Recap | “AHS: Cult”: qual o futuro da seita?

Os dois últimos eps da séries caminham para o inevitável: a devastação.

O nono ep de “AHS: Cult” serviu para explicar todas as referências em que a serie se baseia, que já tínhamos rapidamente levantado aqui, como Jim Jones, que levou ao suicídio coletivo de quase mil pessoas em um refúgio de sua seita na Guiana. A direção de “AHS: Cult” mistura gravações reais dos acontecimentos, com cenas produzidas para a série, onde Evan Peters interpreta todos os líderes das seitas com perucas esquisitas. 

O clube da Luluzinha que se formou no porão de Kai é bizarro, todos esses homens de calças apertadinhas mais parece um teste para um filme da Sean Cody. No conselho da cidade, onde Kai tem total controle, ele virou um ditador local, com o discurso da censura em nome de uma moral conservadora e volta a um tempo que nunca existiu.

Proibir pornografia vai mudar alguma coisa? Não, mas é um bom começo para uma sociedade cheia de pudores quando o assunto é sexualidade. Só é meio forçada a agressão ao outro vereador, cheio de hematomas e uma tipoia, que aceita a lei de Kai. Mas seu séquito aplaudindo qualquer coisa que saia da boca dele é exatamente o que Trump fez e faz, na intenção de não ser vaiado por gente que pensa de verdade. Nos últimos episódios, a crítica ao presidente americano tem se tornado mais incisiva, como a promessa do que essa seria essa temporada. 

O episódio “Beba o suco” foi mesmo da Ally, que está outra pessoa, e da Ivy que tornou-se mais patética do que já era. Ally serviu macarrão e não comeu — na cena meu rosto ganhou um sorrisão —, pois em um jantar tenso como aquele e Ally não comendo só poderia rolar um veneno básico na comida. 

Winter, por mais que tenha um discurso sobre estar com medo de Kai — ela não o perdoa pela morte do irmão Vincent —, só conseguiu procurar um artigo no Wikihow sobre como escapar de uma seita, chegando a uma única alternativa: fugir sem olhar para trás. Ela ainda ajudou Kai a pegar Oz na escola, uma verdadeira traidora inútil. Não é à toa apanhou duas vezes no episódio. 

Coitada mesmo é da Beverly, que praticamente implora a morte a Kai. No famigerado porão do líder insano, um delicioso suco envenenado é servido — inspirado na história de Jim Jones. Kai fala sobre transcender do corpo físico ao espiritual, mas tudo não passa de um teste. Purulento, um rapaz de QI baixo não percebe, se recusa a tomar e acaba morrendo. Todos tomam, e Kai revela que não tem veneno ali. Ele está louco, mas não a ponto de largar sua promissora carreira no senado americano. Beverly grita desesperadamente ao saber que não vai morrer. Que tipo de horrores ela está passando nessa casa? 

O pobre Oz também é um destaque no episódio. Pobre nada, na real ele foi bem chato em escolher passar a noite com Kai — suas mães não ensinaram nada sobre estranhos? O garoto acredita fielmente que Kai é seu pai, após o jogo dos dedinhos onde não se mente. Mas Kai jogou verde. Ally suborna uma secretária na clínica onde fez a inseminação artificial, e descobre que Kai não sabe do que está falando. 

No jantar em sua casa, Ally serve hambúrgueres – que pra mim é molho de carne moída – e mostra um documento falso para Kai que afirma que Oz é realmente seu filho. Nessa ela consegue avançar muito em seu plano: Oz está em segurança e ela ganha destaque na seita. Kai está tão louco e megalomaníaco que acredita mesmo que os dois fizeram o próximo messias. No começo, achei que era tudo um grande teatro dele, e que seus objetivos eram apenas políticos, mas política e religião se misturam na cabeça desse homem perturbado.

Faltando um episódio para o fim da temporada, em “Charles (Mason) é o acusado”, vemos um Kai alucinado e paranoico, bem diferente do líder carismático de antes. É interessante ver como a série foi desconstruindo o personagem, que a princípio se vendia como um gênio do mal e, aos poucos, foi revelando o que realmente é: um louco misógino e arrogante. Na primeira cena, quando Winter e algumas amigas estão comentando o debate eleitoral entre Hillary e Trump, podemos ver Kai digitando “eu quero que ele [Trump] ganhe só para atirar nessas vadias estúpidas”, logo antes dele bater em uma amiga de Winter, mostrando um falso arrependimento depois.

O capítulo conta com a volta de Bebe logo nos primeiros minutos, que tinha ficado bem perdida no episódio sobre Valerie Solanas. O roteiro explica onde Kai e Bebe se conheceram — ela era uma psicóloga responsável por cuidar de rapazes que não conseguem controlar a raiva. Bebe vê algo especial em Kai e dá a ele a missão de liberar a raiva feminina na sociedade, quase estourando em tempos de Trump, a fim de que o plano de Valerie — a eliminação dos homens e o fim do patriarcado — seja cumprido.

O que logo sabemos que ele não está fazendo direito, já que sua fome por poder deturpou qualquer sentido que Bebe havia dado a ele. Naturalmente, Kai volta a sua raiva intrínseca às mulheres, como bem vimos nas últimas semanas. É estranho nessa construção o fato de que até conhecer Bebe, durante as eleições presidenciais, ele parecia ser apenas um homem branco raivoso, e depois se tornou o líder de uma seita perigosa e destrutiva. Apenas uma conversa com a psicóloga foi o suficiente para liberar o gênio do mal?

Charles Mason, figura constante na temporada, aparece nos delírios de Kai. A mente por trás dos assassinatos de Sharon Tate, seu bebê e amigos é uma grande inspiração ao nosso líder de cabelos azuis, que consegue traçar analogias bizarras entre os dois, como a suposta missão de Mason de salvar o mundo da iminente barbárie.

Pra quem não sabe, o plano de Mason era fazer com o que os assassinatos fossem percebidos como feitos por um grupo político negro, incitando uma nova guerra civil – ele acreditava que os negros tomariam o poder, numa estranha leitura das músicas dos Beatles e, como bom nazista que é, devia impedir isso. O plano “só” não deu certo porque Linda Kasabian confessou o crime todo à polícia. Kai até cita a canção “Helter Skelter”, que para Mason era o sinal divino do fim.

Inspirado por Mason e por seus erros, Kai ordena a morte de Gary, e deixa o corpo numa clínica de acompanhamento parental que faz abortos. Kai acusa os seguidores do atual senador, mas justamente um grupo de esquerda seria a favor de uma clínica assim? Espero que faça mais sentido essa parte futuramente.

No final, temos Bebe morta por Ally, numa das melhores cenas do capítulo. Kai diz à Ally que Bebe era sua terapeuta de controle de raiva, que responde “não muito boa em seu trabalho”. Hilário e a mais pura verdade.

Todos à volta de Kai vão desmoronando, pedaço por pedaço. Winter, que acreditava ser especial, é morta pelas mãos do próprio irmão. Vai tarde. Gary morto, Beverly destruída, Vincent aterrorizando Kai em sonhos. Muitos corpos pesam agora. Ally, que de início parecia frágil e extremamente insana, é a única ali que Kai pode confiar, o que é ótimo, já que ela quer destruí-lo. A alegoria que “AHS: Cult” construiu parece caminhar para o óbvio: a sociedade americana está produzindo gente doida demais, e parece que estão todos batendo palmas para isso.