo passo em que reintroduz mitos e lendas bastante famosos, pinta um lado mais obscuro da “birracidade” humana, trazendo vários recortes históricos em paralelo, muitas vezes mais interessante que a própria origem da lenda urbana em si.

Por exemplo, o terceiro episódio da antologia, sobre mulheres vistas como fadas döppelgangers pela sociedade por mostrar qualquer comportamento “diferente” do esperado, também ilustra como foi se firmando o empoderamento feminino durante o século XIX e o que aconteceria àquelas que eram vistas como “muito independentes” (uma nova versão da infame queima às bruxas alguns séculos atrás). Já no quinto, em paralelo a história do lobisomem, nos apresentam Eugéne Weidmann, condenado por sequestro e homicídio e sentenciado à morte por guilhotina, em 1939. O espetáculo criado em torno da execução de Weidmann, que era utilizado como forma de exemplo de punição, acabou gerando clamor público. Pessoas se aproximaram do corpo decapitado para tirar fotos, gravar vídeos e até mesmo manchando suas vestes com o sangue do condenado… para guardar de souvenir. Bem Black Mirror, diriam.


Certamente é esse o ponto mais aterrorizante de Lore. A busca incessante (e romântica) do homem derrotando o mal, projetando-o como uma figura monstruosa e sobrenatural  e, quase sempre, tornando essa vitória um espetáculo público talvez nunca acabe. Nós esquecemos que o mal sempre encontra novas formas de se manifestar. O que nos diferencia daqueles que utilizavam o choque e a lobotomia para corrigir comportamentos divergentes da sociedade, ou que achavam que a tuberculose era maldição de algum ente querido que não encontrou a luz, é o conhecimento… mas a essência humana nunca mudou.

A primeira temporada completa de Lore já está disponível no serviço de streaming Prime Video.