Album Review: Jessie J e a corrida por sua derradeira relevância em ‘Sweet Talker’!

Há muito tempo afirmam que o lançamento de um segundo disco é a mais complicada fase para um artista, seja pela necessidade de reafirmaçã...
Há muito tempo afirmam que o lançamento de um segundo disco é a mais complicada fase para um artista, seja pela necessidade de reafirmação do que conquistou com seu disco de estreia ou pelo esforço para deixar claro aquilo que não conseguiu fixar em seu público, mas muitas das vezes toda essa história do “desafio do segundo CD” se resume à um claro clichê, da gravadora que, a todo custo, tenta repetir sucessos e, na melhor das hipóteses, continuar lucrando o máximo que puder com seu novo talento.

Se mostrando um nome pra ficar de olho desde seu single de estreia, “Do It Like A Dude”, a cantora britânica Jessie J foi uma das artistas mais autênticas que conhecemos no ano em que lançou o CD “Who You Are”, também composto por hinos como “Price Tag” e “Nobody’s Perfect”, mas não tardou até que, após cair no gosto público, a moça sofresse com a superestimação e, em seguida, pressão para manter todo esse interesse.


De início, tudo funcionou bem e, o que hoje não sabemos se foi assim tão bom, Cornish tinha ao seu lado produtores de grandes sucessos, como Dr. Luke e David Guetta, mas bastou chegar em seu segundo disco pra que nosso relacionamento sofresse a primeira crise.

Quem acompanhou nossas reviews durante a divulgação do “Alive”, deve se lembrar de toda nossa excitação com seu primeiro single, “Wild”, a repetição desta animação com outras faixas como “Excuse My Rude”, porque a nossa parte favorita de Jessie J é mesmo essa vertente marrenta com flerte na música urbana, mas também rolaram inúmeras críticas negativas para faixas como “It’s My Party”, o single que não deveria ter sido, em tempo que o disco só foi salvo após ser totalmente dissecado, uma vez que, com muito esforço, tentamos deixar de lado todo o contexto comercial que atrapalhou os seus singles e influenciou na rejeição do público, que ficou com a imagem ruim de um disco que está longe de ser ótimo, mas de uma qualidade indiscutível. 

Eis que, numa tentativa de salvar sua derradeira relevância, a britânica tenta outra vez neste ano e, visto que um relançamento seria algo fora de que$tão, com um disco totalmente novo. Intitulado “Sweet Talker”, o material chegou às rádios muito bem acompanhado de Nicki Minaj e Ariana Grande, dois nomes significativos para o pop atual, com o lead-single “Bang Bang”, além da promessa de uma produção do novo Midas da indústria, o superpoderoso Diplo, e participação de revelações que contribuiriam pra que o disco soasse, de fato, algo fresco, como a violinista Lindsey Stirling e o rapper que é pau pra toda obra, 2 Chainz. O nosso veredito sobre o material está logo abaixo.

01) “Ain’t Been Done”
“É melhor acreditar que eu serei sua número um, porque eu vou fazer isso como nunca foi feito”. Abrindo o novo CD, Jessie J nos apresenta uma mensagem bem parecida com “Do It Like A Dude” ou “Excuse My Rude”: ela, de fato, acredita que é a melhor no que faz e quer fazer com que você também acredite nesta teoria. Bem menos agressiva que as outras citadas, o clima convidativo nos mantém a favor da inglesa, numa sonoridade que vai de um radiofônico “pra cantar junto” ao flerte bem tímido com algo mais urbano.

02) “Burnin’ Up (feat. 2 Chainz)”
Com certa sede ao pote, a parceria com 2 Chainz em “Burnin’ Up” reforça a presença do hip-hop, agora nos lembrando de “Wild”, do CD anterior. Ela não entende como é que ele faz isso, mas basta chegar perto pra que a temperatura comece a esquentar. A intenção sexual é bem clara e o rapper, por sua vez, desperdiça os seus versos num “mais do mesmo” bem desnecessário, mas que terminou funcionando. Nossa parte favorita é a ponte, onde a música cresce com ares épicos e os corriqueiros versos de impactos de Jessie. “Andando pelo fogo, por favor não me deixe partir. Me leve até o rio, pois preciso que saiba... eu estou pegando fogo”.



