Crítica: "La La Land" usa clichês românticos para discutir sobre o nosso amor pela arte

Favorito ao Oscar de "Melhor Filme" e indicado a 14 categorias, "La La Land" é um filme apaixonante sobre o amor pela arte

Indicado ao Oscar de:

- Melhor Filme *favorito*
- Melhor Direção *favorito*
- Melhor Ator (Ryan Gosling)
- Melhor Atriz (Emma Stone)
- Melhor Roteiro Original
- Melhor Fotografia *favorito*
- Melhor Direção de Arte
- Melhor Montagem *favorito*
- Melhor Figurino
- Melhor Trilha Sonora *favorito*
- Melhor Canção Original ("City of Stars") *favorito*
- Melhor Canção Original ("Audition [The Fools Who Dream]")
- Melhor Edição de Som *favorito*
- Melhor Mixagem de Som

“La La Land: Cantando Estações” é, sem sombra de dúvidas, o (futuro) vencedor do Oscar de “Melhor Filme” mais previsível dos últimos tempos. O longa vem fazendo um verdadeiro arrastão na temporada de premiações e só perde para “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, seu maior concorrente, no número de prêmios conseguidos até agora. Depois de levar o maior prêmio em diversas premiações, de Satellite Awards, até Critics' Choice Awards e Globo de Ouro (neste, se tornou o filme mais premiado da história), o destino no pódio mais alto da 84ª edição do Oscar está bem evidente.

Esse fato é, por si só, um evento histórico: caso o favoritismo se comprove, “La La Land” será 11º musical na história e o segundo nesse século a levar pra casa o careca dourado de “Melhor Filme” – o último foi em 2003 com “Chicago”. Antes disso? “Oliver!” em 1969, 34 anos antes. E entre “Chicago” e “La La Land”, quantos musicais concorreram ao prêmio máximo? Apenas um, “Os Miseráveis” em 2013. O gênero está em baixa.

Mas nem sempre foi assim. Na Era Dourada de Hollywood, lá entre os anos 30 e 60, os musicais roubavam a cena nas telas do cinema. Com a nova arte em plena ascensão, o som revolucionou não só o fazer cinema como o assistir cinema, então a música foi elemento fundido à própria narrativa, criando os musicais, que atraiam multidões – e tudo começou com “O Cantor de Jazz” em 1927, o primeiro musical longa metragem.

O Jazz e a Broadway foram elementos indispensáveis para o advento do cinema musical, com peças e números em jazz sendo transpostos à tela. Já na segunda edição do Oscar, em 1929, um musical foi prestigiado com "Melhor Filme": "Melodia de Broadway". Todavia, nenhuma década foi tão preenchida com musicais no posto mais alto do Oscar como a década de 60; quatro filmes receberam a honraria: "Amor Sublime Amor" em 1962, "Minha Bela Dama" em 1964, "A Noviça Rebelde" em 1965 e "Oliver!" em 1969. Depois disso, como já sabemos, só em 2002.

Caso você esteja se perguntando “ué, cadê ‘Cantando na Chuva’?”, a resposta é simples (e trágica): o eleito melhor musical de todos os tempos (com bastante louvor) não foi indicado a “Melhor Filme” – na verdade ele concorreu apenas em duas categorias e perdeu ambas, uma mácula (das várias) que a premiação carrega até hoje. Além dele, há diversos outros musicais inesquecíveis que não puseram as mãos no Oscar de “Melhor Filme” (quando nem indicação receberam), como “O Mágico de Oz”, “Rocky Horror Picture Show”, “Grease: Nos Tempos da Brilhantina” e “Moulin Rouge: Amor em Vermelho”.

Imagem: Divulgação/Internet
Certo, mas o que essa aula de história tem a ver com “La La Land”? Tudo. Em primeiro lugar podemos perceber como os musicais são assimilados por públicos diferentes de formas diferentes em tempos diferentes. Atualmente é bastante usual vermos espectadores colocando os dois pés atrás quando um musical está diante dele – inclusive de frente ao próprio “La La Land”. Tá ganhando tanto prêmio? Nossa, quero ver. É musical? Aaaaah, não... Se é chato, se os números musicais são piegas, se a linguagem simplesmente não agrada, vai de cada um, porém, o número de musicais indicados a prêmios é um reflexo da assimilação do público: pouco interesse, pouca visibilidade.

É bastante interessante perceber que é exatamente sobre isso, a perda de interesse por uma expressão artística, que o filme finca seu eixo central. Sebastian (um carismático Ryan Gosling) é um pianista apaixonado por jazz que vê, dia após dia, sua arte morrer. Ele tenta arduamente sobreviver da música, porém, acaba confinado em restaurantes que mal pagam e que não dão o reconhecimento que ele espera. Seu sonho é ter o próprio clube de jazz e, literalmente, “salvar” o gênero.

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Do outro lado temos Mia (Emma Stone, em maravilhosa atuação), uma garçonete que sonha em seguir os passos da tia e ser atriz. Ela, ironicamente, atende num café ao lado dos estúdios da Warner, em Hollywood, e vê estrelas passarem o dia todo enquanto ela deseja estar do outro lado da rua. E Mia é a apoteose do clichê hollywoodiano “bad luck vibe”: tudo de errado acontece na vida da garota. É desde café sendo derramado na sua camiseta momentos antes de um grande (e malfadado) teste até a tela quebrada do seu celular. Mais gente como a gente que isso, impossível.

