Crítica: "Ex Machina: Instinto Artificial" usa o metal de um robô para questionar a nossa própria carne

Vencedor do Oscar de "Melhores Efeitos Visuais", o longa discute machismo, objetificação feminina, síndrome de deus e sexualidade pela carcaça de um robô

Filmes que discutem a relação homem com a máquina são nada novos. Só voltarmos 90 anos, para 1927, e vermos a obra-prima “Metrópolis” do alemão Fritz Lang, onde retrata a revolução trabalhista a partir do caos instaurado por uma robô. A concepção futurista que mistura o sangue com o ferro é algo idealizado pelo homem há tempos, e até hoje, nosso lustrado e utópico futuro, filmes com o tema rendem bastante.

Em 2014 o filme “Ela”, de Spike Jonze, arrebatou corações pelo romance do homem com a máquina, levando a questionamentos profundos e inteligentes sobre amor, necessidade e solidão, tanto que rendeu o mais que merecido Oscar de “Melhor Roteiro Original” para Jonze. Outro filme que explora esse relacionamento sangue/plástico é “Ex Machina: Instinto Artificial” (2015), a estreia de Alex Garland no cinema como diretor. Vindouro do Reino Unido, o longa conta a história de Nathan Bateman (Oscar Isaac), um excêntrico CEO de uma empresa que convida o programador Caleb Smith (Domhnall Gleeson) para realizar o Teste de Turing numa robô humanoide dotada de inteligência artificial chamada Ava (Alicia Vikander).


O Teste de Turing, introduzido por Alan Turing em 1950 e que abre o clássico “Blade Runner – O Caçador de Androides” (1982), testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste. Caleb aceita realizar o teste em Ava, feito a partir de conversas e perguntas, mas ele se vê íntimo demais da robô, algo que pode ser perigoso.

Como já dá para notar, o filme gira em torno de Ava, mesmo Caleb sendo o protagonista. E é nela que habita a mágica do filme. Alicia Vikander, vencedora do Oscar de “Melhor Atriz Coadjuvante” por “A Garota Dinamarquesa” (2015), venceu pelo filme errado: é em “Ex Machina” que ela brilha. A sueca compõe uma atuação delicada e no ponto para a robô, de forma que não fique tão humana nem tão mecânica, dando o aspecto ideal para que, mesmo sendo mostrado na tela uma criatura não humana, consigamos nos afeiçoar com algo feito de parafuso e borracha. Os efeitos visuais em cima da atriz são fenomenais e super-realistas, completando a construção visual da personagem, finalizada pelos efeitos sonoros discretos da máquina. Enche os olhos percorrer seu corpo translúcido e rígido e desbravar os mistérios feitos pelos CGI – que rendeu o surpreendente Oscar de “Melhores Efeitos Visuais” ao longa.


Já os cientistas, Caleb e Nathan, são personagens com composições menores ao caírem em clichês facilmente evitáveis. Enquanto Caleb é o jovem promissor abobalhado e temeroso, Nathan é o playboy rico, bem sucedido, cheio da pinta descolada e maneira (cof cof Tony Stark cof). Ao submeter os personagens em caixinhas tão óbvias, o filme perde força em construções que poderiam ser mais elaboradas, deixando Ava roubar a cena – efeito que só melhora a composição dessa.

Como todo bom sci-fi, “Ex Machina” usa de forma bem inteligente vários dilemas humanos sobre sociedade e relacionamentos, que passam por machismo, sexualidade e idealismo feminino. Notem: Ava é um robô construído por um homem. Ela, assim como todas as outras robôs feitas por Nathan, são construídas em moldes femininos magros e curvilíneos, o padrão estético hegemônico. É só olhar para o pôster com a carcaça da robô: seios firmes, cintura fina, quadris largos. Isso mostra a idealização e objetivação do corpo feminino, principalmente por ter sido feita por mãos masculinas – algo similar no recente "A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell".


E tais mãos masculinas de Nathan são a representação da supremacia do homem na nossa sociedade. O cientista vai construindo várias robôs – todas femininas – e descartando-as com o passar do tempo e o aprimoramento da sua técnica, cada vez avançando mais de uma perfeição histriônica, numa alusão à indústria opressora que busca encaixar e objetificar as mulheres em formas que prezem o prazer do homem. As robôs são fantoches e objetos do seu mestre, tão qual o machismo nosso de cada dia tenta adestrar as mulheres humanas. Porém, mesmo com a composição lugar-comum de Nathan, o personagem é dotado de dualidades e profundidades dignas de serem dissecadas. Um dos diálogos mais interessantes do filme é:

- Caleb: Você programou [Ava] para dar em cima de mim?

- Natan: Se eu tiver feito, seria trapaça?

- Caleb: Não seria?

