Editorial: se o Tidal do Jay Z for a ‘Nova Ordem Mundial’ dos streamings, nós seremos como os católicos que perseguiam os Illuminati

Não há nenhuma surpresa em ver que a internet está mudando a maneira que consumimos músicas e, de um tempo pra cá, lojas como o iTunes e Amazon deixaram de ser o foco dos consumidores, cada vez mais habituados aos streamings, mas em tempos de Spotify e Deezer oferecendo esses serviços gratuitamente, o rapper Jay Z anunciou a chegada da sua própria plataforma e vem acompanhado de um exército que, assim como Taylor Swift ou Björk, não está tão interessado no quanto podem alcançar com sua arte e sim quanto podemos pagar para tê-la.

Ainda crescendo no Brasil, mas com uma força enorme lá fora, serviços como Spotify, Deezer e Rdio consistem na execução de enooormes catálogos que contam com boa parte da discografia de inúmeros artistas, trazendo ainda o lançamento rápido de novos materiais e todos eles se destacam por diferentes razões. Essas plataformas trabalham de uma maneira semelhante, contando com diferenças aqui ou ali entre as músicas por eles disponibilizadas, e têm como diferencial a possibilidade de consumo gratuito, uma vez que esse tipo de usuário concorda em ouvir as músicas sem pagar nada, mas precisa escutar vez ou outra alguns anúncios.

O formato vem funcionando bem. Tanto no Spotify quanto Deezer, o consumo gratuito é bem vantajoso e nos dá acesso à tantos materiais que nem temos porque reclamar dos anúncios, mas aos interessados, eles também trabalham com planos pagos, que oferecem vantagens como uma maior qualidade de áudio, possibilidade de ouvir músicas offline, entre outras coisas, só que as gravadoras e grandes artistas encontraram um problema nisso: não é a maioria que prefere os planos pagos.

A ascensão dos streamings em meio aos fãs de música tem sido gradual e, ainda que por meio dos planos gratuitos, reeduca um público que há alguns anos estava bem familiarizado com os downloads ilegais ou torrents, só que os grandes selos começaram a se incomodar pelo fato de que, para se dar ao luxo de oferecer todos esses materiais “de grátis”, serviços como o Spotify terminam oferecendo uma porcentagem bem pequena de seus lucros aos artistas, o que, dependendo do artista e seu apelo público, pode até ser muito dinheiro, porém, a indústria está diretamente associada aos ganhos, às vendas, então eles sempre querem mais, e o Spotify não pode oferecer isso sem que perca um dos seus principais atributos e, consequentemente, a maior parte da sua base de usuários.

Eis que anunciam o que poderia ser um dos maiores concorrentes do Spotify. Chamado Tidal, a plataforma de streaming, que por pouco não sobreviveu ao tempo, teve parte de suas ações compradas pelo rapper Jay Z e, ao contrário dos serviços que já conhecemos e consumimos atualmente, tem como premissa justamente o contrário do que seu slogan sugere. Slogan que é, inclusive, bem semelhante ao do Spotify: “Tidal para todos”. Mas todos quem?



Numa estratégia de marketing assustadoramente funcional, o Tidal renasceu na internet com o apoio de nomes como Jay Z, todo o seu bonde (Beyoncé, Rihanna, Kanye West) e mais um pouco, como Madonna, Usher, Daft Punk, Deadmau5, Jack White, Coldplay, Calvin Harris e vários outros que são grandes e, o principal, influentes. Em suas redes sociais, todos esses artistas se mobilizaram trocando suas fotos de perfil por uma imagem azul (cor que, coincidência ou não, é o nome da filha de Jay Z com Beyoncé, Blue Ivy) e com um discurso sobre estar na hora de mudar o mercado musical, seguido da hashtag #TidalForAll (“Tidal para todos”, em tradução livre).


