Crítica: se apaixonar é uma insanidade socialmente aceita no melancólico "Ela"

Esse filme é tão "Black Mirror"

Você está assistindo àquela sua série favorita - quem é fã de "Game of Thrones" vai entender bem. Num determinado momento o seu personagem do coração morre. Você entra em depressão, fica inconsolável, até chororô rola. Por causa de algo que não existe. Se não existe, por que você se apega tanto, chegando ao ponto de sofrer pelo destino de um ser inexistente e irreal? 

Essa é a indagação fundamental gerada pelo filme "Ela", de Spike Jonze. No longa, Theodore (Joaquin Phoenix, em delicada atuação), escritor solitário, compra um novo e moderno sistema operacional de múltiplas plataformas que foi desenvolvido para interagir da forma mais complexa com o proprietário. O tal sistema é completamente auto-suficiente, feito para atender a todas as necessidades do usuário, tendo praticamente "vontade própria". Autonomeando-se "Samantha" (voz de Scarlett Johansson), o OS começa a fazer parte integral da vida de Theodore, e este se pega apaixonado por ele. Ou, no caso, por ela.

A premissa pode parecer absurda, mas possui colunas de fundamento fortíssimas. "Ela" se passa num futuro não tão distante, porém olhando para nosso atual redor, vivemos numa época em que eletrônicos são verdadeiros apêndices dos nossos corpos. Estamos 24 horas por dia conectados com outros e com nós mesmos, e você já deve ter achado o fim do mundo o wifi não estar funcionando por meia hora.


No caso de relacionamentos, já está mais que batida a ideia de que interagimos mais pelo computador/celular do que "ao vivo e à cores". E nem precisamos falar de relacionamento à distância. Mesmo os laços que mantemos com pessoas geograficamente próximas são mais explorados pela telinha touch. Aquilo que servia para unir, desune.

Jonze pega então essa ideia e eleva ao máximo, com uma pessoa se apaixonando pela máquina - algo que vemos num outro contexto no fabuloso "Ex Machina: Instinto Artificial". Voltemos para a pergunta inicial desse texto. Por que amamos algo que não existe (no mundo físico/real)? Afinal, o que diabos é o amor? Ao contrário do que pensamos, "amor" não está no "corpo" do outro, está nas nossas cabeças. Química cerebral, hormônios, uma porrada de ligações elétricas dentro dos nossos crânios são transformados nesse sentimento avassalador. Então por que não amar algo que foi desenvolvido - no caso do filme, literalmente - para você? Como resistir a isso?


Na situação de Theodore, tudo é ainda mais tentador. Ele tenta superar o divórcio com sua ex-esposa e paixão de infância, buscando alguém para ser sua "válvula de escape". Encontros casuais, sexo virtual, enfim, qualquer coisa que tire da sua cabeça a ex (interpretada por Rooney Mara) e o arranque da constante solidão é meio válido para a fuga do vácuo deixado pelo término. E quantos de nós não já passamos por isso?

Então aparece Samantha, a criatura (se é que podemos chamá-la assim) perfeita. Engraçada, atenciosa, carinhosa, afável... E Samantha, durante conversas, suspira. A máquina suspira. Uma ato puramente humano, mas já desenvolvido para assim parecer, como todos os questionamentos feitos por ela, que a tornam ainda mais humana. A junção de ferro e corrente elétrica soa mais humana que muita gente. Até mesmos nós, espectadores, nos esquecemos em alguns momentos que a personagem não "existe". Como isso é possível?


Se isso ainda parecer ilógico para você, pensemos: quantas pessoas ao seu redor não se relacionam virtualmente? Namorar pela internet é prática comum nos dias de hoje, e nada mais é do que amar uma imagem virtual, uma voz transformada em sinais, um ser humano visto em pixels. Não tão diferente de Samantha, se pensarmos dessa forma. Estamos tão desesperados por uma fatia de afeto que nos apegamos àquele que nos der essas famigeradas migalhas. Não que namorar com alguém a centenas (ou até milhares) de quilômetros seja sinal de desespero, todavia, somos todos seres solitários querendo fugir disso sem medir o preço.

Se o conteúdo de "Ela" já é suficiente para fazer um grande filme, ainda temos a atuação excepcional de Phoenix, que passa a obra inteira praticamente sozinho, já que "contracena" com uma voz. Johansson fez um trabalho louvável ao conseguir transformar Samantha numa personagem tridimensional sem nem aparecer em cena. Também temos uma singela Amy Adams, queridinha de Hollywood e, aqui, melhor amiga de Theodore, num pequeno e notável papel. Ela está no fim de um relacionamento (humano mesmo), e é interessante notar que, quanto mais o relacionamento (novamente, humano) de Amy vai afundando, mais o de Theodore (virtual) vai crescendo. Há uma áurea pessimista aqui, como se a acensão cada vez maior da tecnologia nos tornasse frios, e esse advento seria nossa única saída.


Em ficções-científicas, geralmente encontramos dilemas sociais ou batalhas com robôs e alienígenas, então a abordagem de Jonze é uma criativa empreitada dentro do gênero. Discutindo o amor de forma até desesperançosa, o filme possui reflexivos diálogos sobre o sentimento mais insano que existe, como "Eu acho que quem se apaixona é uma aberração. É uma loucura socialmente aceita", o que conversa, através dessa estranheza espirituosa, com outros filmes do diretor, como "Quero Ser John Malkovich" (1999) e "Adaptação" (2002), sendo "Ela" seu primeiro roteiro solo.

Nada recomendado para quem está passando por dramas de relacionamento ou aquela velha dor de cotovelo, "Ela" possui bela trilha sonora, uma maravilhosa direção de arte (a cor rosa está por toda parte, casando com o lirismo melancólico do protagonista) e o merecidíssimo Oscar de "Melhor Roteiro Original" na estante. De forma bem singela, Jonze cria o melhor filme de 2014, uma obra absolutamente moderna, criativa, instigante, empolgante, apaixonante e, acima de tudo, linda. Muito linda.