Antes de conhecermos nossos protagonistas, o longa começa com um travelling onde vemos vários carros num engarrafamento. Em cada um, podemos ouvir diversos gêneros musicais, como pop, hip-hop e rap. Enquanto a câmera passeia entre essa diferença gritante, somos jogados num enorme número musical onde, depois de ouvirem músicas diferentes, todos os passageiros passam a cantar uma só música ("Another Day of Sun"). A sequência, filmada inteiramente sem cortes e em locação, é a abertura perfeita para dar todo o tom da obra, tanto musical como visualmente: muita cor, luz, vibração e euforia. Você imediatamente sabe o que vai esperar.

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Além dessa expectativa em torno do estilo narrativo do longa empregado pela cena de abertura, é extremamente evidente o formado clichê e batidíssimo que envolve o casal protagonista, que começa se detestando, trocando farpas, dizendo em alto e em bom som que jamais se apaixonariam um pelo outro até o evidente momento em que ambos devem deixar o orgulho de lado para se entregarem de vez. O roteiro não esconde essas obviedades, o que, nas mãos de outra produção, seria uma típica comédia romântica que tanto são exibidas na Sessão da Tarde, todavia, “La La Land”, assim como as obviedades narrativas presente em “Demônio de Neon”, são usadas ao seu próprio favor, fazendo com que o espectador deposite sua atenção aos outros aspectos da obra.

Pulando todas as dificuldades indulgentes impostas pelo casal até o momento em que se apaixonam – representado de forma criativa pela cena onde Mia deixa de ouvir as pessoas para ouvir o jazz da música ambiente –, o filme não é exatamente sobre o romance dos dois, e sim, sobre a paixão avassaladora que cada um tem pela sua arte e como isso reflete nas suas próprias vidas – eles são vetores desses amores culturais. Mia, apaixonada por cinema e teatro, tem um universo mega colorido, com cartazes espalhados por seu apartamento; enquanto Sebastian, amante da música e do jazz, vive num mundo sóbrio e desprovido de cor.

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Mesmo com tais diferenças, próprias das múltiplas diferenças de personalidades humanas, “La La Land” é um retrato do amor pela arte, seja ela qual for. Sebastian e Mia se apaixonam enquanto suas artes florescem, pondo em discussão o consumo da própria arte. De um lado, Sebastian vê seu jazz morrer, enquanto Mia passa pelo cinema que exibia clássicos, agora fechado. Por que tais expressões artísticas são deixadas de lado? Vale a pena investir nelas?

Enquanto dialogam entre si, os personagens são porta-vozes do próprio filme, que joga tais perguntas para o espectador. É claro que o molde em que “La La Land” se encaixa é bastante comercial, ou seja, com grande apelo do público, mas o fato de ser um musical acaba cerceando o interesse. Utilizando-se da metalinguagem, a fita é questionadora sobre sua própria existência e de tantas artes consideradas “menores” ou até “cults”, com faixa de público bem mais reduzida.

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Porém, mesmo com quais pensamentos até pessimistas, o longa não abre mão de provar de diversas formas que, sim, vale muito a pena amar tudo isso. Na sequência musical mais incrível do filme, “Audition (The Fools Who Dream)”, Mia canta com violenta paixão sobre os tolos amantes da arte, que fazem seus corações doer pela bagunça que fazem. "Um pouco de loucura é a chave para nos dar cores para enxergar. É por isso que eles precisam de nós". E o que nós, veneradores da sétima arte, somos além de malucos sonhadores que querem mudar o mundo através do cinema? Mia está ali cantando sobre quem está diante da tela, principalmente para aqueles que amam ver a vida pelas lentes do cinema.

Mesmo provido de tanta alegria, “La La Land” esbarra num ponto bastante complicado e que vem gerando discussões pelas representações sociais. Sebastian, um cara branco, tem como objetivo de vida salvar o jazz, ritmo criado por negros. No longa, todos os músicos, com exceção dele, são negros. Qual a justificativa, então, para o protagonista ser branco – principalmente quando sua missão de vida é salvar o jazz (por mais absurdo que isso soe)? 

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Essa discussão já tivemos várias vezes (recomendamos esse texto sobre a temática), com um protagonista branco sendo mais “vendável” que um negro, o que é preocupante – o que só possui amplitude maior quando estamos falando do favorito na categoria máxima da maior premiação do mundo. O filme consegue deixar essa missão sem nexo de lado, o que diminui a síndrome do "white savior" (o cara branco salvando algo da cultura negra), mesmo sendo, por si só, algo errado em pleno 2017, o que merece ser destacado e debatido.

Não, “La La Land” não é o melhor filme do ano (“Moonlight: Sob a Luz do Luar” é mais certo para esse título), no entanto, é uma obra puramente cinematográfica. Não só pelas sequências musicais filmadas sem cortes com explosões de cores, mas também por ser um manifesto de amor à sétima arte e às várias que ela abrange. Além disso, em subtextos do roteiro bastante elementar, o longa é um sincero (até demais) conto sobre a perseguição de nossos sonhos e do encontro do amor perfeito, e como esses dois rumos podem acabar colidindo. O que mais vale a pena? A resposta, aqui, é incrível - mesmo que “La La Land” arranque seu coração e pise em cima.