Fizemos uma carta aberta para Azealia Banks, lembrando-a de que Iggy Azalea nunca foi o inimigo

Querida Azealia Banks,

Os últimos dias têm sido bem agitados pra você, não é mesmo? Daqui do Brasil, estamos acompanhando muitas discussões em torno de assuntos que você tem colocado em questão e, meu Deus, nunca você esteve tão certa quanto à forma com que estão se adaptando ao hip-hop da forma errada e a maneira com que o público consegue se acostumar mais facilmente com o gênero quando temos brancos o fazendo, mas, sendo sinceros, há um ponto em que você deveria pensar um pouco melhor.

Sabe o que acontece, Zezé? Olhando de fora e não se atentando aos detalhes de suas declarações, exatamente como a maioria tem feito e continuará fazendo, faz parecer que seu problema é único e exclusivamente contra a australiana Iggy Azalea e isso tira de contexto qualquer legitimação que você queira dar ao seu discurso, apenas tornando isso mais uma competição entre mulheres na indústria, o que é bem rotineiro na verdade.

Talvez não seja proposital e exatamente por isso optamos por ter essa conversa com você. Desde o começo de sua ascensão, lá com “212”, já te colocaram contra Iggy Azalea, Angel Haze e até Nicki Minaj, nome que você tem mostrado respeito ultimamente, então é como se você terminasse induzida a usar Azalea como símbolo da sua revolta, mas não é por aí, Iggy Azalea não é e nunca foi o seu inimigo.

Obviamente, você precisa exemplificar o que quer dizer quando fala sobre apropriação cultural, o racismo presente na indústria e tudo mais, principalmente quando temos a australiana sendo um dos poucos nomes do hip-hop a ganhar um imenso destaque dentro do Grammy Awards, sempre tão habituado a jogar artistas desse gênero em categorias específicas, sem lugar nas partes pop ou propriamente principais de seu catálogo, e foi sensacional quando te vimos falar sobre o Macklemore and Ryan Lewis numa outra declaração, foi quando você mostrou que a visão era sim mais ampla do que parecia, mas depois lá foi você despejar ódio por Iggy Azalea de novo pelo Twitter e, agindo dessa forma, sua discussão se torna algo pessoal e anula qualquer coisa realmente incrível que tenha dito em outrora, te faz “perder a linha”. Mas fica tranquila, não estamos contra você. Só também não estamos contra ela.

Iggy Azalea deixou a casa dos pais cedo e foi fazer sua vida nos grandiosos Estados Unidos, “sem dinheiro ou família, com dezesseis anos no meio de Miami”, e por lá que investiu na sua vida artística. Hoje, ela se consagra com os discursos do seu disco de estreia, “The New Classic”, que realmente teve um êxito animador para um disco de hip-hop feito por um nome feminino e ela tem muito a agradecer a Nicki Minaj, que reabriu as portas pra que nomes como elas e você pudessem fazer carreira neste meio tão dominado por homens outra vez. Ser essa loiraça, bunduda e branquela não deslegitima o rap de Iggy e, vamos lá, ela tem pendido cada vez mais para o pop do que hip-hop em si, mas a gente sabe que o seu problema com ela não é esse.

Seu problema é em vê-la — uma rapper branca — alcançando coisas que outras artistas negras do gênero não conseguiram com “tanta facilidade”. A própria Nicki Minaj, só foi indicada numa categoria não direcionada para o rap/hip-hop quando surgiu entre as nomeações de “Artista Revelação”, enquanto Azalea concorre no próximo ano ao título de Gravação do Ano, e isso realmente é de se impressionar. Mas você não pode culpá-la por isso. 

Por mais que tenha apostado no gênero por conta própria — após uma frustrada tentativa como cantora pop, como você sabe —, Iggy é só mais uma peça dentro deste quebra-cabeça e mais vale você se unir a ela na esperança de não transformar isso em outra competição que só resultará numa série de comentários machistas — estão ameaçando, inclusive, vazar uma sextape dela caso ela não se redima com você, seus debates não são sobre isso — do que levantar debates direcionados ao público de uma forma errada, somado a um sensacionalismo que transforma cada vez mais isso numa simples briga entre duas mulheres na indústria do que uma discussão séria como deveria ser.

É claro que não estamos sugerindo que as duas se unam numa nova “Fancy”, até porque também sabemos que você não tem muita sorte com parcerias, mas que deixe de fazer isso parecer algo pessoal, expondo-a como o inimigo que ela não é, pois isso não te ajuda em nada na luta que está disposta a assumir e termina por ofuscar também a sua causa, aos poucos midiaticamente diminuída. Sem contar que também não soma coisa alguma a sua carreira, que depois do lançamento do “Broke With Expensive Taste” precisa que você dedique seu tempo ao seu lado artístico (você é tão talentosa!) e desperdice menos em confusões por redes-sociais.

Por fim, a gente concorda que Iggy Azalea também não tem sido inteligente. Ela não soube acompanhar o ritmo de sua discussão e, nas oportunidades que teve para te responder, só rebateu seus argumentos com números e mais números, o que não representa nenhum conteúdo concreto, se não o fato dela ser um produto comprável, mas isso só evidencia o que dissemos sobre ela não estar do lado de lá propositalmente, ela é só mais uma peça.

Azealia, Iggy Azalea não é o seu inimigo. Seus inimigos são os que fomentam essa discussão de maneira errônea, colocando-as uma contra as outras quando deveria estar no mesmo time, nem que para isso fosse necessário que se reunissem durante algumas aulas de história. Seus inimigos são os que preferem colocar em destaque uma rapper branca, uma vez que seu trabalho é mais comercializável do que de uma artista melhor e negra. Seus inimigos são os nomes que atrapalharam a sua carreira até aqui, fortalecendo o monstro que você se tornou e te incentivou a finalmente colocar seu disco de estreia entre nós. Seus inimigos são os que distorcem cada uma das palavras que você diz, na esperança de colocar seu real intuito debaixo de um tapete que tenha estampado fotos do clássico “Christina Aguilera X Britney Spears” ou, pensando em algo mais recente, “Katy Perry X Lady Gaga”. Iggy Azalea não é e nunca foi o seu inimigo.

Enfim, se nos permite a intromissão, adoraríamos ver “Ice Princess” e “Nude Beach A Go-Go” ganhando videoclipes. Muito obrigado pela atenção e te desejamos todo o sucesso do mundo com seu disco de estreia.

Com amor,
It Pop.
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