Throwback Review: de 'álbum da geração' até 'o mais pretensioso da história', é impossível ser indiferente ao 'Born This Way' da Lady Gaga

"Prego que mais se destaca leva mais martelada". Já ouviu falar desse ditado? Foi exatamente assim que Lady Gaga se viu quando atingiu o ápice da sua carreira entre 2009 e 2010 com o "The Fame Monster". Turnê milionária, VMAs, Grammys, o mundo estava aos seus pés. Como conseguir manter esse império? Para qualquer artista, a resposta seria "fazendo mais um álbum bom". Para Gaga, a resposta foi "fazendo o álbum da geração".

Lógico, todo produto é passível de opinião, então jamais algo conseguirá atingir a unanimidade. Para uns o "Born This Way" é um bom álbum, para outros, o álbum mais pretensioso da história (segundo a revista NME), enquanto para alguns, o álbum da geração. O que traz o equilíbrio é exatamente essa diversidade de opiniões, com nenhuma delas levando o título de "verdade". A verdade habita dentro de cada um e é isso que importa. Então gosto não se discute? Claro que sim, estamos aqui para isso.

Hoje é dia 23 de maio de 2015, o que marca o aniversário de quatro anos do "Born This Way". Sente-se confortavelmente e siga com a gente pela Highway Unicorn com a resenha faixa-a-faixa do álbum mais insano de Lady Gaga.

1. MARRY THE NIGHT
"Eu vou casar com a noite", abre Gaga em "Marry The Night", o quinto e - prematuro - último single do álbum. A primeira vez que ouvirmos, quando a faixa saiu pela FarmVille, foi meio que um balde de água fria, já que estávamos na onda dance pop e o começo de "Marry The Night" é bem lento. Seria uma balada? Sinos de igreja começam dando ritmo à faixa até que *BOOOM* caímos no refrão. Numa mistura de disco com techno, "Marry The Night" é uma canção mega animada que fala sobre abraçarmos o lado negro da força vida e, assim, sairmos reis e rainhas da nossa própria escuridão. É impossível não sair cantando o "Oh ma-ma-marry, ma-ma-marry the night". Foco no break enlouquecedor no final.


2. BORN THIS WAY
Gaga sempre se mostrou militante das minorias sociais, já chegando a subir em palanque pelos direitos dos LGBTTs. "Born This Way" então é seu hino de auto-aceitação, uma ode à igualdade e ao amor próprio que não esquece momento algum de ser um club-anthem. Se não bastasse o conceito sonoro bem poderoso da canção, o visual é ainda mais forte. A faixa foi apresentada pela primeira vez ao vivo no palco do Grammy, onde Gaga saiu de dentro dum ovo gigante e literalmente nasceu para se unir à uma raça igualitária. Seja pelas próteses de silicone que modificaram as feições da cantora, pelas seis semanas em #1 na Hot 100 e até pela polêmica envolvendo "Express Yourself", uma comparação que até hoje não enxergamos (sonoramente), "Born This Way" é uma daquelas músicas para relembrarmos daqui há décadas e se sentir felizardo por ter vivido seu prestígio.



3. GOVERNMENT HOOKER
"IO RITORNE"! Muito antes de "Sexxx Dreams" fazer correr a veia mais safada da mãe dos monstros, "Government Hooker" já fazia as honras. A faixa foi inspirada no relacionamento de Marilyn Monroe com o presidente John F. Kennedy, mas de um modo bem sexualizado, safado e pop. Aqui Gaga canta como se entrega para seu "governador", que a manda satisfazer seus prazeres em vocais cavernosos e poderosos.  "Se afaste e dê uma virada. Coloque suas mãos no chão. Abaixe-se, é, você é minha prostituta" maoe! Para deixar tudo ainda mais perfeito, só o instrumental cheio de trance, industrial e synthpop produzidos pelo Fernando Garibay, DJ White Shadow e DJ Snake. "Hooooookaaaaaaaaeeeeeeeerrrrrrrrrr!".

