Album Review: Lana Del Rey continua bem triste, mas nunca esteve tão livre quanto em “Honeymoon”, a mais triste das luas de mel

Ser comum nunca seria uma opção para Elizabeth Grant, ainda mais com esse nome "apenas comum", remetendo ao subúrbio americano. Com tal título, o máximo que alcançaria na vida era o posto de uma stepford wife, e ela jamais deixaria isso acontecer. O que nos leva à autodestrutiva, infeliz e venenosamente linda, Lana Del Rey, aquele personagem capaz de deixar uma marca no mundo pop, com suas referências culturais e uma vontade de viver um eterno filme em preto e branco.

Desde 2008, o mundo se prepara para receber este personagem, vários EP's e um LP ("Lana del Ray a.k.a Lizzy Grant"), foram construindo um caminho, para o aclamado "Born to Die", o disco mais comentado de 2012. Como não se sentir em um filme tragicamente lindo ao ouvir "Video Games"? Além disso, o que se assemelhava a isso nas paradas da época? Nada! Lana del Rey colocou seu filme noir nas nossas vidas e, pelo andar da carruagem, ele será mais longo que as quatro horas do clássico "...E o Vento Levou".



Insatisfeita e querendo mais, Lana lançou sua obra mais coerente até hoje, o EP "Paradise", onde toda a persona criada teve espaço para se mostrar, com letras mais bem construídas e uma sonoridade belíssima. Dona de sua marca e com mais liberdade, surge o violento, gótico, drogado e prostituído "Ultraviolence", um disco absurdamente incrível, real, sincero e marcante. Depois de tanto sucesso, será que Del Rey conseguiria dar sequência às suas produções cinematográficas?

Vamos conversar sobre o "Honeymoon" e decidir juntos. Shall we?

"Honeymoon" é o terceiro LP de Lana Del Rey. Junto dele está presente aquela áurea comum do mundo das artes, de quanto mais crua e metafórica, uma obra seja, mais interessante ela é. E quanto mais afastado do pop e mais underground, mais reconhecimento terá. Apoteoticamente triste, solitariamente escuro e abertamente ferido, seria "Honeymoon" parte da verdade de Lana del Rey ou será um trabalho forçado para alimentar sua persona criada?

"Honeymoon": 

A faixa que abre e intitula o disco é grandiosa. Assim como "Cruel World" foi um grandioso início para o disco anterior. "Honeymoon" nos mostra que a lua de mel que Lana nos descreverá não é divertida. Ela é triste e falsa como os amores comuns que vemos todos os dias na sociedade. "We both know that it’s not fashionable to love me, but you don’t go ’cause truly there’s nobody for you but me", a sinceridade que muitos nunca terão a coragem de admitir. Com piano e violinos conduzindo uma melodia minimalista a música termina e, sua última estrofe, descreve  uma verdade absoluta, pois quem pode dizer que não está "dreaming away your life"?


"Music To Watch Boys To": 

Uma mulher que ama destruindo, uma vadia que vive mentindo. Essa é a impressão que Lana deixa no final de "Music To Watch Boys To", e tal resultado não poderia ser mais compatível com o que já vimos dela ao longo dos anos. Com diversos versos aleatórios e rimas bobas, temos aqui uma faixa um pouco mais simples e pop, com um refrão pegajoso e, diferente da antecessora, aqui somos remetidos ao estilo de trabalho do "Born To Die", o que sempre será um acerto. "I know what only the girls know: Lies can buy eternity", essa frase resume a carreira da mulher que vive a vida sendo um personagem. Quem não ligaria a câmera para te assistir ir embora, Ms. Del Rey?


"Terrence Loves You": 

Uma música angelical, desenvolvida para que a cada nota sintamos uma perda e precisemos de mais música, como descrito no refrão: "But I lost myself when I lost you, but I still got jazz when I've got those blues. And I lost myself when I lost you, and I still get trashed, darling, when I hear your tunes". Simples, chorada e construída para nos remeter a dores, como um monte de faixas de sua carreira, mas que não deixa nem um pouco a desejar! 


