Album Review: Florence + The Machine e sua ode ao amor nu, cru e vulnerável em 'How Big, How Blue, How Beautiful'

Já não era sem tempo de termos algum trabalho próprio - que não envolvesse trilha-sonora de algum filme - do Florence + The Machine em mãos. O último disco deles, datado de 2011, é o apoteótico "Ceremonials", que sucede "Lungs", lá de 2009. Estávamos há quatro anos sem nenhum álbum novo da trupe, até que num dia qualquer, as redes sociais da banda tiveram suas fotos de perfil atualizadas e, logo em seguida, foi revelado o trailer de seu terceiro álbum de inéditas, "How Big, How Blue, How Beautiful". Após isso, o clipe de seu primeiro single, "What Kind Of Man" já estava entre nós.

Não esperávamos algo como esse carro-chefe, na verdade, não esperávamos nem um título como esse. Após nomes como "Seven Devils", "Cosmic Love" e "Remain Nameless", é difícil achar que uma música seria nomeada como "Que Tipo de Homem", mas, ainda sim, a surpresa foi muito agradável.

A título de curiosidade, no que dependesse da Florence, esse novo disco teria saído completamente diferente do que temos em mãos. Em entrevista, a vocalista havia comentando que estava construindo "um álbum conceitual que contava a história de uma bruxa que vai a julgamento por homicídio em Hollywood", contudo, ao voltar para o estúdio em Londres, ela se encontrou com o produtor Markus Dravs, que a convenceu a mudar os rumos do álbum e focar em sua relação com o ex-namorado, da mesma forma que fez com Björk e seu "Homogenic".

Numa análise superficial, pode-se dizer que "How Big" é um apanhado de tudo o que a banda fez em seus álbuns anteriores, “Ceremonials” e “Lungs”, ainda que, em determinados momentos, consiga soar como se estivéssemos diante de algo nunca ouvido antes e, de fato, rola um pouco disso também. Mas como estamos numa review, estamos dispostos a nos aprofundar bem mais do que isso, não é mesmo? De forma que, para saber mais, é só descer pra prosseguir com a leitura.

"Ship To Wreck": entre um violão, piano e uma embarcação naufragando, é assim que começa a odisseia de "How Big, How Blue, How Beautiful". Em sua primeira canção, Florence canta sobre auto-destruição, coisa presente em todo o disco e, principalmente, em si mesma. Como ela define, é como "você estar em meio a um vendaval e acaba por quebrar - sem querer - a coisa mais importante de todas".


"What Kind Of Man": esse é o carro-chefe do disco e segue a história que a ruiva cria nesse CD. Agora Flo está prestes a dar um basta em sua relação tóxica, mesmo admitindo que ainda ama seu parceiro e que sempre foi devota a ele, muito bem acompanhada por guitarras, trompetes e baterias que a transformam num rock cru sensacional.


"How Big, How Blue, How Beautiful": os trompetes estão tocando e já é hora de mudarmos de ares. Sendo a primeira música em que as duas novas trompetistas (que já trabalharam com a Björk em suas turnês) da banda realmente se sobressaem, agora não ouvimos mais a Florence louca do "Lungs", muito menos a obscura de "Ceremonials", mas sim a crua e clean que estamos conhecendo aos poucos. A canção traz em seu ar épico o pensamento de que se deve seguir em frente, mesmo após de um relacionamento destrutivo.

"Queen Of Peace": mal chegamos a um minuto e já somos surpreendidos com um dos melhores refrões - e consequentemente faixas - de todo o álbum. Aqui a garota nos conta a história de um rei enlouquecido por sua dor, uma rainha em sofrimento e um príncipe que morreu para que uma batalha fosse ganha, isso da maneira mais poética possível. A música é carregada por tambores e trompetes que trazem ápices dramáticos, além da britânica ainda se comparar a rainha, chamando-a de Rainha da Paz, e versar sobre ela sempre agradar a todos mas não saber se isso realmente tem alguma finalidade.

"Various Storms & Saints": com tempestades e santos no ar, chegamos ao ponto em que o álbum dá uma descansada. "Various Storm & Saints" é uma das mais lentas do CD e, consequentemente, acaba por ser mais difícil sua assimilação. A garota canta sobre sua desilusão amorosa e sobre liberdade ("Eu estou me ensinando a ser livre"), agora em meio ao caos, acompanhada por uma guitarra, um piano e vocais líricos que dão melancolia e dramaticidade a música. 

