Por que a Kayako é um dos ícones mais fodas do terror?


Uma das entidades mais fodas do terror é Kayako Saeki. Mundialmente, a figura vestida de branco, ensanguentada e com o cabelo cobrindo o rosto ficou conhecida através do famigerado "O Grito". A aclamada obra é um remake norte-americano que deu certo. O sucesso não é para menos. Dois dos grandes nomes envolvidos em "Ju-On: The Grudge", um dos filmes originais, estão em "O Grito": Takako Fuji e Takashi Shimizu. Fuji é a contorcionista que deu vida à entidade pensada por Shimizu, interpretando-a seis vezes, duas delas em produções norte-americanas.

A trajetória que levou Kayako ao cinema japonês foi curtíssima. Assim que o conceito da personagem e maldição foram pensados, dois curtas foram lançados em 1998, mesmo ano de lançamento de "Ringu", que mais tarde ficaria conhecido como "O Chamado" através de um remake hollywoodiano. O primeiro deles apresentava a entidade principal, enquanto o segundo apresenta seu filho, Toshio. Após os curtas, dois filmes ("Ju-On: The Curse 1" e "Ju-On: The Curse 2"), gravados em apenas 9 dias, foram lançados nos anos 2000 diretamente em vídeo, sendo um grande sucesso.

Dois anos se passam e surge "Ju-On: The Grudge", talvez o principal filme da franquia. O longa eterniza a Kayako e estabelece Yuya Ozeki como o Toshio, além de ir contra a tendência do terror japonês em ocultar o fantasma, colocando-os em tela, destacando-se também por trazer uma narrativa não linear. Por fim, no ano seguinte chega aos cinemas "Ju-On: The Grudge 2".


Talvez em consequência ao sucesso de "O Chamado" no ocidente, Hollywood viu a oportunidade perfeita para lucrar. Visualmente as entidades de ambas as franquias são tão similares quanto ao sucesso que fizeram no mercado japonês, e uma delas já estava em solo norte-americano e também tinha gerado um bom dinheiro, com a outa não poderia ser diferente.

Aliado à produção da Ghost House, do Sam Raimi ("A Morte do Demônio"), Shimizu trouxe praticamente a mesma história e conceitos, além de Takako Fuji e Yuya Ozeki com seus papéis icônicos em "The Grudge", conhecido por nós como "O Grito", lançado em 2004. Dois anos depois, foi lançada uma sequência tão boa quanto que expandia o universo apresentado, levando a trama aos Estados Unidos.


Um terceiro filme foi lançado em 2009, mas preferidos fazer de conta que ele nunca existiu. Takashi Shimizu não tocou na produção — "O Grito 2" foi o último filme da franquia que contou com sua direção —, e Takako Fuji e Yuya Ozeki abandonaram seus respectivos papéis. Seja por sequências bizarras até para a própria série e a maquiagem duvidosa das entidades, "O Grito 3" não deu certo e a franquia nos Estados Unidos morreu.

Em contrapartida, no Japão, a franquia nunca esteve tão viva. "Ju-On" por lá tem oito filmes, sendo dois deles uma espécie de derivado, apenas com um cameozinho do japonês mais fofo que você respeita, Toshio. Além destes filmes, um crossover surtado envolvendo a Sadako (Samara) chegou aos cinemas. Na trama, um infeliz resolve assistir à maldita fita de "Ringu" na casa em que a Kayako morreu.

Foram mais de 10 longas da marca "Ju-On" até agora, em que alguns não trouxeram a personagem e outros dois foram leves escorregões, porém Kayako sobreviveu e perdura hoje como um ícone. Talvez não forte como antes, principalmente aqui no ocidente, mas a entidade criada por Shimizu se tornou referência quando falamos em fantasmas vestidos de branco com o cabelo cobrindo o rosto.

O visual simples da personagem talvez tenha contribuído para a sua popularidade. É um fantasma, só. Kayako dispensa maquiagem pesada, o máximo que temos é algo que cubra toda a pele da atriz, deixando-a branca, um olho esfumaçado e um cabelão de dar inveja. Estranhamente, esse combo resulta em um saldo intimidador.

De fato, outros pontos fizeram com que a personagem fosse eternizada. Se pegarmos a primeira leva de filmes japoneses, todos aqueles dirigidos por Takashi Shimizu, podemos destacar a praticidade da execução de cenas com a Kayako. A famosa cena dela descendo as escadas é bizarra, porém simples. Takako Fuji foi se contorcendo e se arrastando escada abaixo. Ela incomoda pela dificuldade que tem para chegar até sua vítima, e seu grito agoniante é de causar arrepios.


Além do visual acompanhado da excelente atuação de Fuji, outro ponto a ser destacado é a complexidade da Kayako. Seja na versão original, norte-americana ou até mesmo no recente reboot, a personagem é sempre profunda. Ela não mata por puro prazer, é uma entidade justificada, algo que possa ter contribuído para uma certa empatia do público. Kayako e seu filho foram assassinados pelo pai e marido Takeo Saeki, consumido por uma fúria ao descobrir que sua esposa estava gostando de outra pessoa. Consumida por uma fúria similar, Kayako mata qualquer um que visite sua antiga casa, deixando de poupar vítimas inocentes isentas de alguma relação com sua morte.

Contando com o ano de lançamento do primeiro curta, que apresentava a personagem, Kayako já tem 18 anos. Neste período, a entidade de Shimizu sofreu com o desgaste da franquia, que veio através de sequências norte-americanas e uma reformulação desnecessária em sua mitologia lá no Japão. Entretanto, apesar de tal desgaste, Kayako conseguiu se consolidar como um grande ícone do terror, principalmente graças à performance de Takako Fuji nos primeiros filmes, simbolizou um gênero e transcendeu continentes. Com o provável sucesso da concorrente nos cinemas de Hollywood no próximo ano, ela deve voltar para nos assombrar em breve.
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