Beyoncé está de volta com nada mais, nada menos do que um filme escrito, dirigido e produzido por ela mesma. “Black Is King”, seu novo projeto anunciado neste sábado (28), chega no dia 31 de julho ao Disney+.

De acordo com a Variety, o “Black Is King” vai funcionar como um registro visual do disco “The Gift”, álbum criado por Beyoncé para o remake de “O Rei Leão”, lançado no ano passado.

Em comunicado enviado à imprensa, a Disney e a Parkwood Entertainment, empresa de Beyoncé, contam que o álbum visual surgiu como uma forma de “reimaginar as lições de ‘O Rei Leão’”. Assim, o filme de Bey vai contar a história de um jovem rei africano que conta com a ajuda de seus ancestrais, os ensinamentos de seu pai e os conselhos de seu amor de infância para encontrar seu destino e assumir o trono. Simba ficaria orgulhoso! 

Sempre muito sucinta nas redes sociais, Beyoncé mostrou que o projeto é muito importante para ela ao fazer um texto no Instagram explicando um pouquinho mais sobre o conceito e processo de criação do filme. 





I typically keep comments short and sweet, but I just watched the trailer with my family and I’m excited. 🎶please don’t get me hype🎶🤪 “Black Is King” is a labor of love. It is my passion project that I have been filming, researching and editing day and night for the past year. I’ve given it my all and now it’s yours. It was originally filmed as a companion piece to “The Lion King: The Gift” soundtrack and meant to celebrate the breadth and beauty of Black ancestry. I could never have imagined that a year later, all the hard work that went into this production would serve a greater purpose. The events of 2020 have made the film’s vision and message even more relevant, as people across the world embark on a historic journey. We are all in search of safety and light. Many of us want change. I believe that when Black people tell our own stories, we can shift the axis of the world and tell our REAL history of generational wealth and richness of soul that are not told in our history books. With this visual album, I wanted to present elements of Black history and African tradition, with a modern twist and a universal message, and what it truly means to find your self-identity and build a legacy. I spent a lot of time exploring and absorbing the lessons of past generations and the rich history of different African customs. While working on this film, there were moments where I’ve felt overwhelmed, like many others on my creative team, but it was important to create a film that instills pride and knowledge. I only hope that from watching, you leave feeling inspired to continue building a legacy that impacts the world in an immeasurable way. I pray that everyone sees the beauty and resilience of our people. This is a story of how the people left MOST BROKEN have EXTRAORDINARY gifts.❤️✊🏾 Thank you to Blitz, Emmanuel, Ibra, Jenn, Pierre, Dikayl, Kwasi and all the brilliant creatives. Thank you to all at Disney for giving this Black woman the opportunity to tell this story. This experience has been an affirmation of a grander purpose. My only goal is that you watch it with your family and that it gives you pride. Love y’all, B
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Confira a tradução: 

“Eu normalmente mantenho meus comentários curtos e doces, mas acabei de assistir ao trailer com a minha família e estou animada. “Please don't get me hype”. “Black Is King” é um trabalho feito de amor. É o meu projeto do coração que eu tenho filmado, pesquisado e editado dia e noite pelo último ano. Eu dei a ele tudo de mim e agora é de vocês. Foi originalmente filmado como uma peça de acompanhamento para o disco de trilha sonora “The Lion King: The Gift” para celebrar a amplitude e a beleza da ascendência preta. Eu nunca poderia imaginar que, um ano depois, todo o trabalho duro colocado nesta produção serviria a um propósito maior. 

Os acontecimentos de 2020 fizeram a visão e mensagem deste filme ainda mais relevante, enquanto pessoas ao redor do mundo embarcam em uma jornada histórica. Estamos todos buscando segurança e luz. Muitos de nós querem mudanças. Eu acredito que quando pessoas pretas contam nossas próprias histórias, podemos mudar o eixo do mundo e contar a nossa história REAL de riqueza geracional e riqueza de alma que não é contada nos nossos livros de história. 

Com esse álbum visual, eu quis apresentar elementos da história preta e tradição africana, com um toque moderno e uma mensagem universal, e o que realmente significa encontrar sua própria identidade e construir um legado. 

Eu passei muito tempo explorando e absorvendo lições de gerações passadas e da rica história das diferentes vestimentas africanas. Enquanto trabalhava neste filme, houve momentos em que me senti sobrecarregada, como muitos em meu time criativo, mas foi importante criar um filme que incutisse orgulho e conhecimento. 

