“Don’t Wanna Know”, do Maroon 5, e a forma como hits ruins estão acabando com as paradas

Todos concordam que é incrível a maneira com que os serviços de streaming revolucionaram a nossa forma de consumir música e, provavelmente, comemoraram quando esses conquistaram seu espaço na contabilização para as paradas musicais, mas não dá pra negar que o caminho escolhido para essa inclusão foi o pior possível.

Como você deve saber, a contagem dos streamings para paradas como a Billboard Hot 100 e UK Charts não funciona da mesma forma que as vendas físicas e digitais, com cálculos que, segundo eles, equiparam o valor das execuções por essas plataformas com as vendas reais. Entretanto, o que temos é uma proposital supervalorização, que tem causado a maior bagunça nas tais listas semanais.

Pra ilustrar isso de uma forma simples, pensemos em “Don’t Wanna Know”, o péssimo novo single do Maroon 5 com o Kendrick Lamar. A música precisa de 100 execuções para que contabilizem uma venda nas paradas e, seguindo as regras deste acordo, uma mesma pessoa só estará dentro desse cálculo nas primeiras 10 vezes que escutá-la por dia – 70 numa semana. Você pensa “mas quem em sã consciência escutaria essa música tantas vezes num período tão pequeno?”, e é aí que está o problema, ou pelo menos um deles.

Quando falávamos apenas das vendas físicas e digitais, o que tínhamos era o interesse numa música, seguido da sua compra: ou seja, eu estava sob o efeito de substâncias químicas e decidi comprar “Don’t Wanna Know”, então fui até o iTunes mais próximo e a comprei. Mas, se tratando das plataformas de streaming, o que temos são milhares de playlists que nos farão ouvir essa música entre outras que talvez nos interessem, de forma que, indiretamente, talvez eu contribua para as 10 execuções que o Maroon 5 precisa que eu faça para se garantir nas paradas da semana que vem.

Nem tudo é ruim, visto que, desde a ascensão dos streamings, também tivemos uma crescente de novos artistas nas paradas, como são os exemplos de Lukas Graham, twenty one pilots, Zara Larsson, entre outros, mas assim como alguns nomes conquistam o seu espaço por esse interesse orgânico, outros se aproveitam disso como o grande negócio que é – o que facilmente pode ser aplicado ao Maroon 5, outra vez, que garantiu seu lugar na nova edição do jogo “Just Dance”, antes mesmo que essa parceria com Kendrick Lamar tivesse sido lançada.


Nos recusamos a ajudar “Don’t Wanna Know” com mais uma execução sequer, então eis acima um player com uma canção boa do Maroon 5 em protesto.

O negócio fica ainda mais preocupante se levarmos em consideração o fato do Spotify e outros serviços do gênero serem baseados em algoritmos, uma vez que esses cálculos podem contribuir pra que hits sejam previamente definidos, levando em consideração o interesse das gravadoras x nosso comportamento dentro dessas plataformas.

A supervalorização dos streamings nas paradas é importante pelo posicionamento da nova ferramenta dentro de um mercado que ainda tende a resistir ao digital, vide a recusa de artistas como Taylor Swift em distribuir seus discos sob o modelo de negócios do Spotify, mas também soa como uma forma dos selos reassumirem o controle quanto ao que vende ou não, após a queda das vendas físicas, disputa ferrenha contra a pirataria e interesse cada vez maior de novos artistas aos meios de crescimento independentes. 

Uma saída, talvez impensável para as gravadoras e plataformas, seria recalcular a forma como os números desses serviços impactam as paradas, numa forma de, enfim, torná-los minimamente justos. Mas o provável é que sigamos o mesmo caminho, com o risco de, a qualquer momento, termos alguns dos maiores recordes da indústria batidos por produções tão preguiçosas quanto o último hit dos Chainsmokers – ou do Maroon 5, que seja.
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