Para seu lançamento, Jay garantiu que tudo fosse um grande acontecimento e, depois de uma contagem regressiva em seu site oficial, transmitiu pela internet uma conferência com todos os nomes citados até aqui e outros, como Alicia Keys, J. Cole, um pessoal de peso para os mais variados gêneros musicais. Parecia uma verdadeira reunião Illuminati, mas era só Jay Z formando sua seita para impor a Nova Ordem Mundial dos Streamings.



Momentos após a conferência, não se falava em outra coisa. Tidal será uma das plataformas mais completas do segmento, contando com uma curadoria completa e, além da execução de discos e singles, entrevistas, playlists e até videoclipes. Ele não vinha para brigar diretamente com o Spotify, mas sim com todo e qualquer serviço de streaming musical, o que põe na roda até a VEVO, mas com um porém. Sempre tem um porém.

Toda essa ideia de artistas se reunindo em prol de uma ferramenta que, no fim das contas, só reúne coisas que já conhecemos bem dentro de outras só começou porque com a ascensão do Spotify, que passou a influenciar até mesmo as paradas de discos e singles da Billboard, eles começaram a se incomodar com o “pouco” que ganhavam e, juntos com suas gravadoras, concordaram então que, para reverter esse cenário, o que precisavam era reivindicar a valorização de seus trabalhos, cessando a distribuição gratuita de seus materiais por serviços de execução na internet. Em 2014, foi mais ou menos isso o que Taylor Swift, que também está no Tidal, fez com o disco “1989”, removendo ele e toda sua discografia do Spotify e, um pouco depois, garantindo o título de um dos discos mais vendidos daquele ano.



Só que as coisas iam um pouco além. Explicando seu conceito de valorização, Jay Z afirmou que as pessoas estão cada vez mais interessadas em ter músicas de graça, mas não se incomodam em pagar US$ 6 numa garrafa de água, sendo que poderiam tê-la de graça em casa, e a comparação não poderia ser mais infundada, até porque não sobrevivemos sem água e podemos seguir em frente sem seus discos — ainda que eles sejam ótimos, vamos ser honestos — além do fato de que nem todo mundo se conforma em pagar US$ 6 em uma garrafa de água. Mas é nesse momento que confirmamos o que, de qualquer forma, já era óbvio: o Tidal é para todos, desde que esses estejam dispostos a pagar por isso. Que morte horrível.

Para desbancar um serviço que tem se mostrado tão estável quanto o Spotify, é claro que esse pessoal precisaria vender seu peixe e o que não faltaram foram pontos positivos sobre o tal Tidal. A sua principal carta na manga é a qualidade do seu áudio. Como descreve em seu site, a plataforma contará com um áudio de aproximadamente 1411kbps — quase cinco vezes superior aos 320kbps do Spotify — e que, desta forma, supera até mesmo os arquivos do iTunes. Esse nível é descrito como uma qualidade “atemporal”, visto que dificilmente conseguirão encontrar um arquivo mais potente por alguns anos, e logo encheu os olhos dos que amam ouvir seus artistas na melhor qualidade possível, se não fosse o porém de que, numa altura tão superior, para escutarmos precisaríamos de uma velocidade de internet razoavelmente boa (o que já descarta o consumo com a internet 3G da Tim, caso se pergunte), além de um fone de ouvidos daquela linha mais super-mega-blaster-cara-e-fodo-evoluída da Beats, uma das poucas marcas que nos dariam vazão para percebemos a qualidade do mesmo (nos outros, vai ser como ouvir o bom, humilde e velho MP3 estourando).

Mas e então, o que há de errado com o Tidal? Com uma curadoria completa, vasto catálogo dos mais variados artistas, apoio dos nossos maiores ídolos, qualidade insuperável de áudio e até videoclipes, por que não nos unimos ao império de Jay Z e desfrutamos de todas as vantagens da sua plataforma? Simples, eles estão realmente a fim de virar esse jogo contra a indústria, assumir as rédeas do consumo pela internet e, depois de tanto tempo reféns do Youtube, iTunes e agora Spotify, mostrarem que são eles quem ditam as regras, mas da forma errada.