"God Knows I Tried": 

O drama da invisibilidade! Outro tema sempre abordado por Lana. Se ela morrer sem se tornar um mártir ou um clássico, toda sua vida terá sido em vão. A ideia de viver cada dia como se fosse o último fica explícita, e não é só Deus que sabe que você tentou, continuou e continuará tentando, Elizabeth. "God Knows I Tried", não foge da simplicidade melódica das antecessoras, mas seu charme está no refrão suplicado, em um misto de libertação e confissão por tudo que fez e faz pela fama.


"High By The Beach": 

Novamente remetendo aos trabalhos do "Born To Die", Lana descreve mais uma história de amor fracassada. Uma vida tão sem valor, na qual se único desejo é se drogar na beira da praia. A faixa mais pop de todo o disco, o que seria uma boa escolha para single, se já não tivéssemos ouvido  "West Coast", "Blue Jeans" ou "Summertime Sadness". "High By The Beach" é apenas mais uma faixa na discografia de Lana. Boa, mas só mais uma, como o homem descrito aqui: "Now you're just another one of my problems, because you got out of hand. We won't survive, we're sinking into the sand".


Freak": 

Saindo de amores frustrada, Elizabeth se apaixona de novo. Mais uma música e mais um homem intenso e juntos as chamas deles se acendem com tanta força que tornam-se azuis. Lana sempre entra em um contraste ao descrever seus homens. Jaquetas de couro, motos e muito charme estão sempre presente para contrariar a figura dissimulada que ela passa através de seu olhar de Lolita. "Screw your anonymity. Loving me is all you need to feel, like I do" alguém acha que esse amor tem como dar certo?


"Art Deco": 

Voltando a personalidade megalomaníaca, temos aqui a sútil agressividade da necessidade de mais e mais. Dizem que é uma faixa inspirada em Azealia Banks, amiga de Lana, e tão artisticamente complexa quanto. "Art Deco" nos remete a "Diet Mtn Dew", e ambas são nostálgicas em referências da cultura americana. Se não fossem suas rimas simples, a faixa poderia ser ainda melhor, mas Lana sempre oscilou entre um exemplo de poetisa e Lindsay Lohan. Neste caso, o que temos é: "You're so Art Deco, out on the floor. Shining like gunmetal, cold and unsure. Baby, you're so ghetto, you're looking to score. When they all say hello, you try to ignore them"

"Burnt Norton (Interlude)": 

Mostrando seu lado poetisa, inverso a letra de "Art Deco", Lana traz uma interlude cheia de metáforas relacionadas ao tempo, sua capacidade de ser presente, passado e futuro, em qualquer um dos três tempo. A relatividade e abstração daquilo que move a vida sem nem percebermos. 

"Religion": 

É aqui que Lana realmente peca. "Religion" se esforça muito para se destacar. Sua letra é simples demais e se ela quiser continuar falando sobre amores envenenados e relacionamentos sofridos vai ter que se esforçar mais para fugir do enfadonho. Todo mundo sabe que você pode fazer mais do que uma metáfora religiosa tão pobre quanto: "You're my religion. When I'm down on my knees, you're how I pray. Hallelujah, I need your love"

"Salvatore": 

Talvez a faixa mais grandiosa desde "Honeymoon". O violoncelo inicia a música ditando um tom extremamente romântico e clássico. Aqui, Lana foge um pouco da cultura americana, com seu noir e referências populares, para se aproximar de Sophia Loren ou Anna Magnani, e isto é excelente! A letra pode deixar a desejar, mas a interpretação vocal em "Salvatore" é belíssima. Aqui, há uma mescla do conceito de "bon vivant", com uma delicadeza clássica. Ambas façanhas que cabem muito bem na personagem de Elizabeth.


