Throwback Review: o espetáculo versátil de Adam Lambert em 'For Your Entertainment'!


Que me desculpem os outros ótimos participantes que antecederam sua temporada, mas graças a Adam Lambert, o American Idol finalmente conseguiu, em 2009, um finalista que soasse contemporâneo e linear (no mais alto nível), sem cair na mesmice ou soar datado, a fim de seguir os modismos presentes ou redefinir tendências. Pelo contrário, durante sua estadia no programa, ele apenas se preocupava em dar seu melhor, adaptando-se ao tema de cada semana e nos dando sempre um espetáculo de versatilidade, que fazia do jovem californiano, o grande nome da temporada e, talvez, de toda franquia, tamanho potencial.


Mas enquanto muitos se frustraram (eu mesmo) quando o mesmo perdeu a final do programa para o insosso Kris Allen, analisando hoje, foi até melhor assim. Talvez com o título e peso de campeão do American Idol, Adam tivesse menos liberdade na sequência. Afinal, essa segunda colocação permitiu que o mesmo pudesse dar aquela famosa entrevista para a Billboard, semanas depois, em que se assumiu gay, bem como possibilitou toda a produção criativa de seu espetáculo de estreia, o teatralmente incrível "For Your Entertainment".

O surpreendente álbum, feito às pressas (apenas 8 meses entre o fim do American Idol e seu lançamento), contando com um time de peso em sua produção/composição: Max Martin, Dr. Luke, Rivers Cuomo (Weezer), P!nk, Lady GaGa, Linda Perry, Ryan Tedder, Matthew Bellamy (Muse) e Justin Hawkins (The Darkness), pode soar, à primeira vista, confuso ao trabalhar com tanta gente oposta, mas no fim, é uma ótima mistura de um Adam camaleônico, altamente influenciado ao longo de 14 faixas por um poderoso glam pop, repleto de guitarras, new wave, disco, ópera, eletrônica, R&B e europop, soando muito moderno para os álbuns pop da época, criando um ambiente muito favorável a um dos melhores lançamentos de um ex-participante de reality show na história.

1) "Music Again"
Abrindo os trabalhos, temos a gloriosa colaboração de Justin Hawkins, líder da banda The Darkness em "Music Again". A faixa, que é uma ode declarada ao glam rock, tem muito da já conhecida personalidade da banda britânica em sua letra e produção andrógina, mas moldada para a voz de Adam, que brilha com seus falsetes estratosféricos, dado sequência à guitarras pesadas e toda produção meio futurista, com destaque também para o ótimo solo de guitarra de Hawkins a partir dos 2min, enquanto Adam canta sobre um amor avassalador, capaz de fazê-lo recuperar a autoestima e tudo mais: "Eu estou tão cansado de viver para outras pessoas. Tive que te conhecer para perceber. Eu não quero te perder, eu quero ficar com você".

2) "For Your Entertainment"
Na época em que o Dr. Luke ainda fazia coisas que prestavam, ele trabalhou com Adam nessa faixa, cercada de ironias sexuais. Escolhida como primeiro single do álbum, "For Your Entertainment" rendeu um dos melhores clipes do cantor até hoje, bem como uma série de polêmicas, afinal, difícil não se lembrar da maravilhosa (porém chocante demais para os conservadores americanos) performance no AMA 2010, não é mesmo? Particularmente, acho a letra inteligente, bem como sua produção, também com doses futuristas, que contribuem no resultado final, mas não seria uma música que mostraria a um amigo tentando convencê-lo do talento de Adam, porque há melhores.