03) “Sweet Talker”
Sabemos que o nome de Diplo ficou bem saturado desde que a Beyoncé o tornou mainstream com o sample de “Pon De Floor”, do Major Lazer, em “Run The World”, mas todos devem concordar que o cara, mesmo depois do sucesso, continua produzindo um hino atrás do outro e, sendo assim, não vamos achar ruim que ele seja o Calvin Harris/Pharrell Williams da vez. Em “Sweet Talker” encontramos, inclusive, alguns pontos característicos de Diplo, remetendo ao trabalho do cara com a Sia em “Elastic Heart”, do CD “1000 Forms of Fear”, e a ideia não poderia funcionar melhor para os vocais de Jessie J, que se entrega à uma faixa aonde confessa não pedir muito além de algumas palavras do seu amado. “Posso te dizer que você sabe o que é preciso para me derrubar”.


04) “Bang Bang (feat. Ariana Grande e Nicki Minaj)”
Primeiro single do disco, a faixa colaborativa com Ariana Grande e Nicki Minaj está longe de soar memorável, mas convence e, o principal, entretém, sendo o sopro de ar fresco que a carreira de Jessica implorava desde o peso adquirido com a má impressão do “Alive”. Todo o contexto e sonoridade, mais orgânica e, ainda assim, radiofônica, faz com que lembremos do clássico “Lady Marmalade”, mas não adianta, o grande nome, sem a intenção de trocadilhos, é mesmo o de Ariana.

05) “Fire”
Na primeira baladinha do disco, 2 Chainz já está bem longe, mas a chama de Jessie J continua acesa, e queimando a sua alma, aqui de uma maneira não tão excitante quanto em “Burnin’ Up”. Acompanhada de toda uma orquestra ao fundo, a faixa cresce aos poucos, começando de forma tímida até atingir um ápice que beira o épico. O grande tiro no pé é o seu refrão, que perde a chance de ser grandioso em tempo que se perde numa tediosa repetição.

06) “Personal”
O amor continua a queimando por dentro e toda essa intensidade a preocupa cada vez mais. “Personal” mantém o clima mais lento e apresenta também uma simplicidade incrível, nos rumando em meio a uma percussão tímida e o que chamaríamos de “alt-R&B”, com synths aqui e ali e alguns estalos de dedo. Todo o malabarismo vocal de Jessie J nos incomoda um pouco, mas a letra é uma das mais bonitas do álbum. “Eu não sou uma mentirosa, só não sabia como encontrar uma maneira de te dizer a verdade [...] Nós não sabemos por que fazemos o que fazemos, mas fazemos. Isso está ficando sério demais”.



07) “Masterpiece”
Reassumindo aquela agressividade que nos referimos em “Do It Like A Dude”/”Excuse My Rude”, “Masterpiece” faz um perfeito fade-in com um violino que propõe todo um novo clima, até um pouco misterioso, com versos que cospem todo o seu ego para os odiadores outra vez. “Tanta pressão. Pra quê tão alto? Se você não gosta do meu som, é só abaixar o volume [...] Ainda quebro a minha cara às vezes e não consigo acertar sempre, porque sou perfeitamente incompleta, mas estou aperfeiçoando a minha obra-prima”. O refrão é bem menos encorajador que os versos iniciais, mas a música continua soando ótima. E Jessie J, Kanye West te entende, mana.

08) “Seal Me With A Kiss (feat. De La Soul)”
O clima está melhor outra vez e, em “Seal Me With A Kiss”, ela parece decidida a se entregar a um novo amor. Toda a excitação a inunda outra vez e ela confessa, “eu não posso mentir, se tivesse só uma chance com você esta noite, dançaríamos até o amanhecer. Um romance está nos meus planos”. Este é o mais perto que ela chegou de faixas como “Sexy Lady” ou “It’s My Party”, que são as mais radiofônicas do CD anterior e, a titulo de informação, De La Soul é um famoso grupo de hip-hop nova-iorquino, conhecido principalmente por sua contribuição na junção do hip-hop com jazz. Ultimamente todos têm adorado jazz.

09) “Said Too Much”
Indo de Katy Perry à Kelly Clarkson, passando ainda por Robyn, Demi Lovato, Miley Cyrus e mais uma série de nomes, “Said Too Much” é uma das faixas mais comuns do disco, mas não perde em nada por conta disso, sendo, inclusive, uma das que nos conquistou mais rapidamente, talvez pela fórmula tão certeira. A midtempo retoma a letra de “Sweet Talker”, quanto ao rapaz que sabia como desmoroná-la com algumas palavras e ele, de fato, o fez. “[...] Eu continuo ouvindo tudo o que você disse e isso está acabando comigo. [...] Acho que você poderia ter dito um pouco mais. Desculpas não são mais o suficiente. Cara, você realmente acabou comigo”.