"The Blackest Day": 

Aqui temos a essência de Lana del Rey! Ao contrário de "Religion", ela conseguiu unir todos os elementos essenciais para construir uma faixa que soasse verdadeiramente sua, mesmo tratando sobre amores despedaçados. A dramaticidade, a produção vocal e a letra combinam perfeitamente, mostrando o descuido que Lana mostra ter com tudo em sua vida, exceto sua alma e sua arte. As únicas coisas que parece respeitar. "The Blackest Day", contando como Billie Holiday é a única coisa que ela ouve, desde que o amor foi embora, é linda e merece ser trabalhada, por conseguir unir os melhores elementos de Lana em uma faixa. Quanto mais livre você for, mais emoção nós sentiremos, Del Rey, portanto siga cantando: "Carry me home, don't wanna talk about the things to come. Just put your hands up in the air, the radio on"



"It's not one of those phases I'm going through
Or just a song, it's not one of them
I'm on my own
On my own
On my own again"

Tem sofrimento mais DelReyano do que este, pessoal?

"24": 

Ainda bem que só mais três músicas sucedem "The Blackest Day", porque nada poderia ser mais interessante. "24" perde sua força justamente por estar logo em seguida. Sua letra, que poderia servir para um pop adolescente, não instiga muito. Com castanholas, elementos de tango e uma melodia interessante, ela ainda não se sobressai muito depois de músicas como, a já citada, "The Blackest Day",  "Salvatore" e "God Knows I Tried", por exemplo. E Lana não ajuda ao repetir tantas vezes que o dia tem 24 horas. 

"Swan Song": 

A síndrome do cisne, onde liberdade, beleza, graciosidade e sucesso o faz ser melhor do que todos os outros animais. Não! E aqui temos a prova clara disso, pois se há uma música de Lana que faz jus a quantidade de gente que diz sentir sono com ela, é "Swan Song". Tratando exatamente sobre como tudo já foi conquistado e só resta viver livre com a beleza e graça de um cisne, Lana fez uma música que poderia facilmente ser dispensada da tracklist, dando lugar a um outro cover da Nina Simone, como a última música do disco.

"Don't Let Me Be Misunderstood": 

Mais um disco e mais um cover belíssimo de Nina Simone na discografia de Lana del Rey. Assim como "The Other Woman" coube perfeitamente na tracklist do "Ultraviolence", "Don't Let Me Be Misunderstood" fecha o "Honeymoon" com graciosidade. "You know sometimes, baby, I'm so carefree, with a joy that's hard to hide. And then sometimes, again, it seems that all I have is worry. And then you're bound to see my other side", essa letra poderia caber melhor em Lana? Estamos aqui para não te deixar ser mal interpretada!


***

Lana del Rey não poderia viver no mesmo mundo de Elizabeth Grant porque ela é atemporal. Sua beleza será eterna, assim como sua voz, e ela sempre descobrirá novos meios de destruir tudo de bom na sua vida. Além disso, a persona Lana del Rey, ao contrário de qualquer outra mulher no mundo, é livre! E aqui reside o seu charme. Apesar de sua beleza hipnotizante e charme clássico, ela é uma alma livre, para ser e fazer o que quiser, coisa que no nosso mundo real e machista, quase nenhuma mulher pode ter e ser. Precisamos da representação libertária, sensual e romântica que é entregue por Lana, através de Elizabeth. 

"Honeymoon" não foge nem um pouco da identidade criada desde o primeiro disco. Temos aqui mais experiências vividas ou contadas, afim de emocionar e inspirar quem ouve e, mais uma vez, as histórias de Lana del Rey são extremamente cativantes e emocionantes. Dividido entre a vertente pop do "Born To Die" em "Freak", "Art Deco" e "Music To Watch Boys To", ou despida em uma sonoridade crua, como a do "Ultraviolence", em "Honeymoon", "Terrence Loves You" e "God Knows I Tried" ou até se renovando um pouco, como em "Salvatore" e "The Blackest Day", temos mais um álbum digno de Lana del Rey. 

Deixando a desejar em alguns momentos, principalmente liricamente, Elizabeth tem muito a nos mostrar ainda, mas se não tomar cuidado, sua imagem se tornará caricata. O "Honeymoon" dá uma ótima continuidade em sua discografia, mas chegaremos no momento em que testar novas sonoridades, se reinventar e trazer mais camadas para sua persona será essencial para o crescimento da sua carreira, marca e impacto sociocultural. Aguardemos ansiosos e aproveitemos a lua de mel!
Tecnologia do Blogger.