Você precisa ouvir “White Privilege II”, a música nova do Macklemore & Ryan Lewis

Macklemore & Ryan Lewis conquistou um dos seus primeiros hits quando, ao lado da Mary Lambert, se posicionou a favor da luta LGBTQ da forma mais poética possível, com a canção “Same Love”, e em seu segundo disco, a dupla parece ainda mais interessada em tocar nas feridas da sociedade, mas desta vez falando sobre algo que os envolve indiretamente: o racismo.

Sucedendo o hit “Downtown”, primeiro do disco “This Unruly Mess I’ve Made”, que será lançado no dia 26 de fevereiro, a dupla lançou de surpresa uma música nova, chamada “White Privilege II”, e expõe em sua letra justamente o que Azealia Banks vinha tentando nos fazer entender pelos últimos anos.

Com menções a Iggy Azalea, Miley Cyrus e Elvis Presley, a letra de “White Privilege II”,  que sucede uma música lançada por Macklemore ainda em carreira solo, em 2005, obviamente, aponta os privilégios dos brancos na indústria, questionando a razão do hip-hop deles ser mais “aceitável” aos olhos conservadores, o silêncio dos artistas brancos que absorvem o capital dessa cultura, se apropriando e com ela conquistando visibilidade, mas sem demonstrar o mínimo interesse em também lutar por suas causas. Outro ponto criticado é o fato da maioria dos brancos que se apropriam da cultura negra estarem mais preocupados em não serem chamados de racistas, do que com o racismo em si.
“Parece que estamos mais preocupados em sermos chamados de racistas, do que realmente nos preocupamos com o racismo. Eu ouvi dizer que se calar é uma ação e Deus sabe que eu tenho sido passivo [sobre isso]. E se eu parasse pra ler um artigo? E se eu realmente tivesse um diálogo? Se eu realmente olhasse para mim, realmente me envolvesse nisso? Se eu estou ciente do meu privilégio e não faço nada sobre isso, eu não sei que o hip-hop sempre foi político, não é? Essa é a razão pela qual a música nos conecta. Mas que porra aconteceu com a minha voz, se eu continuo calado enquanto os negros continuam morrendo?”, diz a canção.
Em outro trecho, Macklemore faz referência ao caso de Michael Brown, um garoto negro de 18 anos, assassinado por um policial americano — e branco — que foi inocentado, resultando numa série de protestos nos EUA, também defendidos por Azealia Banks.
“Meu sucesso é produto do mesmo sistema que inocenta Darren Wilson. Nós queremos nos vestir como eles, andar como eles, falar como eles, dançar como eles e, sim, a gente continua por aí. Nós pegamos tudo o que queremos da cultura negra, mas não vamos nos levantar pelas vidas negras?”
Na segunda parte da música, que conta com mais de 8 minutos, eles introduzem discursos de pessoas racistas, sob gritos das manifestações do movimento “Black Lives Matter (A vida negra importa)” ao fundo, afirmando:
“Então, eles acham que a polícia está discriminando os negros? Eu tenho alguma vantagem? Por quê? Só porque eu sou branco? Sério? Haha. Não. Esse pessoal de hoje em dia é muito fresco. Tipo, essa geração se ofende com qualquer coisa. Essa história de ‘Black Lives Matter’ é uma desculpa para apontar suas armas para algo que só eles veem. Eu não sou prejudicado, apenas eu... A polícia está apenas fazendo o seu trabalho.”
Por fim, a gente ainda tem um verso que soará como um banho de água fria para muita gente: “você fala sobre a igualdade, mas quer dizer o que com isso? Você está marchando em prol da liberdade ou apenas quando lhe convém?”.

É um pouco engraçado pensar que todas essas são coisas que Azealia Banks passou os últimos dois anos falando em seu Twitter e, na maior parte do tempo, sendo vítima de ainda mais racismo e preconceito, por pessoas que a viam como “a louca vitimista que só sabe reclamar”, tipo aquela sua amiga que “vê preconceito em tudo”, sabe? Mas o mais provável é que, na voz de Macklemore, as pessoas deem um pouco mais de atenção ao discurso. O que só comprova tudo o que ele está as forçando a ouvir.