- Nathan: Caleb, qual seu tipo de garota? Digamos que sejam garotas negras. Por que esse é seu tipo? Porquê você fez uma análise detalhada de todos os tipos raciais e você cruzou as referências dessa análise com um sistema de bases? Não! Você simplesmente é atraído por garotas negras. Uma consequência de estímulos externos acumulados que você provavelmente nem sequer notou.

- Caleb: Você a programou para gostar de mim ou não?     

- Nathan: Eu a programei para ser heterossexual, da mesma forma que você é programado para ser heterossexual.

- Caleb: Ninguém é programado para ser hétero.

- Nathan: Você escolheu ser hétero? Por favor! Claro que você foi programado, pela natureza.

As noções da sexualidade humana ainda são misteriosas e causam bastante dúvidas e ignorâncias na cabeça das pessoas, mas, usando a noção de criação robótica de Ava, Nathan consegue explicar de forma básica o conceito de sexualidade, algo instintivo e que reside numa profundidade que nós não podemos ter acesso. Não somos literalmente programados para ser o que somos, mas somos o resultado da explosão de diversas variáreis da natureza que, combinadas, transformaram o caos em nossa ordem. É uma metáfora que pode soar pequena, no entanto carrega material bélico poderosíssimo.

O título do filme é derivado da expressão em latim “Deus Ex-Machina”, que significa “um deus vindo da máquina”. A frase foi originada nas tragédias gregas, com um ator interpretando deus, que desce no cenário numa plataforma (a máquina) para resolver os problemas dos personagens e gerando um final feliz. No longa, o deus vindo da máquina é Nathan, que em certo momento se auto declara a divindade por conseguir gerar “vida”, mesmo que de forma artificial – o nome da robô, uma alusão à Eva, a primeira mulher criada por Deus, é auto-explicativo. Só que Ava deixa de ser mera máquina que conduz deus para tomar as rédeas de seu próprio destino, interferindo no curso sacro do seu criador.


Além da riqueza de conteúdo, tecnicamente a fita também esbanja competência. Além dos já citados efeitos visuais de Ava, a fotografia e direção de arte conseguem transmitir o tom perfeito para o filme. Enquanto o exterior da casa de Nathan é carregado de luz e muito verde, o interior é escuro, com luzes artificiais, corredores com superfícies refletoras e muito vidro, além de roupas em tons brancos e cinzas nos personagens, moldando a noção tecnológica e futurista da caverna da robô, como se estivéssemos dentro duma nave fora da Terra.

Ao contrário das abordagens tradicionais, “Ex Machina: Instinto Artificial” não traz um apoio à inteligência artificial ou retrata um apocalipse/distopia tecnológica, mas sim uma versão mais palpável e próxima de como seria nossas vidas em meio a criaturas como Ava. De forma bem pessimista, a exploração sombria do filme mostra que o “fazer pensar” faria com que o robô tentasse conseguir sua liberdade das garras humanas. Ava começa a tomar ciência do seu próprio corpo e o usa para conseguir o que quer, algo que, para nós humanos, pode ser considerado “errado”. Mas para ela, era simplesmente a fome de sua autonomia. Como diz o próprio slogan do filme, há nada mais humano do que a vontade de sobreviver. E essa ciência adquirida pela robô é tão grande que não sabemos se era de fato os cientistas que a testavam ou se os testes eram realizados por ela.


Mesmo contendo sua carga dramática cada vez mais forte quando Ava vai tomando conta da situação, a riqueza de “Ex Machina” está nas discussões existenciais e éticas provocadas, e todas elas caem em cima dos próprios seres humanos. Deveríamos mesmo criar algo tão parecido conosco? Se criarmos, temos o direito de destruí-lo? Até onde podemos avançar no relacionamento com essa criatura? Aliás, podemos chamar de “relacionamento”? Nathan fala “No futuro, nós seremos destruídos pela inteligência artificial”, então é sábio se dedicar a algo que pode superar o próprio criador? Mas se for para ser inferior, o que diminuiria os riscos de rebelião, por que criá-lo?

Outro ponto intrínseco com nossa realidade é a abordagem dada pelo filme sobre o império dos dados. Na era digital, empresas como o Google controlam bilhões de correntes com informações sobre todos nós que estamos conectados nesse momento, e como isso pode ser usado contra nós a qualquer momento. Não de forma cinematográfica como Ava, a união de infinitos dados coletados por Nathan, mas com algo mais realístico e tão perigoso quanto. Ou será que a realidade de Ava está tão distante assim de nós?

Pode parecer confuso, mas o que “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), um dos maiores filmes de ficção científica da história e grande inspiração de “Ex Machina: Instinto Artificial” nos ensinou, foi que não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas. Para entender a carne, o Cinema mais uma vez recorre ao metal.