4. JUDAS
Está aberta a Escola Madonna de Música Pop. Se tem algo que a Rainha nos ensinou é que usar religião em suas músicas sempre deu um buzz muito forte, para o bem e para o mal, e é assim que Gaga jogou nas nossas caras o segundo single do álbum, "Judas", faixa que fala sobre um amor impossível. Gaga está apaixonada por alguém que ela sabe que a faz mal, mas irremediavelmente está apaixonada por seu Judas. Composta na mesma sincronia que "Bad Romance" - se você cantar o refrão de "Bad Romance" no instrumental do refrão de "Judas", ou até fazer a coreografia, vai se encaixar perfeitamente -, "Judas" é a união gloriosa de dance pop, bate cabelo e polêmica, em mais uma produção do Midas RedOne. E o que falar do clipe de uniu três das maiores representações religiosas (Jesus, Maria Madalena e Judas)? Não há como não se apaixonar por "Judas".


5. AMERICANO
Antes de o "Born This Way" ser lançado, Gaga revelou que haveria composições em diferentes línguas - para dar aquele climão épico na coisa toda. Em "Born This Way" e "Government Hooker" há trechos em italiano ("Mi amore vole fe yah" e "Io ritorne", respectivamente); já "Americano" é recheado com espanhol, e é usando essa veia latina que a canção foi construída. "Americano" tem elementos de house e mariachi, com o tema bem caliente sobre casamento igualitário, mais especificadamente sobre Gaga conhecendo (e se apaixonando) por uma latina: "Conheci uma menina no leste de LA, de shorts florido tão doce como a primavera. Nós nos apaixonamos, mas não perante o juiz. Eu não falo sua língua, oh não!". Super forte, animada na maior potência e pronta para fazer o baile tremer, "Americano" é uma das melhores coisas de todo o álbum. Os versos finais são fenomenais.

6. HAIR
Mais uma faixa de auto-aceitação, "Hair" é mais metafórica que "Born This Way" em seu conceito, quando Gaga canta que quer ser livre como seu cabelo. Inspirada nas experiências da cantora na adolescência, quando seus pais a forçavam a se vestir de forma "normal", "Hair" é um híbrido estranho de gêneros: tem o dance pop bem alto, principalmente no pós-refrão batecabelístico, com um saxofone classudo de Clarence Clemons, mas tudo funciona como conjunto, principalmente pelos vocais maravilhosos de Gaga. Foi uma pena ter sido interpretada quase sempre em sua versão acústica, pois a versão de estúdio é para derrubar.

7.  SCHEIßE
Alerta de farofa! Depois de italiano e espanhol, chegou a vez do alemão. "Scheiße" (a pronúncia é "chaissa") já começa com versos robóticos e estranhíssimos que até hoje não sabemos ao certo o que significam (talvez nem Gaga saiba). Uma canção puramente feminista, Gaga canta sobre empoderamento feminino e como deixa para trás todas as "scheiße" (merdas) do caminho: "Quando estou numa missão eu repreendo minha condição. Se você for uma mulher forte não precisa de permissão (...) Feminista loira de salto alto alistando-se para isso. Expresse sua feminilidade, lute por seus direitos". Um single desperdiçado (graças à gravadora que negou a faixa), "Scheiße" é um quebra-chão triunfal que intoxica pelos seus versos alucinantes e instrumental incansável. RedOne mais uma vez mostrando como se faz. "I don't speak german but I can if you like aaaaaaaaaaaau".

8. BLOODY MARY
Descendo um pouco o nível, "Blood Mary" é uma faixa mais lenta e com um instrumental pesado e quase medieval. Aqui Gaga incorpora a Maria Sanguinária (ou a Loira do Banheiro para os íntimos rs), com traços de Maria Madalena quando ela canta sobre estar pronta para Pôncio Pilatos condenar seu rei (no caso, Jesus). Todo o vozerão de Gaga é posto à prova no refrão quase cantado em ópera, numa faixa teatral cheia de drama e backingvocals gregorianos que cantam o nome de Gaga em coro. Tem verso em francês ("Je ne veux pas mourir toute seule") e até hoje juramos que o último é em português ("Liberdade e amor"). "Bloody Mary" é assustadora e incrível na mesma medida.