“White Privilege II” é bem mais que uma canção, é uma aula pra muita gente. E estamos felizes em saber que eles também estão interessados em trazer à tona essa discussão tão necessária. Ouça abaixo:



[ATUALIZAÇÃO] Após alguns pedidos, traduzimos a letra na íntegra.

Leia abaixo:
Chego no estacionamento, estacionei
Fecho o zíper da minha jaqueta, me uno aos manifestantes presentes
Com a minha cabeça, tipo, ‘Isso é estanho, será que eu deveria estar aqui marchando?’
Pensando que, se eles não podem, como eu posso respirar?
Pensando no que eles cantam, o que eu canto?
Eu quero me posicionar, porque nós não somos livres
E então eu penso nisso, nós não somos nósEu estou do lado de fora, olhando pra dentro, ou estou dentro, olhando para fora?
Esse é o lugar em que eu dou meus dois centavos?
Ou eu deveria ficar no meu canto e calar minha boca pela justiça? Sem paz.
Certo, eu estou dizendo que eles estão cantando, ‘A vida negra importa’, mas eu não os respondo
É certo eu também dizer isso? Eu não sei, então apenas fico e assisto
Na frente de uma linha de policiais que se parecem comigo
Separados apenas por um crachá, um bastão, uma lata de gás, uma máscara, um escudo, uma arma, com luvas e mãos que te dão um álibi
Para o caso de alguém morrer por trás da bala que voa dessa pistola
Tirando a vida de outra criança à vista

Refrão:
Sangue nas ruas, sem justiça, sem paz
Não às crenças racistas, sem descanso até que estejamos livres
Há sangue nas ruas, não há justiça e nem paz
Sem crenças racistas, sem descanso até que estejamos livres
Sangue nas ruas, sem justiça, sem paz
Não às crenças racistas, sem descanso até que estejamos livres
Há sangue nas ruas, não há justiça e nem paz
Sem crenças racistas, sem descanso até que estejamos livres
(Ben, pense nisso)

[Verso 2]
Você explorou e roubou a música, o momento
A mágica, a paixão, a moda
Você brinca com uma cultura que nunca foi sua pra querer melhorar
Você é a Miley, você é o Elvis, você é a Iggy Azalea
Tão falso e plástico, você tem roubado a magia
Você tem tomado as batidas e o sotaque em suas rimas
Você ser classificada como ‘hip-hop’ é tão fascista e ultrapassado
Que Grandmaster Flash te daria um tapa na cara, seu bastardo
Todo o dinheiro que você fez
Com toda essa versão pop de merda diluída da cultura
Vai comprar um grande gramado de merda, com a sua grande mansão de merda
E ter uma grande cerca de merda, mantendo as pessoas do lado de fora
Isso é bastante contraditório, você não consegue ver?
Não tem jeito pra você nem se sair disso
Você pode se juntar a marcha, protestar, gritar e berrar
Ir para o Twitter com hashtags que fazem parecer que você está dentro
Mas eles olham além de tudo isso, as pessoas acreditam em você agora
Você disse publicamente, ‘descanse em paz, Mike Brown’
Você fala sobre a igualdade, mas quer dizer o que com isso?
Você está marchando pela liberdade, ou só quando lhe convém?
Quer que as pessoas gostem de você, quer ser aceita
E provavelmente é por isso que você está aqui fora protestando
Não pensa nem por um segundo que você não tem nenhum incentivo?
Isso é sobre você? Então, oras, qual é sua intenção?
Qual é a sua intenção? Qual é a sua intenção?

[Verso 3]
Psiu! Eu sei que você está sozinho
E a última coisa que você quer é tirar uma foto
Mas sério, minha filhinha ama você
Ela tá sempre cantando, ‘I am gonna pop some tags’Eu não tô brincando! O meu mais velho, você conseguiu fazê-lo economizar
E ‘One Love’, oh, meu Deus! Essa música é brilhante
A tia deles é gay. Quando essa música saiu
Meu filho contou pra toda a sua classe, bastante orgulhoso
Isso é tão legal, olha só o que você está fazendo
Até mesmo uma senhora que é mãe, como eu, gosta disso, porque é positivo
Você é o único rapper que eu deixo meus filhos ouvirem
Porque você sabe das coisas, todas aquelas coisas negativas não são legais
Sim, como as armas e as drogas
As vadias e prostitutas, as gangues e os malandros
Até aquele protesto lá fora, tão triste e ignorante
Se um policial te para, você é culpado se sair correndo
Né?

