Review: o "Prism" da Katy Perry é bom, mas não vale um Grammy

Se Katy Perry se consagrou como uma grande hitmaker e espantou a maldição do segundo disco com seu “Teenage Dream”, foi na produção do s...

Se Katy Perry se consagrou como uma grande hitmaker e espantou a maldição do segundo disco com seu “Teenage Dream”, foi na produção do seu sucessor, “Prism”, que a californiana teve que penar. Grandes poderes vêm com grandes responsabilidades e, depois de se tornar uma das artistas que mais vendem em sua gravadora, o próximo passo era óbvio: manter os números. O que, em outras palavras, também significa manter a fórmula.



Pfvr, parem as máquinas! Mandem ela calar a boca sobre toda essa história de obscuridade e, claro, alertem o Dr. Luke e sua equipe, o que queremos são mais grandes sucessos. Com a pressão de se mostrar ou não como uma grande popstar, o primeiro single do disco, ao mesmo tempo que se mostra bom e promissor, revela o medo de Katy Perry, totalmente presa a sua zona de conforto. De bravo, “Roar” só tem as semelhanças com a música da Sara Bareilles, mas nem isso Katy quis ameaçar manter, trazendo um pouco de humor para contrastar com o peso dos versos da canção em seu videoclipe. A ideia foi boa, confessamos, e por isso a música começa dando um tom animado para o novo álbum, mas logo em seguida tem seu clima quebrado pelo grande novo hino da Kátia.



“Legendary Lovers” é uma das melhores coisas que já ouvimos dela, certo? “Firework” e “The One That Got Away” funcionaram no “Teenage”, então desta vez ela investiu PESADO nas baladinhas e esse foi o seu melhor resultado. O flerte com a cultura indiana, essa coisa meio étnica, a letra. Tudo fica tão no seu lugar que a canção não soa como nada menos que lendário. “Diga meu nome como uma escritura, mantenha meu coração batendo como um tambor. Amantes lendários, nós deveríamos ser amantes lendários”. HINO e no sentido real da palavra. Tá de parabéns, Katy! Aliás, é esse o tema de “Birthday”, a próxima na tracklist.

Animando o disco outra vez, aqui Katy Perry quer saber de festa. Não sabemos se foi proposital, mas o arranjo aqui lembra bastante “Last Friday Night”, o que nos faz imaginar se não seria essa uma das músicas tocadas naquela graaande festa da Kathy Beth Terry. Até imaginamos a mocinha se acabando ao som da canção, hahahaha. Outra pra se acabar vem na sequência, “Walking On Air”, mas essa não é pra Kathy Beth e sim para seu amigo gay, se é que ela tinha um. Saindo da sua área de conforto, na música Katy Perry aposta em algo que já tem bombado nas rádios há um tempo, a dance music, mas ela jura que a ideia era trazer de volta esse gênero. Cher, que lançou um disco novo nesse ano, se sentiu ofendida. Calvin Harris também. Lady Gaga preferiu ignorar enquanto escutava a faixa-título do seu último álbum, “Born This Way”, mas enfim.

Aí na sua cabeça está assim: a festa da Kathy Beth Terry, LO-TA-DA de colegiais e de repente invadida por uma trupe de amigos gays. Fazendo companhia para o tio da personagem de “Last Friday Night”, lá no telhado do clipe, tá a cantora Cher aproveitando a vibe noventista e *tcharãn* o amor pinta no ar! Saem as luzes coloridas, o globo espelhado e as calças coladas no corpo, todos começam a dançar juntos, lentamente, ao som de “Unconditionally”. A gente bem disse que ela tinha apostado de vez nas baladinhas e taí a prova, a música até é o segundo single do “Prism”. Entre seus versos, ora bem piegas, Katy Perry promete amar o cara incondicionalmente, e então temos uma percussão que casaria bem com qualquer coisa da Adele e até um coro no final. É uma música e tanto, porém, logo seu clima é quebrado (pô, Katy!) por “Dark Horse”, onde a cantora se mantém fora da zona de conforto, brincando de ser nigga ao lado do rapper Juicy J. Obviamente, a participação do cara só é válida pra dar um crédito mais urban para a canção, mas ficamos interessados mesmo no seu break, qual por um momento cogitamos ser arte do Diplo, além da ponte que o antecede. “Você tá pronto para uma perfeita tempestade? Pois uma vez que você seja meu, não tem mais volta”. EITA!



Repetindo o fator surpresa de maneira positiva, vamos então de “This Is How We Do” e, gente, alguém precisa fazer disso um single. Se não estamos enganados, essa é a primeira do álbum sem as mãos do Dr. Luke e, ao lado dos suecos Klas Haslund e Max Martin, Katy Perry continua muito bem, obrigado. Vindo da Suécia (é como se ela tivesse vindo, certo?), não tinha como a música ser ruim e por isso é um dos grandes destaques do disco. O que é aquele “it’s no big deal” antecedendo o refrão? E o refrão? E a voz da Cher grave à la “We Can’t Stop” da Molly? Ah, claro, isso sem falar no momento em que a festa vai acabar... e ela manda começarem de novo! Mais um ponto, Katy Perry, muito boa mesmo. Pra festa continuar, “International Smile” vem logo em seguida e então pensamos na baderna que seria caso fosse esse o primeiro single do disco. É “TEENAGE DREAM”, GENTE! O instrumental, a forma com que os vocais são estruturados, o refrão, é tudo tãaaaao parecido com “Teenage Dream” que até parece ter sido uma descartada do disco, coisa nem tão improvável. Felizmente, ela é boa. Infelizmente, é a última animada do álbum.

