Throwback Review: Marina & The Diamonds exibe suas mais preciosas posses com o 'The Family Jewels'

Hoje ela pode cuidar de frutas, mas Marina & The Diamonds sempre foi a dona dos diamantes. E esses diamantes são suas próprias músicas, reconhecidos desde antes do seu debut album: em 2009 ela ficou em segundo lugar no "Sound of 2010" da BBC, ranking que traz as próximas promessas da música, atrás apenas de Ellie Goulding. Aqui eles acertaram em cheio.

A galesa veio ao mundo em 2010 com seu álbum de estreia, "The Family Jewels". Com ele a cantora tinha a missão de fazer jus ao título ganho e criar sua identidade musical. Veremos com as faixas a seguir se ela conseguiu ou não.

1. ARE YOU SATISFIED?
"Eu estava arrancando meu cabelo no dia que eu consegui o contrato. Quimicamente calma, eu deveria me sentir feliz que minha vida estava prestes a mudar?", abre Marina, falando dela mesma. A primeira música do álbum já deixa claro o que viria a ser descoberto depois: é um álbum sobre a própria cantora. Em "Are You Satified?" a galesa canta sobre as suas próprias ambições, que refletem a ambição humana: "Você está satisfeito com uma vida mediana?". Escrita unicamente por ela, a faixa é uma ótima abertura que evoca o pop de maneira singular.

2. SHAMPAIN
O último single do álbum traz mais elementos eletrônicos sem deixar o jeitinho Marina de ser. Mais leve e agitada, "Shampain" trata dos devaneios pop com uma letra menos elaborada, mas criando um curioso trocadilho com o título: "champagne" virou "sham + pain", que significa "dor falsa", e Marina bebe uma garrafa dessa dor feita pelo anjo Gabriel como se não houvesse amanhã. Seu videoclipe tem momentos inspirados em "Thriller" do Michael Jackson inclusive.



3. I AM NOT A ROBOT
Algo mais próximo de uma balada, mas sem abandonar os sintetizadores, "I Am Not A Robot" é uma canção doce, apesar de a cantora jogar algumas verdades da cara do outro: "Você tem sido muito agressivo, fumando muitos cigarros ultimamente, mas lá dentro, você é só um bebezinho". Os versos guiados pelo piano são lindíssimos, mas o desembocar no refrão esticado pelos vocais de Marina, com seus "Guess whaaaaaa-a-a-at?" conseguem ser ainda mais incríveis. Uma das melhores do álbum.



4. GIRLS
Com batidas fortes e marcantes, "Girls" é uma faixa irônica sobre a existência essa cultura do fútil em cima da figura feminina e como isso é disseminado: "Garotas nunca se tornam minhas amigas porque eu durmo enquanto elas falam de todas as calorias que comem". Piano pesado, gaita arrastada e risadinhas debochadas no meio fazem de "Girls" uma grande bagunça que funciona muito bem. "Há alguma possibilidade de você parar de fazer fofoca sobre mim para esconder suas inseguranças?".

5. MOWGLI'S ROAD
Essa é, de longe, a faixa mais estranha do álbum. Começa com o som de um macaco robótico e cockoos, e Marina canta sobre estar sendo perseguida por colheres. É sério. Inspirada na história do "Mogli, o Menino Lobo", permanece o mistério até os dias atuais de como "Mowgli's Road" é tão boa. O refrão é divino, grudento e divertido com seus "And I don't don't don't (100X)", e nem mesmo a falta de sentido na viagem da cantora pela estrada com sons de macacos e garfos diminui a canção. Ainda há um momento para falsetes perto do final. O clipe sem um pingo de nexo completa o efeito festa estranha com gente esquisita que nós fazemos questão de participar.



6. OBSESSIONS
Dá um choque sair da loucura de "Mowgli's Road" para a sobriedade de "Obsessions", debut single da cantora. Mais uma escrita unicamente por Marina, a faixa, uma das melhores coisas que essa mulher já fez na vida, conta de obsessões pessoais em forma de historinha: "Domingo, acordo, me dê um cigarro. Você não vai parar com o choro? Eu não consigo dormir". A cantora consegue magistralmente passar o efeito de sufocamento quando nos inunda com enormes versos cheios de questionamentos que parecem não acabar e, ao serem tão bem construídos, não nos incomoda como para ela em sua cabeça. O piano é adorável e os "pa pa pa" depois do refrão são certeiros.



7. HOLLYWOOD
Marina é uma cantora galesa (isso significa que ela nasceu no País de Gales), um dos países que constitui o Reino Unido. De lá, Marina continua falando de obsessões, mas dessa vez apontando o dedo para o american way of life, o "sonho americano": "Hollywood infectou seu cérebro e você quer beijar na chuva. Vivendo em uma cena de filme, vomitando sonhos americanos", sem, claro, colocar seu pezinho nele: "Eu sou obcecada com a bagunça que é a América". O clipe, seu mais bem produzido da era, traz váaaarios estereótipos que os EUA nos derrama desde sempre, como líderes de torcida, cowboys, Marilyn Monroe, Elvis Presley e James Dean. Melhor parte: "Um segurança gordo se exibindo pra mim assim que eu pousei em LA disse 'Oh, meu Deus, você se parece exatamente como a Shakira! Não, não, você é a Catherine Zeta'. Na verdade, meu nome é Marina".