10) “Loud (feat. Lindsey Stirling)”
Dentro do “Sweet Talker”, o violino é muito bem usado durante o ápice de “Fire” ou intro de “Masterpiece”, mas a participação da Lindsey Stirling mesmo é em “Loud”, que por pouco não passa despercebida dentro da tracklist. Talvez má posicionada, entre duas canções bem mais convidativas, a música também perde alguns pontos quanto a sua temática, já repetitiva, com Jessie J falando mais uma vez sobre a rejeição. “Por que eu não odeio vocês e eles continuam me odiando? [...] Eles não vão parar até que você esteja no chão. Até que eu esteja no chão”.

11) “Keep Us Together”
Apaixonada outra vez, em “Keep Us Together” tudo o que Jessie J quer uma certeza de que seu amor será o suficiente pra mantê-los juntos. Agora soando um tanto retro, a faixa retoma uma pegada mais amigável e até os vocais de Cornish estão mais “descansados”, enquanto ela pede “diga que nós temos o suficiente do nosso amor pra continuarmos juntos”.

12) “Get Away”
Na vida real, o amor nem sempre é aquele mar de maravilhas, né? Nem sempre queima com toda a sensualidade de “Burnin’ Up” ou nos mantém totalmente completos, como no romance casual de “Seal Me With A Kiss”, e sobrou para “Get Away” falar sobre o outro lado dessa moeda. Numa fórmula “Furler-ística”, a faixa é uma das melhores baladas do “Talker” e os vocais de Jessie também saem em destaque, não caindo nos malabarismos já citados. Nosso momento favorito é o ápice antes dos versos finais. “Como isso pode ser um jeito diferente de amar? Isso costumava nos salvar, agora só está nos separando. Não é sobre desistir, mas sabemos que não é seguro o suficiente. Mantenha distância”.

13) “Your Loss I’m Found”
Ainda perdida, em “Your Loss I’m Found” temos uma baladinha um pouco mais convencional, pendendo para a sonoridade comum de “Said Too Much”, mas sem o fator X que encontramos naquela canção. Aqui, tudo o que ela continua querendo são respostas, mas parece ainda mais decidida a não continuar com o que não tem a satisfeito. “Eu não estarei por perto e a perda é sua. Eu me encontrei”. A guitarra no último refrão é algo para se levar em consideração.

14) “Strip”
Chegando em “Strip”, nos lembramos de um probleminha na discografia de Jessie J. Ela sempre foi muito ruim com tracklists e, geralmente, encerra o disco com uma série de faixas “enche linguiça”, o que é o caso dessa aqui. O fim do disco é uma depressão sem fim, mas de repente somos surpreendidos por essa faixa, ora Katy Perry, ora prima mais favorecida de “It’s My Party”. A gente espera que ninguém pense em lançá-la como single, ainda que soe bem divertida.

15) “You Don’t Really Know Me”
A pressão para satisfazer os outros é realmente algo que a assombra e, em “You Don’t Really Know Me”, a cantora confessa isso, em meio à um arranjo bem simples, todo levado por um violão. Os destaques mais uma vez ficam para seus vocais, até que bem dosados, enquanto a letra também se esforça para chamar a atenção. Missão cumprida. “Pois até quando estou caindo, digo que minha vida é um sonho, mas na verdade estou lutando contra um pesadelo, pois não tenho sido eu mesma. Você realmente não me conhece”.


Jessie J é uma cantora e compositora muito talentosa e disso nunca duvidamos, mas com “Alive” tivemos uma cansativa de aventura cheia de sobe e desce, com base no que ela achava ou não adequado para as rádios. Nesta corrida, ela realmente foi passada para trás, mas enquanto comia poeira se deu um tempo para entender o que buscava e, em “Sweet Talker”, recupera então o saldo positivo. O disco tem lá suas falhas de equilíbrio na tracklist, assim como certa redundância em suas letras, mas ainda que não soe como nada que nunca tenhamos ouvido, cumpre bem o seu papel, tanto como um bom disco quanto como um material pra lá de comercial. A cantora e sua gravadora agradecem, e nós também, obviamente.