9.  BLACK JESUS † AMEN FASHION
Primeira faixa bônus da versão especial do álbum, "Black Jesus † Amen Fashion" é mais uma canção a entrar no imenso hall de "Por que é só uma faixa bônus???". Autobiográfica, Gaga canta sobre sua vida e seu caminho para o estrelato: "Eu cresci em Nova Iorque desde que eu nasci na Broadway. Mudei para o centro da cidade quando eu tinha apenas 19 para começar uma nova vida no cenário de Nova Iorque". Mega oitentista, "Black Jesus † Amen Fashion" é o "Pai Nosso" do amor de Gaga pela música e pela moda, como seu próprio messias, Black Jesus, abençoando a todos. Com uma das melhores coreografias de todo o álbum, "Black Jesus † Amen Fashion" é simplesmente sensacional. "JESUS IS THE NEW BLACK". Oh glória!

10. BAD KIDS
Continuando na vibe oitentista vem "Bad Kids", que também celebra a liberdade, a juventude e a rebeldia. Gaga canta sobre todas as crianças malvadas que vão contra os padrões e são puros com suas próprias verdades. Guitarra elétrica bem forte em meio aos sintetizadores dar todo um ar "The Fame", mesmo que "Bad Kids" não seja uma das melhores canções do álbum. A letra, meio bobinha (para os padrões do todo) com os vocais doces do refrão, tem momentos realmente inspirados: "Eu sou tão malvada e eu não to nem aí. Adoro quando você fica louco de raiva". Quem nunca? Mas até hoje esperamos a versão com os versos extras do encarte. The Ilusão Ball Tour.

11. FASHION OF HIS LOVE
Moda sempre foi um dos assuntos preferidos de Gaga, e em "Fashion Of His Love" ela mais uma vez aborda o tema, mas de forma diferente. Cheia de sininhos super amáveis, a canção fala sobre um amor perfeito. Composta com a mais pura paixão, "Fashion Of His Love" tem momentos belíssimos que devem ser celebrados mesmo se tratando de uma faixa bônus:  "Eles dizem que eu preciso de um homem forte, não só um amigo, mas baby a minha procura acabou. Não há razão mais para chorar ou para justificar o quanto eu amo você, meu amor". A canção foi composta em homenagem ao estilista Alexander McQueen, amigo de Gaga que se suicidou em 2010 ("Sou fisicamente criada para ser tão em forma quanto McQueen"). Há aqui um dos melhores trechos de todo o álbum: "Eu sou fashionalmente desenhada para ser grande".

12.  HIGHWAY UNICORN (ROAD TO LOVE)
Sintetizadores na máxima potência, bateria tresloucada, vocais encorpados e letra piradíssima. É essa a fórmula de "Highway Unicorn (Road To Love)". A canção mais épica do "Born This Way" é uma epopeia pop onde subimos em cima do unicórnio de Gaga e corremos rumo à Estrada do Amor. Produzida por Garibay e White Shadow, a faixa é poderosa ao extremo com seus gritos quase militares que nos obriga a cair na pista já que não há momento de respiro no instrumental - a canção já começa com o refrão e até o final é pancada atrás de pancada. E é o final, depois do rápido cessar das batidas, que temos a melhor parte: "Deixe suas rodas prontas para correr porque vamos cair de amores essa noite. Deixe suas rodas prontas para correr porque vamos beber até cair". Obra-prima. "RIDE RIDE, PONY, RIDE RIDE".

13. HEAVY METAL LOVER
O que deveria ter sido o sexto single do "Born This Way", "Heavy Metal Lover" é uma faixa com gosto de metal que já começa com vocais modificados de Gaga - bem "Poker Face":  "Eu quero sua boca de uísque em toda a minha loira região sul". Meio house, meio industrial, os vocais de Gaga estão num tom bem abaixo de outras canções do álbum, principalmente de "Highway Unicorn (Road To Love)". Com um conceito parecido com o de "Bad Kids", "Heavy Metal Lover" é sexy e envolvente, só se superando no melhor verso:  "Eu poderia ser sua garota. Você me amaria se eu dominasse o mundo?".

14. ELECTRIC CHAPEL
Segura esse rock! "Electric Chapel" é aberta com um solo de guitarra delicioso que vai se fundindo com sintetizadores e sinos. Se Black Jesus é nosso messias, a Capela Elétrica é nossa igreja. Órgão de catedral cria uma áurea imaculada para Gaga nos convencer de que seu corpo é um santuário e seu sangue é puro. Electro rock, pop metal e heavy metal no riff de guitarra fazem de "Electric Chapel" uma das melhores faixas do álbum. "Se você quer roubar meu coração, encontre-me baby em um lugar seguro, venha me encontrar na capela elétrica". Nós fomos fiéis desde a primeira ouvida.

