Crítica: “Amantes Eternos” é o melhor filme sobre vampiros desse século ao retrata-los de forma atual (e real)

Não dá para não amar um filme sobre vampiros hipsters

De todas as entidades fantásticas que o ser humano já criou, o vampiro talvez seja a mais poderosa. Quando falamos de arte, focando no Cinema, o número de filmes que possua o tema vampiresco de forma geral ou coadjuvante é extenso, e todos devem a um vampiro em específico: Conde Drácula. A figura do vampiro existe em diversas culturas sob diversos nomes há séculos, mas foi Bram Stoker e seu livro “Drácula” (1897) que transformaram a entidade num ícone cultural.

Para termos uma ideia, apenas com o Conde Drácula já foram feitos mais de 200 filmes. O impacto é tão grande que, ao ouvirmos sobre a Transilvânia, terra natal do dentuço, é impossível não associarmos imediatamente a vampiros. O primeiro grande filme sobre ele é, curiosamente, um plágio. “Nosferatu: Uma Sinfonia do Horror”, de F.W. Murnau, foi lançado em 1922 e usava todos os elementos de “Drácula”, apenas mudando alguns detalhes, como a língua (“Nosferatu” se passa na Alemanha), e o Conde Drácula virou Conde Orlok.

Stoker então recorreu à justiça e ganhou a causa, com todas as cópias de “Nosferatu” condenadas à destruição, mas felizmente cópias piratas sobreviveram, resgatando o filme para a presente era – e com domínio público. O filme é um marco do cinema de horror e criou uma entidade que viria a ser presença confirmada na Sétima Arte.

Imagem: Divulgação/Internet
Depois disso tivemos, em 1931, “Drácula”, o mais famoso filme sobre o vampiro, com Bela Lugosi criando a mais clássica interpretação do personagem. De lá pra cá então tivemos “Drácula de Bram Stroke” em 1992, “Entrevista Com o Vampiro” em 1994, “Blade” em 1998 – e os exemplos não acabam. Mas foi em 2008 que o cinema vampiresco ressurgiu com toda força.

Fugindo da áurea soturna e sensual do vampiro clássico, a saga “Crepúsculo” foi a romantização da criatura, agora misturados na sociedade como adolescentes. E mais: eles brilham sob a luz do sol. Baseados nos livros de Stephenie Meyer, os cinco filmes foram – e continuam sendo – um fenômeno mundial: $ 3.3 bilhões em bilheteria, uma das maiores séries cinematográficas da história. Era a fixação definitiva do vampiro no cinema desse novo século. 

Porém estava longe de cifras bilionárias o melhor filme sobre vampiros do século XXI (até presente data, claro). O posto, conseguido com grande batalha, é de “Amantes Eternos” (“Only Lovers Left Alive” no original, “apenas amantes permanecem vivos”), lançado em 2013. O filme, dirigido por Jim Jarmusch, conta a história de Adão e Eva, dois vampiros vivendo no mundo moderno.

Imagem: Divulgação/Internet
Adão, interpretado pelo espetacular Tom Hiddleston, mora em Detroid, Estados Unidos, enquanto Eva, interpretada pela musa Tilda Swinton, vive em Tânger, Marrocos. Numa ligação, ela nota a voz abatida do amado e decide voltar para a América. É aí que a paz do casal se encontra em perigo com a vinda de Ava (Mia Wasikowska), instável irmã de Eva.

Uma das maiores belezas do filme é a composição visual dos vampiros. Já na segunda década deste novo século, a imagem clássica do vampiro com capas e caixões é ultrapassada. Adão e Eva nem sempre usam roupas modernas, é verdade, mas nada tão óbvio. Enquanto ele usa preto dos pés à cabeça – como seus negros cabelos, ela usa branco – como suas platinadas madeixas. Ele é melancólico, pessimista e obscuro, enquanto ela é vívida, luminosa e otimista. Ele ama música, ela, literatura. Ele cansou de tentar, ela procura sempre algo novo – é dela a brilhante ideia do picolé de sangue. E dois seres tão diferentes se unem de forma espetacular na tela.

Imagem: Divulgação/Internet
O casal é um yin-yang perfeito, que só funciona com suas partes unidas – e essa é só uma das várias simbologias de “Amantes Eternos”. O filme começa com um plano circular, que gira em torno dos protagonistas, como se entrássemos naqueles cosmos a partir de agora e pudéssemos compartilhar de um pedaço da vida daqueles seres eternos.