"Delilah": "How Big" não para de nos dar hinos, não é mesmo? Baseada na história bíblica de Sansão e Dalila, a líder da banda reflete sobre ter sido traída ou não por seu amante, formando uma das canções das animadas de todo o álbum, que nos dá vontade de afastar os móveis da sala e começar a dançar. A ruiva ainda traz toda aquela ideia de liberdade vista na música anterior: Eu vou ser livre e vou ficar bem. É quase como se saíssemos do quarto escuro de "Various Storms & Saints" e estivéssemos em meio a um campo com o sol radiante de "Delilah" bem acima de nós.


"Long & Lost": recebemos um banho de água fria ao chegar nessa música. Toda a energia de "Delilah" se esvai e dá lugar a calmaria de cordas graves que "Long & Lost" nos entrega. Florence vem se perguntando em toda a canção se seu ex está sentindo sua falta. É como se a carência e a saudade batessem a porta da ruiva e ela as convidasse para fazer moradia em sua casa.

"Caught": essa é a prima perdida do "Lungs". Levada por uma guitarra e vozes que acompanham os potentes vocais de Welch, consegue ser a mais orgânica de todo o disco, além de ser o primeiro passo ao tão desejado e necessário desapego de seu ex-namorado. Não tem como não ser contagiado pelos 'whoah' do começo.

"Third Eye": Cada disco da banda tem uma canção positiva para chamar de sua. "Dog Days Are Over" pertence ao "Lungs", "Shake It Out" é do "Ceremonials" e "How Big, How Blue, How Beautiful" pode se sentir orgulhoso de ter "Third Eye" só para si. Trazendo todo o amor próprio que sabe Deus onde esteve até agora, a britânica tem noção de que o problema do relacionamento nunca foi ela e que ela merece ser amada. "Você é carne e sangue e merece ser amada".

"St. Jude": numa prece para o Santo das Causas Impossíveis, a líder do Florence + The Machine cria uma das melhores faixas do álbum, desistindo definitivamente do amor que tanto lhe fazia mal, apenas acompanhada de um órgão. Pouco calma, triste na medida certa e tão libertadora quanto se pode ser.


"Mother": fechando a versão standard, temos uma das maiores surpresas de todo o disco. "Mother" é energética, animada, nem um pouco convencional, sem falar de seus ápices, em que Welch canta para a Mãe a fazer ela cada vez menos humana e menos sentimental. Pode não ser a música mais impressionante do CD, mas tem uma letra cheia de referências à religião wicca.

"Hiding": nós definitivamente não entendemos artistas que colocam músicas muito boas apenas como faixas-bônus. "Hiding" trata sobre ocultar seus sentimentos para os outros - principalmente aqueles que você ama -, isso se aproximando bastante de um indie pop, mas sem perder a identidade da banda.

"Make Up Your Mind": tudo o que Florence pede para o seu amor é que ele decida o que quer da vida. A garota está cansada da indecisão do cara e é bom que ele se decida antes que ela faça isso por ele. A música ainda é levada por uma bateria deliciosa e as harpas que nos remetem aos trabalhos anteriores da banda. "Se decida, me deixe viver ou te amar".

"Which Witch (Demo)": lembra o que comentamos de "Caught" ser a prima perdida de "Lungs"? Então, agora chegamos ao primo perdido de "Ceremonials", até por ser a única canção remanescente do projeto inicial do álbum sobre bruxas que a britânica queria fazer. A demo traz a tona todo o lado obscuro do segundo álbum da trupe e se assemelha bastante a canções como "Breath Of Life" (principalmente na parte do coral) e "Remain Nameless".

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Aqui temos Florence e sua máquina nuas, cruas e, principalmente, vulneráveis. Por mais que "How Big, How Blue, How Beautiful" possa não ser o álbum que os fãs tanto aguardavam, a trupe ainda ganha muitos pontos para si ao ter composições impecáveis e criar uma ode ao amor numa história linear em seu disco, coisa que nunca fizeram antes. O CD tem potencial, mas optar por arranjos mais simples pode não ter sido a melhor decisão, embora isso não deixe de ser um risco assumido, o que é sempre interessante. Talvez se Florence tivesse seguido a ideia inicial de nos dar um "Ceremonials: 2.0", muito mais gente teria se interessado pelo novo trabalho dos caras, mas que tipo de banda sobrevive da mesmice?


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