Eu apenas espero que, ao assisti-lo, vocês fiquem inspirados a continuar construindo um legado que impacte o mundo de uma forma imensurável. Eu rezo para que todos vejam a beleza e a resiliência do nosso povo. 

Essa é uma história sobre como as pessoas MAIS QUEBRADAS têm dons EXTRAORDINÁRIOS”. 

Por enquanto, ainda não sabemos como nós brasileiros poderemos assistir ao “Black Is King”, já que a plataforma de streaming Disney+ ainda não chegou ao nosso país e deve estrear somente no final do ano. Por aqui, o Prime Video tem sido responsável por transmitir alguns conteúdos da Disney. Quem sabe eles não trazem esse presentinho pro Brasil? Poxa, Amazon, nunca te pedimos nada!

Já que ainda não temos o filme, vamos aquecendo ouvindo o “The Gift” enquanto torcemos para que o  “Black Is King” faça com que o disco seja mais apreciado, afinal, “Brown Skin Girl”, “Water”“Mood 4 Eva” merecem muito serem hits.

Pouco mais de 24 horas desde o lançamento de “How You Like That” e já dá pra dizer que o comeback do BLACKPINK foi um sucesso. As garotas já começaram quebrando recordes e agora são as donas de vídeo mais assistido no YouTube em apenas um dia.



Lançado nessa sexta-feira (26), a superprodução acumulou mais de 82,3 milhões de visualizações em seu dia de estreia, superando o até então detentor do título, o outro grupo de K-pop, BTS, que fez 74,6 milhões de views em 24 horas com “Boy With Luv”, parceria com a Halsey.

E os números incríveis não ficaram apenas no YouTube. No Spotify, ”How You Like That” teve uma ótima estreia. Na parada mundial da plataforma, a canção debutou em #5 com mais de 4 milhões de streams, enquanto no chart dos Estados Unidos ficou em #10 com pouco mais de 762 mil streams acumulados.

“How You Like That” é a primeira amostra do disco de estreia do BLACKPINK, que deve chegar em setembro.
Atenção, este texto possui spoilers de "Love, Victor".
Você está avisado.

Quando "Love, Victor" foi anunciada me perguntei muito sobre o que um derivado de uma obra fechadinha - "Com Amor, Simon" - poderia trazer de relevante que justificasse sua existência. Poucas horas após terminar a maratona da série percebo que havia muito o que contar ainda sobre o universo de Creekwood, e que bom que tudo foi contado. Victor Salazar, interpretado por Michael Cimino, é um personagem muito mais identificável que Simon (Nick Robinson) e sua história se torna bem-vinda por isso.

Criada por Isaac Aptaker e Elizabeth Berger, a série é centrada na jornada de descoberta de Victor quanto a sua orientação sexual em meio ao caos familiar. Nesta jornada, ao contrário do filme - não usarei o livro como referencia, o romance vivido por Victor em alguns momentos não parece ser tão importante, mas algo que o ajuda a entender quem ele é e descobrir o quão despreparado está para se aceitar.

Seu despreparo parte muito mais de fatores externos do que internos, começando pela sua família. Victor, irmãos e pais se mudam devido a uma oportunidade de trabalho dada ao pai Armando (James Martinez), mas não demoramos muito para descobrir o real motivo da mudança - Isabela (Ana Ortiz), mãe de Victor, traiu o pai com seu chefe e o pai agrediu o amante. A família é bem religiosa e o pai dá alguns indícios de que não quer ter algum filho homossexual.

Além da família, a escola Creekwood mudou. O cenário LGBT-friendly apresentado em "Com Amor, Simon" não existe mais. Ao invés de avançar, regrediu. Há homofóbicos na escola e até mesmo o melhor amigo de Victor, Felix (Anthony Turpel), dá um toque sobre a orientação sexual de Benji (George Sear) - o futuro par romântico - para, como ele diz, "não terem a impressão errada". Felix, todavia, dá total apoio a Victor quando descobre sobre sua orientação sexual.