Sabemos que Adele e Lana Del Rey mudaram a opinião do público quanto a lançar baladinhas nas rádios, mas também não precisava forçar a barra, né Katy Perry? A cantora, que recentemente declarou pensar em um disco totalmente acústico como seu próximo material, separou metade do disco só para baladinhas, e dizemos isso sem contar com as que ouvimos antes de “International Smile”. Por sorte ou não, ainda temos um pouco dessa ideia sobre “deixar a luz entrar” e as baladinhas não são daquelas que nos derrubam, sabem? Acompanhemos.

“Ghost” leva Katy aos anos 80-90 outra vez, mas agora naquela balada para apaixonados no prédio ao lado da boate que tocava “Walking On Air”. Os vocais de Katy Perry estão angelicais e usamos esse adjetivo por motivos de: a música parece “Vou De Táxi” da Angélica, rs. Sério, gente, ouçam a música da brasileira e depois essa, mas sem medo de ser feliz, essa não é uma acusação de plágio, apenas lembrou vagamente, o que talvez não seja tão bom pra Katy Perry, sei lá. Só sabemos que, quando vimos “Ghost” na tracklist do “Prism”, jurávamos que seria a “E.T.” desta era. Mantendo a linha apaixonada e piegas, Katy Perry deixa pra trás o seu fantasma e agora vem apenas pedir por amor em “Love Me”. “Eu me perdi no medo de perder você. Queria que não fosse assim, mas foi. Eu me perdi, perdi minha identidade. Esqueci que você me escolheu pra mim”. A quase depressão pós-separação? Faz sentido. Seja como for, ela não quis perder muito tempo sofrendo e canta isso em “This Moment”, quando aparentemente começa um novo amor.

“Tudo o que temos é esse momento. O amanhã ainda não foi escrito e o ontem já é história [passado]. Então por que você não fica aqui comigo?”. Entre tantas baladinhas, é uma das mais legais e, no começo, temos uma vaga lembrança de “Dancing On My Own” da Robyn, o que também é ótimo. A produção ficou por conta do time de produtores Stargate, donos de “Diamonds” da Rihanna e “Just Another Night” da Icona Pop, e estamos cada vez mais certos de que os caras sabem o que fazer quando tem em mãos uma popstar e uma proposta de baladinha. Mandaram bem demaaais! A música é, inclusive, melhor que “Double Rainbow”, a grande aposta do disco. Composta pela Sia com o Greg Kurstin, a baladinha foi bem superestimada, né? Também pudera, fizeram da Sia uma espécie de Midas do mercado atual, mas ela que nos perdoe, dessa vez foi passada pra trás. Poréeeem, isso não significa que a música seja ruim, só que passou meio em branco entre baladinhas melhores, como “Unconditionally”, “This Moment” e... certo, vamos acompanhar.



“By The Grace Of God” é a prova de que, por trás da Katy Perry, Katy Hudson ainda está entre nós. Antes disso, o mais perto que ela chegou de cantar sobre Deus foi no “TGIF (Thanks God, It’s Friday)” de “Last Friday Night”, mas nem estamos reclamando. Há boatos sobre a música ter sido escrita após voltarem as rivalidades com a Lady Gaga, parece que Katy ficou com medo dos contatos da Gaga e foi pedir a benção de Deus, mas isso é assunto pra outro post. Na baladinha, LINDA, Katy consegue mais uma vez provar que “Double Rainbow” foi beeem superestimada e também impressiona com sua potência vocal. Marco Feliciano nos disse que é a sua favorita no disco.

Em sua versão deluxe, “Prism” ainda tem 3 jóias: “Spiritual”, “It Takes Two” e “Choose Your Battles”. Mas pra quem não é chegado em músicas lentas, aqui já é hora de estar acordando desde o cochilo com “Ghost”, hahahah. Brincadeiras à parte, as três também são potentes baladas e todas melhores que a música da Sia (deu pra notar que encrencamos com as promessas que envolviam o disco, né?). Uma coisa bacana e provavelmente herdada por “Rolling In The Deep” da Adele é a forma com que as percussões são bem aproveitadas aqui, trazendo não só mais vida como também emoção pras canções. Das três, a gente gosta mais de “It Takes Two”, mas ficaríamos com dó da Katy caso vazasse a demo da música, na voz da Emeli Sandé, enfim. Rs. “Choose Your Battles”, porém, casa bem com a primeira música do disco, sendo uma escolha e tanto pra encerrá-lo. “Você continua tentando fazer de mim sua inimiga? [...] Eu não quero mais lutar, querido”.



Concluindo, é isso o que temos no “Prism” da Katy Perry. Ela, sendo uma ótima cantora e compositora, acompanhada de outros ótimos compositores, cantores e produtores, obviamente nos trouxe um disco repleto de produções impecáveis, o que promete repetir todo o êxito do “Teenage Dream”, mas temos um problema quando notamos que o disco acaba por não passar uma mensagem ou seguir exatamente uma linha. Se não fosse nossa festa imaginária com a personagem de “Last Friday”, vários gays, a Cher e o tio saxofonista do telhado, tudo ficaria bem solto e, SIM, isso é um problema quando falamos de um disco. A ideia não é ter tudo igual pra que se encaixe, mas apenas que se encaixe e não temos muito disso no “Prism”, a não ser pelo amor como ponto em comum entre muitas delas, coisa que também é cantada nas rádios o tempo todo. SÓ por isso, “Prism” consegue ter várias músicas boas, mas não funcionar tão bem o quanto deveria como um conjunto, o que logo interfere nos planos de Katy Perry caso ela tenha pensado em finalmente ganhar um Grammy com o material. “Legendary Lovers” talvez possa mudar a ideia dos grandões da premiação, mas só talvez.