A grande cláusula que alia o Tidal aos grandes selos é aquela que garante que a plataforma não oferecerá nenhum serviço gratuito. Se você quiser ouvir uma música, uma playlist ou um disco, precisa ter um perfil por lá e esse, ao contrário das alternativas no Spotify ou Deezer, deve ser pago. O valor do Tidal não é muito competitivo, seu plano mais barato está avaliado em US$9,90, mesmo preço do plano mais caro do Spotify, em tempo que o seu completão sai por US$19,90, o que, convertido em reais, ficaria aproximadamente R$62, e aí se pensarmos bem, as coisas não são tão vantajosas o quanto parecem. Quer dizer, a menos que eles façam a pior coisa que conseguimos imaginar.

Todos os artistas presentes na conferência de lançamento do Tidal garantiram por contrato uma porcentagem em suas ações, são todos um pouco “donos” da plataforma mais ameaçadora dos últimos anos, e quando falamos ameaçadora, é pela probabilidade dos selos, agora que encontraram um aliado, se recusarem a lançar trabalhos de seus artistas em outros serviços de streaming, exatamente da forma que fez Taylor Swift no ano passado. A ideia não é difícil de acontecer, até porque, pouco antes do Tidal ganhar vida, as gravadoras estavam em cima do Spotify e seus pedidos eram claros. Entre as exigências, eles queriam que, se não acabasse com os perfis gratuitos, a plataforma limitasse o consumo não pago por períodos, funcionando como uma franquia de horas por dia para ouvirmos música, sabe? A plataforma, confiando no seu formato e maneira com que cresceram trabalhando dessa forma, não topou perder o perfil gratuito e ilimitado, e é aí que o Tidal começa uma espécie de guerra fria.

Como o principal problema dos artistas com o Spotify são os pequenos lucros, não seria um problema para eles perde-los por completo, em tempo que, no Tidal, contarão com a garantia de 3% da renda que arrecadarem, e pensamos então no quão ruim seria se Jay Z conseguisse monopolizar todo o negócio, com um catálogo abrangente de artistas que só tocam no Tidal e se recusam a aparecerem no Spotify, Deezer, Rdio ou qualquer outro serviço.



Felizmente, ninguém ainda falou nisso, pelo menos abertamente, mas com a existência do Tidal e todo o apoio de nomes tão influentes, o cerco começa a fechar para o Spotify, a pressão das gravadoras deverá aumentar, e se eles não cederem, somos nós que perdemos. Quer dizer, perderíamos de qualquer forma, o bonde do Jay Z ganha. E aí deixa de ser um vantajoso mercado de plataformas que competem para nos oferecer o melhor conteúdo, para se tornar uma indústria digital em que nós escutamos artista X na plataforma Y ou simplesmente não o escutamos. A ideia era andar para frente, mas soa como um puta retrocesso, e a reação para toda essa cadeia de acontecimentos vai ser decisiva, seja de uma maneira boa ou ruim, significando a reeducação completa dos consumidores, que aceitarão de boa pagar mais caro para ter tudo o que querem de seus artistas, ou a volta do interesse deles pelos downloads ilegais. Nossa aposta, ainda que bem radical, é na última opção.

Seja como for, talvez a gente esteja se antecipando, mas se tiver que ficar de algum lado, evitamos viajar de avião pelos próximos meses e ficamos com a plataforma que, de fato, nos ensinou como a indústria continuaria comercializando discos na era digital e viabilizou a chegada de um catálogo tão expansivo para o maior número de pessoas possíveis, incentivando também a descoberta de novos artistas e, desta forma, a garantia de que raramente ficaríamos sem algo para ouvir. A música é para todos, o Tidal não.

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