[Interlude]
Então eles acham que essa polícia está discriminando os negros? Acham que eu tenho alguma vantagem? Por quê? Só porque eu sou branco? Sério? Haha. Não. Essas pessoas de hoje estão um saco. Cara, essa geração se ofende com tudo. Essa coisa de ‘Black Lives Matter’ é só uma desculpa pra sair fazendo vandalismo por aí. Eu não sou prejudicado, apenas eu. 99% do tempo, por todo esse país, a polícia está fazendo seu trabalho.

[Verso 4]
Merda, são tantas opiniões, tanta confusão, tanto ressentimento
Alguns de nós assustados, alguns de nós na defensiva
E a maioria de nós sequer está prestando atenção
Isso faz parecer que estamos mais preocupados em sermos chamados de racistas
Do que realmente nos preocupamos com o racismo
Eu ouvi dizer que o silêncio é uma ação e Deus sabe o quanto eu tenho sido passivo
E se eu realmente ler um artigo, realmente tiver um diálogo
Olhar para mim mesmo e me envolver de verdade?
Se eu tenho consciência do meu privilégio e não faço nada sobre isso
Eu não sei que o hip-hop sempre foi político, sim
É por essa razão que a música nos conecta
Então que porra está acontecendo com a minha voz, se eu me calo enquanto pessoas negras estão morrendo!?
Então eu estou tentando ser politicamente correto?
Eu posso montar uma turnê completa, esgotar todos os ingressos
Ser o [maior] empresário do rap, construir meu próprio negócio
Se eu só estou nisso para meus interesses pessoais e não pela cultura que me deu voz para começar isso
Isso não é autêntico, é só algo passageiro
Um vira-lata que se virou sozinho, muito independente
Mas a única coisa que o sonho americano esquece de mencionar
É que eu estava há muitos passos à frente quando eu comecei
Minha pele remete à um herói, semelhança, a imagem
America se sente segura com a minha música em seu sistema
E isso é adequadamente perfeito para mim, o papel, eu cumpri com isso
E se eu sou o herói, você sabe quem fica com o papel de vilão
A supremacia branca não é só um cara branco em Idaho
A supremacia branca protege o privilégio que eu mantenho
A supremacia branca é o solo, a fundação, o cimento e a bandeira que voa no lado de fora de casa
A supremacia branca é a linhagem do nosso país, desenhado pra que fôssemos indiferente
Meu sucesso é produto do mesmo sistema que inocenta Darren Wilson
Nós queremos nos vestir como [eles], andar como [eles], falar como [eles], e continuamos por aí
Nós pegamos o que queremos da cultura negra, mas não vamos nos levantar para o negro viver?
Nós queremos nos vestir como [eles], andar como [eles], falar como [eles], e continuamos por aí
Nós pegamos o que queremos da cultura negra, mas não vamos nos levantar para o negro viver?

[Interlude]
Black Lives Matter, fazendo uma analogia, é como se tivéssemos um sobrado e uma casa pegando fogo. Os bombeiros não iriam chegar e começar a jogar água em todas as casas como se todas as casas importassem. Eles provavelmente chegariam e direcionariam sua água para a casa que está queimando, porque essa casa precisa mais. Minha geração está carregando o fardo da luta não só pela liberdade negra, mas de todas as pessoas, e a injustiça continua sendo injustiça em qualquer lugar. A melhor coisa que as pessoas brancas podem fazer é conversar umas com as outras. E ter essas conversas tão difíceis, tão dolorosas, com seus pais, membros de sua família. Eu acho que uma das questões mais críticas para as pessoas brancas na sociedade atual é: o que você está disposto a arriscar, o que você está disposto a sacrificar para criar uma sociedade mais justa?

[Outro]
Seu silêncio é um luxo, o hip-hop não
Seu silêncio é um luxo, o hip-hop não
Seu silêncio é um luxo, o hip-hop não
Seu silêncio é um luxo, o hip-hop não
O que eu tenho pra mim, é para mim porque nós podemos
Nós fizemos para nos libertar
O que eu tenho pra mim, é para mim porque nós podemos
Nós fizemos para nos libertar
O que eu tenho pra mim, é para mim porque nós podemos
Nós fizemos para nos libertar
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