8. THE OUTSIDER
Parece que Marina chegou na tão sonhada América, mas aí ela se pega num universo completamente estranho e cai em "The Outsider". "Essas pessoas são tão estranhas aqui e elas estão me assustando. Só porque você sabe o meu nome não significa que saiba qual é o meu jogo". Uma das melhores produções de todo o álbum, num casamento fabuloso da melodia forte e crescente com a letra sincera e universalmente acolhedora (quen nunca "Me sentindo uma perdedora, me sentindo uma sem teto, sentada do lado de fora observando a diversão"?). Dá vontade de levantar e sair dançando. "Because I'm a fucking loooooooooocaaaaaaaaaa!".

9. HERMIT THE FROG
"Hermit The Frog" está no patamar de "Mowgli's Road" em termos de estranheza. Começa suntuosa e teatral, contando uma história bem nonsense, e também abusa de barulhos estranhos, risadas e uma penca de instrumentos diferentes, do piano à sinos. Pode soar bagunçada numa primeira ouvida, mas o refrão carregadíssimo, tanto no instrumental quanto nos vocais de Marina, são estranhamente cativantes. No meio de toda loucura há um dos melhores versos de todo o "The Family Jewels": "Eu não posso fazer nada se o diabo gosta de fazer do meu coração uma cama de casal".

10. OH NO!
"Não procuro amor, não faço amigos, não preciso de um relacionamento, não quero salário, não quero cartão, não preciso de dinheiro, não preciso de fama. Eu só quero fazer uma mudança", começa Marina na melhor faixa do álbum. Absurdamente chiclete, com letra fenomenal, é tudo o que a música pop tem de melhor a oferecer, mesmo que ela se contrarie em "Eu sei exatamente porque eu ando e falo como uma máquina" - pensávamos que ela não fosse um robô. A ponte repetitiva é a preparação perfeita para o refrão que vai grudar na sua cabeça pelos próximos três dias. Oh não!



11. ROOTLESS
Diminuindo um pouco o ritmo frenético dado nas faixas anteriores, "Rootless" é uma balada lindérrima que trata daqueles momentos onde nos sentimos completamente sozinhos no mundo: "Eu sou uma nuvem à deriva derramando lágrimas do céu, eu sou um caracol sem uma concha, um leproso com um sino de ouro. Eu não tenho para onde ir" - um detalhe sobre "um leproso com um sino de ouro" é que na antiguidade as pessoas com lepra realmente andavam com sinos dourados para as pessoas saudáveis saberem que elas estavam vindo, já que a doença era altamente contagiosa - Marina & The Aula de História. O que se sobressai em "Rootless" são os vocais fortes de Marina.

12. NUMB
Começa parecendo Florence + The Machine, o que é ótimo, não? Piano repetitivo e contínuo abre a estrada pra canção crescer até o divino refrão "I got dark only to shiiiiiiiiiiiiiiiiiine, looking for the goooooolden liiiiiiiiiiight, oh it's a rea-so-na-ble sacrifiiiiiiiiiiiiice". Numa composição solo de Marina, aqui ela brinca com seus vocais, crescendo e diminuindo-os de acordo com o tom da letra, moldando uma canção cheia de camadas que também nos deixa entorpecidos.

13. GUILTY
Marina encerra o álbum na vibe das duas últimas músicas, algo mais contido e suave. "Guilty" é quase inteiramente baseada num mesmo instrumental, que incorpora alguns outros instrumentos no decorrer da música para não torná-la repetitiva, como violinos e piano. A canção fala da vez que Marina matou um cachorro (?) e como ela carregou essa culpa. "E eu sei o que eu fiz e nunca serei perdoada. Eu era apenas uma criança que você não poderia perdoar". É realmente um dom a forma que a cantora trabalha conceitos estranhos de forma épica.


RESUMINDO: Marina é um raro exemplar de artista: ela é completamente fiel à sua própria obra. Numa época de fabricação midiática, onde vemos artistas moldados por produtores nos soterrando dia após dia, vem uma cantora que escreve suas próprias músicas e canta sobre ela mesma. Se não bastasse essa liberdade artística, ainda temos alguém com uma das vozes mais singulares da música moderna. "Froot", o terceiro álbum da cantora está vindo aí, mas ela não deixou para depois sua melhor fase, já começou com ela. É certo que os conceitos iriam amadurecer com o "Electra Heart" (e a vertente pop também), mas com o "The Family Jewels" Marina & The Diamonds já mostrou o quão preciosa é, sendo uma das melhores cantoras pop do nosso tempo, com músicas nada vazias em tempos de futilidades que consumimos sim, porém é bom comer algo com mais nutrientes também, senão ficamos doentes. Você está satisfeito?
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