3) "Whataya Want From Me"
Enquanto produzia seu álbum, Adam acabou ganhando alguns presentes vindos de outros artistas que torciam por ele durante o programa. Essa faixa é um deles. Originalmente composta por P!nk para o "Funhouse", mas descartada, a pop rock "Whataya Want From Me" foi logo oferecida a Lambert, que, de forma magistral, apropriou-se da canção, fazendo dela um relato cru, massivo e aflito sobre uma relação vivendo seu últimos dias. Segundo single, maior sucesso comercial de Adam Lambert até hoje e aclamada pela crítica, tanto que rendeu ao cantor uma indicação ao Grammy de "Melhor Performance Pop Masculina", traz uma produção interessante e simples de Max Martin, tendo apenas a bateria e essa deliciosa guitarra como fundo. Passados quase seis anos, é impossível não se emocionar ao ouvir "Apenas não desista, estou me esforçando. Por favor, não desista. Não vou te decepcionar. Fiquei confuso, preciso de um segundo para respirar. Só continue se aproximando. O que você quer de mim? O que você quer de mim?".

4) "Strut"
A quarta faixa é a que menos curto em todo o álbum. Acho a composição de sua antiga julgadora no programa, Kara DioGuardi, até boa e cheia de trocadilhos, como "Nós somos uma nação complicada. E agora estamos no mesmo emprego. Vamos tirar férias de mentirinha e pegar para si mesmo algumas bonificações", porém, a escolha de produção de Greg Wells, apoiada no rock meets groove, é inteiramente dispensável, tornando-a enfadonha e soando perfeita para um álbum do MIKA. Próxima!

5) "Soaked"
Chegamos na cintilante balada do álbum. "Soaked" é uma composição de Matt Bellamy, líder da banda Muse e produzida por Rob Cavallo, responsável pelo icônico "American Idiot" do Green Day, mas o que acho realmente interessante aqui, é que Adam soa quase como um Thom Yorke em seus tempos mais áureos, evocando toda sua (falta de) sobriedade da alma, criando quase um espetáculo teatral da Broadway, com produção simples em alguns momentos, nos dando um dos melhores registros vocais do álbum: "Encharcado até os ossos. Afundando como uma pedra. Eu vou te levar para casa. Não é a primeira vez. Não é o pior crime. Nossas almas ficarão bem". Quem curtiu a performance de "Ring of Fire" dele no American Idol, certamente amará esta.

6) "Sure Fire Winners"
Entre glam rock, pop rock e dance club, é na sexta faixa que Adam encontra seu mais perfeito equilíbrio. Não chega a ser minha favorita, mas é mais uma ótima canção uptempo e com um dos melhores versos pessoais da vida: "Porque você quer ser uma estrela no hall da fama. Eu já nasci com purpurina no meu rosto. Minhas roupas de bebê eram feitas de couro e rendas. E todas as garotas do clube querem saber. Aonde é que todos os seus ficantes foram?".

7) "A Loaded Smile"
De seu trabalho com a ex-líder do 4 Non Blondes, Linda Perry (compositora de "Beautiful" da Christina Aguilera), surgiu a baladinha introspectiva e todinha em falsete, "A Loaded Smile", que tem uma daquelas melodias incomuns que serve Adam tão bem, juntamente com a produção soul-pop mais setentista e triste sobre um amor que perdeu seu sentimento de desejo, dando espaço a um vazio e obrigado sentimento de culpa: "Tudo cai no lugar comum, mas eu acho que preciso de um pouco mais de tempo. E sim, eu sei que minha vida mudou, mas honestamente eu não sei se nós vamos sobreviver".

8) "If I Had You"
Depois de uma baladinha, somos jogados no chão de novo, dessa vez com "If I Had You". A faixa, também produzida por Max Martin e com cara de europop, é cheia de sintetizadores quando chegamos no refrão, conduzindo-a de forma grandiosa: "Mas se eu tivesse você, essa seria a única coisa de que eu precisaria. Sim, se eu tivesse você, dinheiro, fama e fortuna nunca competiriam. Se eu tivesse você, a vida seria uma festa feita de ecstasy". Terceiro single oficial do álbum.

