A triste realidade é que Nicki Minaj não está realmente interessada em lutar pelo movimento negro

Muito que bem, capitalismo.

Foi em julho desse ano que Nicki Minaj, insatisfeita por não ter sido lembrada nas categorias principais do MTV Video Music Awards, usou seu Twitter para criticar a emissora e, enquanto colocava na roda o nome de artistas como Miley Cyrus e Taylor Swift, acusar o racismo da premiação, que não destacou seus feitos com “Anaconda”, mesmo quando os mesmos recordes alcançados por ela foram motivos para exaltarem trabalhos de artistas brancas em outras edições.



Nesse tempo, a mídia fez de tudo pra fazer com que toda a discussão parecesse ser apenas uma rivalidade entre ela e Taylor Swift, colocando um tapete em cima do assunto principal, que era o racismo, e, de forma extremamente decepcionante, Nicki Minaj comprou a ideia, ou melhor dizendo, se vendeu para ela, dividindo o palco com Swift em agosto do mesmo ano, na mesma premiação, enquanto protagonizava uma cena em que elas “faziam as pazes”. 

E, assim, as duas “acabaram” (ênfase nas aspas, por favor) com o racismo na premiação, que sequer voltou a ser discutido.

Na época em que essas discussões estavam em alta, a rapper, que lançou no ano passado o disco “The Pinkprint”, chegou a ser criticada pela Azealia Banks, que acusou Minaj por ~se preocupar~ com o racismo da indústria apenas quando lhe convém, mas ninguém realmente deu atenção para ela, assim como fazem com muitos de seus questionamentos, ainda que sejam realmente válidos, e eis que, antes do ano acabar, a dona de “The Night Is Still Young” deu um tiro no seu pé outra vez.

Acontece que, mesmo após diversas manifestações contra, Nicki Minaj se apresentou no último sábado (19) em um evento natalino na Angola, para um estádio que esgotou seus ingressos, mas com um porém: toda a apresentação foi financiada pela empresa Unitel, que tem como um dos seus proprietários o ditador e presidente do país, José Eduardo dos Santos.


Pode ser que esses assuntos não sejam tão interessantes quanto as indicações ao VMA para Nicki Minaj, mas a gestão de José Eduardo dos Santos acumula diversas acusações da população angolana e Fundação dos Direitos Humanos, sendo as principais delas a intimidação do povo, que já sofreu duras represálias por se manifestarem contra a corrupção de seu governo, e o escancarado desvio do dinheiro público, uma vez que José Eduardo e sua família detém uma imensa fortuna, conquistada desde que ele assumiu o poder do país e controversamente se envolveu de forma pessoal em diversos acordos comerciais, enquanto 70% da população vive com menos de US$2 por dia.

Como uma das maiores artistas negras da atualidade, Nicki Minaj tinha inúmeras razões para recusar se apresentar no evento, financiado por um homem que não se importa em foder com a vida de toda uma população negra, e foi avisada diversas vezes sobre isso, uma vez que fãs e organizações enviaram cartas abertas e petições pedindo pra que a rapper não fosse adiante com esse convite, mas o cachê oferecido pela apresentação parece ter falado alto demais pra que ela os escutasse.

Pelo Instagram, Nicki posou ao lado de Isabel dos Santos, a filha do presidente, se dizendo motivada ao saber que ela era a oitava mulher mais rica do mundo (e também a mulher mais rica da Angola) e agradecendo às “mulheres que me trouxeram para cá”. A rapper só esqueceu de comentar sobre a forma com que a fortuna de Isabel vem sendo construída com a corrupção de seu pai e também sobre o número de negros que não se alimentam, mas alimentam as cruéis estatísticas de pobreza do país, que é o segundo maior produtor de petróleo no continente africano, o que não é celebrável de maneira nenhuma.


Não dá pra negar que Nicki Minaj tem uma vida agitada demais pra a imaginarmos lendo jornais ou assistindo aos noticiários pra saber como anda a situação social e política na Angola, só que a rapper é uma das representantes do movimento “Black Lives Matter” (A vida negra importa) e pareceu bastante por dentro dessas discussões quando um prêmio da MTV estava em jogo, seria esse tipo de discussão menos importante para ela?

Enquanto pensamos nisso, sugerimos que você, leitor desse texto, volte para a primeira linha do mesmo e a tome como uma conclusão plausível para o assunto.
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