E é aqui que mora um dos fascínios dos vampiros: a imortalidade. Quem nunca desejou por algum momento ter tamanho dom? O quão incrível seria não se preocupar com o ponteiro do relógio que segundo a segundo vai esvaindo nossas vidas? Em quase todo filme sobre seres superiores ao tempo isso é incrível, mágico e sensacional, mas em “Amantes Eternos” o peso do tempo é mais crível e palpável.

Enquanto Eva procura aproveitar sua existência com todos os percalços, Adão é negativo quanto ao mundo e os seres que neles habitam, principalmente em relação aos “zumbis”, forma pejorativa que ele chama os humanos. Ele lamenta a forma que nós destruímos nosso mundo e a nós mesmos, cada vez mais desejando por um fim na sua existência.

Imagem: Divulgação/Internet
Pensemos: você vive por séculos, já experimentou das mais diversas culturas, já presenciou os mais diferentes fatos históricos, já viu milhões de pessoas morrendo e já fez praticamente tudo o que poderia ser feito. E agora? A vida vampira é regada por muita cultura e muito tédio. Eva é vista envolta de montanha de livros, enquanto Adão é soterrado por vinis e instrumentos musicais. O nível intelectual dos dois é tão absurdo que nada mais os satisfaz – além do desejo de um pelo outro. E é aí que mora a chave dessa sustentação milenar: o amor dos dois – que reflete o título original do filme.

Outro aspecto importante da vida das criaturas é a alimentação. Como bem lembra Eva, não estamos mais na Idade Média, onde eles tinham a liberdade de consumir o sangue que quisessem sem serem perturbados – o nível de mortalidade era altíssimo. Mas estamos na era do big brother, onde há uma câmera em cada esquina. Caçar humanos é impensável.

Enquanto Eva era fornecida pelo amigo Christopher Marlowe (interpretado pelo incrível e eterno John Hurt) – sim, o poeta; aqui ele é um vampiro que fingiu sua morte em 1593 (!) –, Adão se veste de médico, sai na calada da noite até um banco de sangue e suborna um médico para conseguir seu sangue O Negativo. A cena é mortalmente cômica, desde a forma fria que ele tenta fingir ser um médico de verdade – usando utensílios ultrapassados – até a maneira que o médico do local morre de medo dele, mas aceita a barganha pelo dinheiro.

Imagem: Divulgação/Internet
Há ainda um ponto que, de tão óbvio, pode passar batido na resolução do longa: a forma que Jarmusch trabalha com a noite. Como todos sabemos, vampiros são seres noturnos, então todas as cenas do filme se passam à noite. Diferente da abordagem tradicional em filmes vampirescos, as noites aqui são sensuais, misteriosas e insinuantes, como se compartilhassem da natureza das criaturas. Não há temor, há atração. A cena final, com os dois vampiros observando um casal que delicadamente se beija, é a concepção máxima dessa noite emotiva do diretor.

O próprio nome dos vampiros também revela muito: eles conheceram tempos remotos e estão juntos até hoje, como se fossem os primeiros, e mais duradouros, amantes do planeta. Sem toda a ideia bíblica de pecado original, já que os dois são tratados quase como divindades, seres dotados de moral única e comportamentos dignos dos longos séculos nas costas, Adão e Eva são as peças definitivas que se encaixam como nenhum par. A víbora desse Jardim do Éden é Ava, a irmã que assombra os dois.

Imagem: Divulgação/Internet
“Amantes Eternos” é um longa primoroso pela versão atual e fiel do que viria a ser um mundo habitado por vampiros, uma das abordagens contemporâneas que conseguem casar com nossa realidade – a série "True Blood" é outro bom exemplo disso. Trazer figuras milenares que residem em nosso imaginário em cenários arcaicos como castelos para a era da internet é, no mínimo, curioso, e Jarmusch disseca essa premissa de forma genial, o que nos desafia e coloca em cheque nossas próprias concepções de realidade e modernidade, além de nos fincar ao chão sobre nossa tão sonhada imortalidade – ela pode não ser tão agradável assim.

Depois de ver incontáveis gerações, o que há mais para fazer? Como lidar com a futilidade da vida eletrônica e como preservar o tempo que eles vieram? Essas são algumas das várias questões levantadas no desenvolvimento de "Amantes Eternos". Tudo isso cria uma áurea magnética e narcotizante que nos faz adentrar naquela realidade vampira de forma ímpar, harmônica e sempre bela. Não importa que criatura você seja, o quanto tempo você exista e nem de onde você veio. No fim das contas o que nos une – e deve nos unir – é o amor, seja ele pelo o que for. Sejamos sinceros, não dá para não amar um filme sobre vampiros hipsters. Eles amam Jack White.