9) "Pick U Up"
E temos outra colaboração inusitada nessa estreia de Adam Lambert, dessa vez com Rivers Cuomo, vocalista da banda Weezer. O resultado, de novo, é incrível. "Pick U Up" é descrita, pelo próprio Cuomo, como uma mistura de elementos de Donna Summer, Rammstein e ABBA. E, de fato, há um pouco de cada gênero defendido pelos citados mesmo. É um soul-rock-dramático-oitentista maravilhoso, com direito à cereja do bolo: a impressionante performance vocal de Adam Lambert a partir dos 2:20. ARRASADORA!

10) "Fever"
Ainda na sequência de colaborações inusitadas, chegamos em "Fever". A ótima faixa disco composta por Lady Gaga e Jeff Bhasker, deveria ter sido single, mas por conta da polêmica criada com o lead, sequer foi cogitada (até mesmo porque exala duplicidade em sua letra). Impossível tirar esse refrão extremamente grudento da cabeça: "Oh baby, a luz está acesa. Mas a sua mãe não está em casa. Estou cansado de me deitar sozinho. Com este calor, calor. Meu queridinho. Quero te pegar sozinho. Te causar calor, calor, sim".

11) "Sleepwalker"
Composta e produzida por Ryan Tedder, "Sleepwalker" é mais uma grande faixa pop rock, apresentando uma sonoridade fria não muito radiofônica. Tomada por guitarras, bateria impulsiva e crescente, é como se Adam tivesse trazido a magia vista em "Mad World" para uma música original, sobre um sonâmbulo preso em seus próprios sonhos. E nós adoramos!

12) "Aftermath"
Quase ao final do álbum, temos uma canção de pop rock, com grandes vocais, que oferece palavras de encorajamento para aqueles que se sentem como se tivessem perdido o seu caminho: "Toda vez que alguém te puxar para baixo. Toda vez que alguém disser que você não pode. Basta lembrar que você não está sozinho no final". Particularmente, adoro a simplicidade alternê de "Aftermath" e arrisco dizer que ela teria soado bem melhor como seu winner single na época do programa, do que "No Boundaries".

13) "Broken Open"
A penúltima canção é divinamente inesquecível. Se em "Sleepwalker" citei o fato da magia vista em "Mad World" estar presente, é em "Broken Open" que temos a personificação daquela versão no álbum. Assim como a performance beirando a perfeição no programa, é nessa eletro-balada produzida por Greg Wells que Adam nos dá um dos mais belos, inusitados e introspectivos registros.

14) "Time for Miracles"
Finalizando sua estreia, temos a trilha sonora do blockbuster "2012". Para aqueles que não sabem ou não se lembram, antes do lançamento de "For Your Entertainment", esta linda faixa foi lançada. A letra é muito boa, mas o principal problema da música, é que mantém Adam muito preso, deixando pra soltá-lo apenas no final, mas longe de explorar toda sua plenitude vocal e artística.

Conclusão
Melhor do que qualquer outro participante que o American Idol já teve, Adam Lambert entendia o que as pessoas que votavam por ele gostavam em suas performances, além de usar o palco como uma plataforma para o desenvolvimento de uma interessante personalidade artística. E, inegavelmente, isso acabou refletindo em seu álbum de estreia, que contém todas essas coisas. "For Your Entertainment" é uma extensão de tudo que Adam fez no programa, porém de forma muito comercial e com canções inéditas. Ele pode cantar e passear por qualquer gênero que queira, porque isso em nada afetará seu desempenho. E se não há nenhuma sensação de desconforto aqui, pelo menos há um monte de prazer pop e puro, mais do que qualquer álbum pós-Idol feito de imediato já conseguiu. No geral, "For Your Entertainment" é um espetáculo artístico, versátil, teatral e vocal, daqueles que você dificilmente dirá "não" quando for convidado a ouvi-lo, afinal, não se esnoba "A" voz masculina da geração, não é mesmo? E que ninguém ouse questionar, porque assim como ele, estamos aqui apenas para o seu entretenimento. Então, divirta-se!

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