Como todos os problemas apresentados, Victor não vê qualquer outra solução a não ser namorar uma garota mais popular da escola, Mia. É interessante ver como esse relacionamento se desenvolve porque, em alguns momentos, você acredita junto de Victor que está gostando do namoro, mas é justamente junto com ele que o espectador percebe o erro que está cometendo. Uma pena que tal percepção vem somente quando ele trai Mia com Benji na metade da temporada.

Tudo isso acontece em meio a troca de mensagens entre Victor e Simon. A troca começa quando Victor manda uma mensagem no Instagram extremamente frustado pela escola não ser aquilo que esperava e ainda pontua que Simon foi bem sortudo. Simon, por fim, acaba se tornando um conselheiro para Victor, o que acaba culminando para o melhor episódio da série: o crossover com o filme.

A participação de Keiynan Lonsdale como Bram já havia sido confirmada pelo material de divulgação do filme, mas surpresa foi ver Nick Robinson muito além de um simples áudio de mensagem. É bacana ver o cuidado da série teve em evoluir gradativamente as ligações com o filme e a cena dos dois juntos é de dar quentinho no coração.


O episódio em que o crossover realmente acontece é o mais importante entre os dez. É nele em que Victor realmente começa a se aceitar e entender que o mundo gay não é também um mero esteriótipo. O diálogo entre Victor e o personagem de Tommy Dorfman ("13 Reasons Why") é extremamente tocante e necessário.

Victor começa a se aceitar em meio ao caos que o cerca e que parcialmente ajudou a construir.


Victor começa a se aceitar em meio ao caos que o cerca e que parcialmente ajudou a construir. O meme "deu tudo errado" faz muito sentido para essa série. O casamento dos pais começa a desmoronar, o aniversário de Victor não sai como o planejado graças a um avô homofóbico, ele beija um cara comprometido e também se sente culpado por enganar a namorada que tanto o apoia e que, sim, ele admira.

O grito final "eu sou gay" acontece somente nos últimos segundos do último episódio, quando Victor está farto de carregar não somente os seus problemas como também dos demais. É impactante sua fala e o corte para marcar o fim é genial. A jornada chega ao fim, mas abre espaço para uma nova história que não vemos a hora de poder conferir.

Para além da jornada de Victor, o casal Felix e Lake (Bebe Wood) ganham espaço no decorrer da história. Felix, aliás, é um personagem extremamente carismático e é divertido o acompanhar em sua busca por amor. O drama entre Armando e Isabela também é interessante e dá um ar de maturidade para uma série destinada a adolescentes.


Por fim, "Love, Victor" encanta ao mesmo tempo que traz debates interessantes sobre a descoberta de um jovem gay, além de como ele lida com os problemas de sua família a ponto de fingir que está tudo bem como ele. Uma pena que a série está disponibilizada apenas no Hulu e não no Disney+, conforme estava previsto. Talvez a série seja gay demais para a Casa do Mickey.

Prontas para dominar o mundo, as garotas do BLACKPINK estão oficialmente de volta com a faixa “How You Like That”, liberada no início dessa sexta-feira (26). A canção funciona como um pré-single para o lançamento do disco completo do quarteto, que está previsto para setembro. 

Podemos dizer que nessa nova amostra, Jennie, Jisoo, Lisa e Rosé encontraram seu som, porque “How You Like That” segue uma proposta parecida com os de outros grandes hits do grupo, como “Ddu-Du Ddu-Du” e “Kill This Love”. Apesar de ser uma aposta mais segura, entendemos que é uma boa maneira de iniciar uma era que tecnicamente será a primeira das garotas - afinal, elas ainda não tem nem um full-album para chamar de seu.



Se a música pode não ter sido tão ousada e diferente do que costumamos ouvir do BLACKPINK, o videoclipe certamente não vai decepcionar a ninguém. Prometendo grandes produções e entregando, como um bom grupo e K-pop que são, as meninas serviram muitos looks e coreografia no vídeo da faixa, lançado junto com a música.

De cenários que mais parecem florestas até lugares gelados com muita neve, passando por feiras árabes e salões com muito fogo, as meninas parecem rodar o mundo enquanto assumem a forma dos quatro elementos da natureza. Sim, elas são MESMO a revolução.



