Crítica: "Mãe Só Há Uma" atira em vários pontos relevantes sem atingi-los com profundidade

Anna Muylaert ganhou o mundo em 2015 ao lançar a obra-prima contemporânea “Que Horas Ela Volta?”, representante do Brasil no Oscar 2016 (injustamente não indicado, pois ele é melhor que o próprio ganhador, “O Filho de Saul”, cof). Em terras tupiniquins, a diretora paulista já havia ganhado destaque em com os longas “É Proibido Fumar” de 2009 e “Chamada à Cobrar” de 2012.

Com o sucesso do longa estrelado por Regina Casé, a diretora aproveitou o embalo e lançou neste ano “Mãe Só Há Uma”, mais um estudo cinematográfico de situação. A história, baseada no caso real do garoto Pedrinho, segue Pierre (Naomi Nero), um adolescente descobrindo sua identidade de gênero. Em meio aos conflitos da juventude, ele descobre que sua mãe o sequestrou na maternidade. Seus pais biológicos o procuram há anos e ele tem que se adequar com a mudança brusca que essa revelação causará.

Imagem: Divulgação/Internet

O fator humano é um gatilho disparado de forma certeira pelo roteiro, que nos obriga a entrar na situação na tela. O que faríamos se todo o nosso núcleo familiar se revelasse uma mentira? Por ser menor de idade, Pierre, ou Felipe, seu nome “real”, não possui autonomia para decidir sua vida após a prisão de sua mãe, indo ficar com sua família biológica.

Numa jogada inventiva e bastante reveladora, Aracy, a mãe sequestradora, e Glória, a mãe biológica, são interpretadas pela mesma atriz, Dani Nefussi. Ela consegue construir duas pessoas completamente diferentes e que se encaixam nas realidades das personagens. Enquanto Aracy é a mãe de classe média, desbocada e fumante, Glória é mãe rica, elegante e recatada - os estereótipos são gritantes, mas necessários dentro dos contextos abordados. Sem atenção, nem percebemos que se trata da mesma atriz, o que mostra sua competência ao entregar duas personas distintas num mesmo filme.

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E o meio molda os indivíduos, com Pierre tendo que se adaptar à força àquele meio rico e cheio de mimos. Sua nova casa nada se parece com a antiga casinha do subúrbio, com obras de arte penduradas nas paredes e empregada doméstica para as refeições (contra o ovo frito da sua vida passada). É interessante notar a presença da empregada, negra, num paralelo aos temas abordados em “Que Horas Ela Volta?”. A personagem, quase uma figurante, não possui profundidade, o que pode incomodar. Não fica clara a intenção da diretora aqui. Se for conectar com seu trabalho passado, depende um pouco da boa vontade do espectador.

Com Pierre sendo o centro do longa, esbarramos com um grande problema: o personagem não consegue gerar empatia. Claro, trata-se de um adolescente meio rebelde que tem sua vida virada pelo avesso, todavia, sem laços com o público fica complicado, colocando em termos bem simplistas, torcer por ele.

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Além de sua personalidade introspectiva, Pierre lida com questões de sexualidade e gênero, outro problema enfrentado pela obra. O jovem se relaciona com garotos e garotas e usa roupas femininas. O longa não entrega um consenso sobre a identidade de gênero dele - seria ele trans? ou apenas sua expressão de gênero seria feminina? Com temas tão complexos, o filme perde a oportunidade de trabalha-los de forma competente. Sua própria duração, apenas 82 minutos, compromete esse trabalho, com Pierre soando como garoto-que-quer-chamar-atenção com suas roupas femininas. Ao invés de um estudo sobre a sexualidade e gênero humana, o garoto parece estar mais preocupado em irritar seus pais com seus vestidos, o que soa  irresponsável com as demandas de temas tão relevantes.

O melhor desenvolvimento fica por conta da situação dos pais. Esperando o retorno do filho sequestrado por 17 anos, idealizações foram formadas, sendo jamais atingidas por, agora, Felipe. Eles tentam de todo jeito agradar o filho, mesmo ao entrarem em conflitos, como na cena do provador, onde o pai, Matheus (Matheus Nachtergaele) agride Felipe por ele estar de vestido.

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O personagem mais desperdiçado é Joca (Daniel Botelho), o irmão biológico caçula de Felipe. Na escola, ele enfrenta bullying, provavelmente causado pelo irmão de vestido, mas toda a discussão, que renderia momentos inspirados, é resumida a uma única cena. Toda a complexidade da realidade mudada com a chegada de Felipe na vida de Joca é mal aproveitada, culminando numa cena final bastante bonita, mas sem o peso que realmente merecia.

“Mãe Só Há Uma” poderia ter 30 minutos a mais e desenvolver melhor tantos subtextos. Numa metáfora bem picareta, ao invés de terminar uma grande piscina profunda, soou como várias piscinas infantis. Mesmo sem a comparação com seu filme anterior, Muylaert orquestra um longa-metragem rico, porém raso. Ruim? Jamais.


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