Não culpe a Azealia Banks por querer clarear a sua pele

A rapper Azealia Banks se tornou assunto mais uma vez e, infelizmente, não estamos falando de sua música. Nessa quarta-feira (07) ela publicou um vídeo em seu Facebook, no qual defende o processo de clareamento de pele, comparando-o com outros, como a plástica do nariz, e dando a entender que tem passado por algo do gênero.

Repleta de pessoas dispostas a diminui-la, a internet não tardou a surtar com a notícia e, sem tempo para digeri-la, apontar o dedo: “não é ela que milita a favor dos negros? Quanta hipocrisia!”. Num outro portal, o assunto chegou a ser tratado de uma forma tragicamente cômica: “OMG!”, gritam no título, enquanto, logo em seu primeiro parágrafo, fazem questão de ressaltar o fato dela ser “tão defensora da negritude”. Como se realmente se importassem com isso.

Em um momento no qual o racismo vem sendo tão amplamente discutido, é realmente lamentável lermos uma notícia dessas e não há o que se comemorar – e muito menos brincar sobre. Quando se trata de alguém como Azealia Banks, que é uma figura pública e conhecida por seus debates em prol da causa negra, as conclusões podem ser ainda mais desanimadoras, mas se você vê nisso uma razão para condená-la, não entende nem metade do problema.


O clareamento da pele negra tem se tornado uma prática cada vez maior em vários países da África e na América, com números de adeptos que chegam aos alarmantes 60% em Senegal e 40% na Jamaica, segundo uma pesquisa feita em 2012. Isso só acontece porque, de maneira geral, o padrão de beleza exaltado mundo afora é o eurocêntrico, que não engloba mulheres e homens negros, por inúmeras características, sendo uma delas a cor de sua pele, e isso faz com que muitos não se sintam satisfeitos com a sua aparência, alimentando uma ideia de que mudá-la trará uma mudança significativa para o seu dia à dia.

Nesses países, o comércio de cremes e outros produtos que prometem clarear a pele é grande, porém, devido aos altos preços, muitas mulheres tendem a buscar por meios clandestinos de aderirem à prática, o que resulta em inúmeros casos de problemas dermatológicos, incluindo o câncer de pele. Dá pra ler mais sobre isso no Blogueiras Negras.

Essa não é a primeira vez que Azealia Banks fala sobre o clareamento da sua pele. Numa dessas conversas, em abril desse ano, a rapper foi questionada por uma fã no Twitter: “não me leve a mal, eu só quero entender: por que [você vai] clarear?”. E respondeu: “Depressão. É confuso ver mulheres brancas/de pele mais clara saindo na frente enquanto têm músicas piores que as minhas”.


Nos últimos anos, muitas outras artistas negras foram acusadas por um suposto “embranquecimento”, incluindo nomes como Beyoncé, Kelly Rowland e K. Michelle. Um dos nomes mais lembrados, é da rapper Lil’ Kim, que há pouco protagonizou um debate semelhante, após publicar uma selfie no Instagram e ser entupida por comentários do tipo “agora ela é branca?”. Nos anos 90, Kim deu inúmeras entrevistas nas quais fala sobre a forma como foi maltratada por ex-namorados e seu pai, ouvindo coisas sobre não ser boa ou bonita “o suficiente”.


No vídeo em que trata sobre o assunto, Azealia Banks afirma: “Eu realmente não acho que seja importante discutir o significado cultural sobre clarear a pele, porque, só sendo afrodescendente, só sendo uma pessoa negra no mundo, você assimila isso, e há coisas que apenas aceitamos. Não só quando é preciso, pois as coisas se tornam normais, porque acontecem o tempo todo (...) É a sequência da falsificação de você mesmo, que acompanha o fato de ser uma pessoa negra na América”. Ela nega, entretanto, se tratar de uma questão de autoestima e conclui: “Dizer que isso nega o que eu venho dizendo sobre a negritude na América é ignorante e apenas estúpido.”

No fim das contas, por que ela não está errada?

O racismo e toda a violência que ela, como uma mulher e negra, sofre, são os grandes problemas em toda essa história. Culpá-la por acreditar estar se adaptando a algum padrão, ainda que negue se tratar de uma questão de autoestima, é ainda mais errado, por apenas reforçar o preconceito presente nisso e responsabilizá-la, quando, na realidade, é mais uma vítima.

Todos sabem que Azealia Banks já deixou a desejar sobre alguns assuntos – e, pouco antes de vir ao Brasil, se desculpou sobre um deles. Mas seguir com todo esse ódio gratuito contra a rapper, é apenas uma forma de reforçar essa violência que ela já sofre e, de certo, não contribuirá em nada quanto a causa negra que, apenas para criticá-la, todos resolveram fingir se importar. E ela está certa: sua escolha sobre isso, embora seja triste, em nada muda o seu discurso.

Só ficamos na torcida pra que Zezé pense melhor sobre isso e que ouça também as mensagens positivas ao seu redor. É disso que ela vai precisar.
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