Single Review: numa necessidade de reafirmação, ‘Cool For The Summer’ não é nada que esperávamos de Demi Lovato

Já faz um tempo que Demi Lovato amadureceu sua imagem, quem não a acompanhou nesta transição foi o público. Quando lançou “Skyscraper”, do disco “Unbroken”, Lovato deixou pra trás a menina do pop-rock descontraído dos álbuns anteriores para revelar aos seus fãs as cicatrizes de tudo o que ela passou, sem trocadilhos por aqui, e com isso conquistou não só um peso a mais para seu nome, como também aquela necessidade em, frequentemente, terminar associada à assuntos mais sérios.

Com o tempo, a cantora terminou presa à uma zona de conforto de mid-tempos românticas como “Made In The USA” e “Give Your Heart A Break”, mas no fim da divulgação do seu álbum anterior e também um dos mais comerciais de sua breve carreira, “DEMI”, tentou mudar esse cenário, com lançamentos como o clipe em que mostra o seu apoio à comunidade LGBTQ, a parceria com Cher Lloyd em “Really Don’t Care”, e o single dançante que deu nome a sua última turnê, “Neon Lights”, mas ela precisava de mais.

Independente da seriedade das coisas pelas quais passou, a necessidade de amadurecimento que assumiu há dois discos e até essa tentativa de expandir o público saindo de sua zona de conforto, Lovato sempre parecia limitada àquele mesmo nicho teen mimizento, mas, com 22 anos, talvez tenha entendido que, pra se estabilizar na indústria atual e não terminar passada para trás por suas antigas colegas de trabalho, mudanças seriam necessárias.

O verão norte-americano corresponde ao período dos finais de junho à setembro e, nos EUA, essa é uma importante e tanto de emplacar um grande hit, ainda que, nos últimos anos, esses tenham sido definidos de maneira espontânea, mas sem nada a perder, a cantora decidiu apostar nesta temporada para abrir os trabalhos do seu novo disco, agora sob o selo Island Records, com o single “Cool For The Summer”.

Com produção do imbatível Max Martin (Katy Perry, Taylor Swift, Robyn), a música cumpre com a promessa de que, aparentemente, essa nova fase nos apresentará uma nova Demi Lovato e, da sua capa à canção em si, o que temos é a cantora tentando reconstruir a sua imagem, agora por uma perspectiva mais descompromissada, sensual, ousada e, o que talvez seja uma das poucas coisas que restaram da sua persona anterior, divertida.

Logo de início, a mudança mais perceptível são os vocais da cantora, aqui numa entonação semelhante à cantoras como Avril Lavigne e Taylor Swift, mas basta chegar ao refrão para reconhecermos Demetria e, meu Deus!, que refrão, hein? Das pancadas dos sintetizadores às guitarras e percussão, a música cresce gradualmente e, quando nos damos conta, é exatamente a banger que jamais imaginaríamos na voz de Lovato, o que torna ainda mais interessante o fato de ser um lançamento dela.

Em sua letra, a cantora faz uma proposta indecente quanto a um relacionamento de verão bastante sexual, afirmando que ela e seu par não tem muito o que pensar, já que um não para de pensar no outro e estão “bons para o verão”, mas pede segredo (“shhh, não conte pra sua mãe”, quase que sussurra) e, pelas entrelinhas, sugere que a razão de tanta vontade e curiosidade seja outra mulher, tornando todo o contexto do lançamento ainda mais ousado do que já parecia.


Em seu refrão, sob riffs de guitarra e uma percussão pulsante, Demi Lovato entoa “me leve abaixo, para dentro do seu paraíso. Não fique assustada, porque sou seu tipo de corpo. Isso é apenas uma coisa que eu quero experimentar, porque você e eu estamos legais para o verão”, aumentando seu tom ao decorrer das repetições, acompanhando também o crescimento das batidas.

O flerte com o rock de Demi aqui não é nada próximo do que ela fazia quando usava guitarras anteriormente, não só por agora não tocá-las, já que provavelmente estará ocupada demais dançando, e sim numa ideia mais perto do que vimos Charli XCX fazer em músicas como “Break The Rules”, que utiliza o mesmo instrumento para o que substituiria o break eletrônico em produções tradicionais, e termina somando à nova postura da cantora uma ideia de rebeldia, punk, o que torna ainda mais interessante as variações que ela pode explorar daqui em diante, só não se engane: ela continua bem pop.

Ainda que com essa rebeldia calculada, toda a ousadia de “Cool For The Summer” acentua um importante passo na carreira de Demi Lovato que, depois de tanto tempo, finalmente estamos vendo arriscar algo fora da sua zona de conforto. Antes que assim pensem, não é como se ela estivesse amadurecendo sua imagem, mas sim reinventando-a na tentativa de amadurecer o seu público. Com uma boa divulgação, a produção assertiva de Max Martin garante à cantora uma importante chance de refazer o seu nome e, se tudo der certo, desta vez brigar com gente grande. A recepção do público, por outro lado, garante ainda a atenção necessária da gravadora ao seu novo álbum e, desta forma, o melhor que podemos esperar são outras músicas tão boas quanto essa, além de conseguirmos matar a curiosidade sobre a capacidade dela de manter essa nova postura. A música é bem bacana para o verão.

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