Review: Dido e sua mudança de estilo arriscada em "Girl Who Got Away"!

Há mais de uma década, uma cantora britânica, loirinha e de cabelo curto, chamada Dido, lançava seu álbum de estreia, o "No Angel&qu...

Há mais de uma década, uma cantora britânica, loirinha e de cabelo curto, chamada Dido, lançava seu álbum de estreia, o "No Angel", que rapidamente dominou as paradas mundo afora, gerando os hits "Thank You" e "Here With Me".

Vendo o poder do segundo single dela, Eminem a convidou para uma parceria na faixa "Stan" (que conta com os samples icônicos do refrão de "Thank You"). Nem precisa dizer que a parceria foi um sucesso absurdo, sendo um catalisador para a carreira do rapper, que se tornou a grande estrela que é hoje, afinal, é uma das mais bem criticadas da sua discografia.

E não apenas trouxe benefícios a ele, também fez da então ~desconhecida~ Dido, um nome muito relevante para o pop dos anos 2000. O "empurrão" dado por Eminem levou as vendas de "No Angel" a ultrapassar os 12 milhões de cópias em 2001, tornando-se o disco mais vendido do planeta nesse ano, e dando impulso para nada menos que 29 milhões de álbuns vendidos na carreira.

Seus dois primeiros álbuns - "No Angel" (1999) e "Life For Rent" (2003) - estão entre os mais vendidos do Reino Unido de todos os tempos. Já seu terceiro, o "Safe Trip Home", não conseguiu corresponder ao mesmo nível de sucesso dos anteriores, mesmo assim, conseguiu sua estreia nas paradas de 2008 em #2 lugar.


 Com tudo isso, uma cantora que logo de cara faz sucesso a nível mundial pode se dar o luxo de ir e vir quando bem entender, não é mesmo? Nem sempre! É uma decisão arriscada, pois além de ter dado um hiato de 5 anos na carreira, Dido tem outro agravante nessa volta: surgiram Adele e Emeli Sandé (que teoricamente rivalizam no mesmo público) neste período para o UK.

Agora, aos 41 anos de idade, Dido decidiu retomar sua carreira com o álbum "Girl Who Got Away", que vai pra uma direção um pouco diferente da qual estamos acostumados. No novo álbum, lançado no dia 4 de março, a produção conta com contribuições de peso: Brian Eno, Jeff Bhasker, Rick Nowels e Greg Kurstin, e Dido assina a maior parte das canções. A voz profunda, agradável e calma, continua soando exatamente como nos lembramos. Mas com produção de seu irmão, Rollo Armstrong, membro da banda Faithless, o álbum tem uma forte influência pop eletrônica em algumas partes, mas não menos agradável.



Confira abaixo nossa review da versão Deluxe:

1) "No Freedom"

A bela faixa que abre o álbum, é também o primeiro single, e soa como a Dido de "White Flag" ou "This Land Is Mine" (ambas do "Life For Rent"). Em cima de um refrão muito repetitivo, é perfeita para ter como som ambiente, tendo um efeito bem calmante.



2) "Girl Who Got Away" 

A faixa-título começa com uma série de sentimentos que lembram algo que Jack Johnson poderia ter feito. É uma faixa agradável, letra cativante, mas que poderia ser escrita por qualquer adolescente, e ainda é sobre relacionamentos, onde em alguns momentos é melhor se afastar pra ser feliz.

3) "Let Us Move On" feat. Kendrick Lamar

Logo de cara, esse rap do Kendrick Lamar em "Let Us Move On’" me incomodou. Gosto dele até, mas essa música é tão linda (uma das melhores do álbum) que não precisava, Dido.



4) "Blackbird"

Um das faixas mais incríveis de todo álbum surpreende logo de cara, trazendo uma Dido com uma vibe dançante. Para aqueles já familiarizados ao som dela, este pode causar um pouco de estranheza, por ser uma música um pouco fora do lugar comum, mas "Blackbird" é uma faixa que precisa ser ouvida e com paciência para se entender sua nova proposta. Por hora, minha favorita.



5) "End of Night"

É outra música interessante do álbum, e que traz uma certa referência do "Life for Rent". Com versos do tipo "Eu não sinto nada quando você chora" e "Venha até aqui para me ver indo embora", traz um misto de sentimentos, onde ironicamente soa um tanto quanto impiedosa e amargurada na canção, deixando-a ainda mais interessante.

6) "Sitting on the Roof of the World"  

A bela baladinha resgata o som angelical, lindo e doce da Dido dos anos 2000. É uma das ótimas faixas pra se ouvir quando estiver triste.

7) "Love To Blame"

Quando a ouvi na primeira vez, fiquei surpreso, porque é uma música um pouco dançante. Até o arranjo eletro-pop soa diferente, dando a impressão de algo sendo torcido, principalmente quando Dido entra no refrão. Uma boa faixa!



8) "Go Dreaming" 

A linha eletro-pop tomada pelo álbum continua presente nesta faixa. Como o próprio nome sugere, "Go Dreaming" é uma sonhadora canção, em que Dido opta por um vocal super suave, honrando seu título em todas as vertentes. Outra faixa que adoro!