15. THE QUEEN
"The Queen" é, de longe, a faixa mais menosprezada do "Born This Way" - inclusive pela própria Gaga, que só veio cantá-la pela primeira vez ao vivo no show de São Paulo da "Born This Way Ball". Ainda com traços de rock, "The Queen" é bem Queen, banda que Gaga sempre mostrou o maior amor, numa balada bem rock super bonita e com versos líricos e majestosos onde a cantora liberta todo o poder que habita nela:  "Hoje à noite eu vou mostrar do que eu sou capaz. A rainha assassina que há dentro de mim está saindo, diga 'olá!'". Mas a melhor parte é mesmo o final, com o loooongo solo de guitarra doce e contemplativo.

16. YOÜ AND I
Quando Gaga confirmou "Yoü And I" como o quarto single do "Born This Way" todo mundo ficou decepcionado. Num álbum cheio de hinos dançantes era uma pena ter uma balada sendo trabalhada, mas nós imediatamente achamos uma escolha certeira. Todos os álbuns da cantora há uma balada bem pessoal ("Brown Eyes" no "The Fame", "Speechless" no "The Fame Monster" e "Dope" no "ARTPOP"), e nunca elas são devidamente exploradas, mas dessa vez foi - e logo com a melhor de todas. "Yoü And I" foi a primeira faixa do álbum a chegar até nós, ainda em 2010, e trata do amor de Gaga com seu ex-namorado Lüc Carl (por isso o "Yoü" com o trema) - a parte irônica é que ela conheceu seu noivo, Taylor Kinney, nas gravações do clipe rs. Balada pop com rock e country, a canção incorpora sample de "We Will Rock You" do Queen, que também aparece com o guitarrista da banda, Brian May, conduzindo os riffs. Belíssima, escrita unicamente por Gaga e com um dos melhores vocais de sua carreira, também rendeu um clipe soberbo e foi indicada ao Grammy de "Melhor Performance Pop".



17. THE EDGY OF GLORY
Quando Gaga estava prestes a lançar "The Edge of Glory", ainda como single promocional, ela a chamou de "épica". Promessa feita, promessa cumprida. A canção final do "Born This Way" fecha o ciclo perfeito do álbum, que começa com o nascimento e termina com a morte. Feita em homenagem ao seu avó, falecido meses antes de sua composição, "The Edge of Glory" fala sobre o ápice da felicidade, o momento do maior êxtase que não pode ser superado e que só pode ser encerrado com o final definitivo. Mais uma vez temos  Clarence Clemons no sax elevando o nível da faixa que é uma das mais belas formas de dizer o quanto você ama alguém. "Eu estou à beira da glória, eu estou à beira com você".

...
RESUMINDO: Ao ouvirmos o "The Fame Monster" achamos que a apoteose criativa de Lady Gaga estava completa, porém não, ela conseguiu transgredir ainda mais com o "Born This Way". É só notar sua capa, uma mistura bizarra entre o homem e máquina. "Born This Way" é um álbum completamente Gaga do começo ao fim. Notem: são 17 faixas e nenhuma delas há parcerias vocais. Todas as faixas são co-escritas e co-produzidas por Gaga e todas falam de suas verdades, quando não dela mesma. Não há nada pequeno no "Born This Way", não há espaço para erros, para momentos diminutos, para descanso. Todas as canções possuem personalidade própria e em todas parece que Gaga colocou todos os seus esforços para atingir o máximo de qualidade - é só perceber como todas carregam versos grudentos que marcam na cabeça de quem ouve. Não é disso que é feita a música pop?

É raro estarmos diante de uma obra que consiga ser completamente incrível, mais raro ainda percebermos quando ela está diante de nós mesmo - e saiba: essa review não conseguiu capturar nem a metade da magnitude do todo. Pretensioso? Sim, muito, obrigado. Pretensão só é ruim quando é vazia, quando não há conteúdo para justificá-la. Não importa se o "Born This Way" é ou não o álbum da geração, o que importa é que ele é inesquecível.
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