9) "Happy New Year"

Engana-se quem pensa que esta faixa é algo alegre, com motivos para festejos de fim de ano e etc., pelo contrário, "Happy New Year" é uma melancólica e triste canção a respeito das consequências que o rompimento de uma relação causa. Com versos tocantes como "Vou deixar a festa mais cedo / Depois de uma bebida ou duas", ela canta com tristeza: "E mesmo assim procurarei no meu telefone suas ligações  / Embora eu saiba que nunca houve o 'nós'". De fato, serve como uma faixa compreensível para aqueles momentos em que você deve se reerguer: compreensível e comovente, perfeita definição de um cenário.

10) "Loveless Heart" 

A baladinha me lembra um pouco a colaboração de Dido com o Faithless, em "Last This Day". Bonita e tocante. E só.

11) "Day Before We Went to War"

Contando com alguns sons fazendo referência à natureza no início, esta canção é perfeita para a voz suave de Dido, fazendo você se sentir como se estivesse andando no meio de uma floresta, refletindo sobre a vida. Ao longo da música a melodia suave toma um novo rumo para assustador, mas nunca deixa de ser reconfortante.

12. "Let Us Move On" feat. Kendrick Lamar (Jeff Bhasker Version)

Olha, as mudanças feitas na versão do produtor Jeff Bhasker me fizeram considerar um pouco mais esta que é uma excelente canção, mas a parte do rap tinha ficado desfocada ao meu ver. Na versão de Bhasker, temos um novo arranjo, que a deixa mais segura e com alguns tambores incluídos, traz um ar bem agradável. Confesso que prefiro essa versão à original.

13) "All I See" feat. Pete Miser

Trata-se de uma canção inesperada. Muito diferente, mas com uma agradável batida e a maneira como seus vocais são adicionados aos versos, formulando o corpo da canção, acaba soando bem acertada. O refrão não é uma parte muito forte da música (mesmo assim é legal), ao contrário do rap de Pete Miser, que (diferente de Kendrick Lamar em "Let's Us Move On") se encaixa como uma luva.



14) "Just Say Yes"

O início desta canção realmente me surpreendeu. Mas, então, Dido começou a cantar e eu fui empurrado ao sentimento confortável e familiarizado que a letra sugere. Vez ou outra, a batida acaba soando um pouco estranha pra mim e, principalmente, para uma música da Dido. Ainda não tenho certeza se gosto ou não dessa música. E isso nem é um meio-termo.

15) "Let's Run Away"  

Juro que em alguns momentos, pensei que estivesse ouvindo uma segunda versão de "Just Say Yes", mas enfim, era outra canção, só que agora trazendo a Dido de volta ao seu amado lado pop. Como eu queria que essa faixa fosse lançada como single, e não que constasse apenas na versão deluxe do álbum.



16) "Everything to Lose" (Armin Van Buuren Remix)

A faixa remixada por Armin Van Buuren é bem dançante, muito alegre e, definitivamente, algo que para quem curte o gênero, logo simpatizar. Eu não sou muito chegado em remixes para este tipo de canção, especialmente envolvendo a Dido, então não abro exceções aqui. A canção original (que pode ser encontrado aqui) foi lançada em 2010 para a trilha do filme "Sex and the City 2". E é de longe, muito melhor do que este remix, ao menos na minha opinião.


17) "Lost"  

É o tipo de canção que você gosta até a metade (pelo menos pra mim foi assim), por conta do coro repetitivo ela começou a me irritar um pouco, mas é uma boa faixa.


Então, concluindo: Quando fora perguntada sobre qual a sonoridade do "Girl Who Got Away", Dido afirmou que seria "um grande álbum, divertido e um espetáculo eletrônico". Bem, o que vemos e ouvimos aqui, é bem mais legal do que imaginei, mas tá longe de ser um *BOOM* quanto "No Angel" e "Life for Rent". Lógico, é um comeback, então retoma o passado glorioso para reacender o culto de uma legião de fãs apegada à hits como "White Flag" e "Thank You".

Apesar de sua intenção declarada em adotar uma abordagem eletrônica, o que levaria este quarto álbum para uma direção bem diferente de seus antecessores, ainda é possível enxergar a velha Dido aqui, como no primeiro single, "No Freedom". Muito embora, acredito que esse tempo todo (5 anos) sem lançar nada foi muito prejudicial pra ela, afinal, neste período apareceram Adele e Emeli Sandé no mercado. E convenhamos, fica difícil competir, por melhor que ela seja.

Enfim, muito do sucesso do passado de Dido é devido ao seu estilo suave e seus profundos  vocais. E é quando ela fica na sua zona de conforto, que você se lembra o motivo que fez dela um fenômeno mundial na década de 2000. Adotar um som bem diferente, como o feito em "Girl Who Got Away", é um tanto quanto arriscado - inclina mais pro eletro-pop do que nunca, mas ainda cheio de melodias simples e amigáveis - e não é uma garantia de sucesso, mas ao menos pra um alguém que gosta da discografia dela, até que soou bem interessante. Mesmo assim, acredito que Eminem ficaria desapontado se ele estivesse procurando por outro refrão para incorporar.