BLACKPINK IN YOUR AREA! 
Selena Gomez lembrou que é cantora, mas esqueceu que lançou o "Rare". Isso porquê, nessa sexta-feira (26), a artista deu o ar da graça em uma nova canção: um remix de "Past Life", do novato Trevor Daniel

Presente no "Nicotine", disco de estreia de cantor, "Past Life" funciona muito bem em sua versão com Selena. Mais acústica e romântica, com um letra bem introspectiva e nostálgica, a canção ficou com aquela carinha de final de tarde de verão e tem tudo pra ser um hit pelos Estados Unidos, que acaba de entrar nessa estação. 

E pra provar que tem muito orgulho de também ser Instagrammer, Selena lançou um lyric video para a música todo feito no estilo live no aplicativo.


Ficou uma gracinha, né? A gente até perdoa o descaso com o "Rare". 

Atenção: a crítica contém spoilers.

De tempos em tempos, alguma criatura ressurge com força total na cultura mainstream. Nenhuma delas está mais saturada do que os vampiros, sabemos, com zumbis estando um pouco atrás. A série “The Walking Dead” está desde 2010 injetando os mortos-vivos na tevê, sendo o maior expoente da criatura na atualidade. Quando pegamos algo tão batido, só enxergo real necessidade se a abordagem trouxer algo verdadeiramente original, como “Amantes Eternos” (2013) com vampiros e “Os Famintos” (2017) com zumbis.

Fiquei bastante curioso com o anúncio de “Reality Z”, nova série original da Netflix. Mais uma produção brasileira na plataforma – seguindo “3%” (2016-) e “O Mecanismo” (2018-), para citar algumas –, o que traz o diferencial de “Reality Z” é a temática. Se em um contexto geral os zumbis são figurinhas carimbadas há décadas, na arte brasileira ainda é elemento raro. Por algum motivo, nossa indústria não gera tantas fitas com o gênero terror, vendo-o desabrochar com maior efusão nos últimos tempos, o que garante o interesse.

“Reality Z” é um remake da série britânica “Dead Set” (2008). Criada por Charlie Brooker – a mente por trás do hit “Black Mirror” (2011-) –, “Dead Set” é uma sátira do “Big Brother”, colocando participantes reais para interpretarem eles mesmos durante o apocalipse zumbi – “Reality Z” pegou apenas a premissa, readaptando-a. Os cinco primeiros episódios são ligados diretamente aos cinco (e únicos) episódios de “Dead Set”, com os cinco restantes sendo originais. 

Em terras tupiniquins, o seriado se passa no Rio de Janeiro. Lá é sede do “Olimpo”, o maior reality da tevê nacional: é basicamente um “Big Brother”, mas os participantes “interpretam” deuses da mitologia grega. Por quê? Eis uma boa questão. A base de “Reality Z” enquanto trama gira ao redor do “Olimpo” – a casa falsa dos deuses é, de certa forma, a protagonista de tudo –, todavia, tudo o que passava pela minha cabeça era: “Como inventaram um reality (apesar de fictício) tão ruim?”.


E nem falo “ruim” no sentido de “é tão ruim que com certeza venderia”, e sim “ruim” como criatividade. A fundamentação do reality (o porquê do formato) é fraquíssima, e, mesmo fictícia, difícil de imaginar alguém assistindo. Toda a história de deuses é totalmente descartável, apenas uma ideia (bem rasteira) para enfeitar e tentar fugir de ser mais um reality convencional. A cereja do bolo é a apresentadora, Divina (“interpretada”, sim, entre aspas, por Sabrina Sato).

A escolha de Sato é tanto mercadológica como metalinguística. É divertido ver que ela participou do real “Big Brother Brasil”, no entanto, a apresentadora está ali como chamariz de público – ela estampa várias artes promocionais da série, apesar de durar bem pouco no enredo. Eu não encontro problemas em escalações de globais quando há uma sólida justificativa baseada no talento, e, perdão caso soe ríspido, não é minha intenção, talento para a atuação não se encontra presente em Sato diante da tela. Aliás, não se encontra na maior parte do corpo de atores.

A trama de “Reality Z” se desenrola em três vertentes – que se chocarão em algum momento. Levi (Emílio de Mello), um deputado corrupto e sua comitiva, suborna policiais para o tirarem do meio de um ataque; Ana (Carla Ribas), engenheira-chefe da construção do Olimpo, e seu filho Léo (Ravel Andrade) veem que as instalações do reality são a via de salvação; e Nina (Ana Hartmann), produtora do “Olimpo” que está dentro do prédio sem saber o inferno que acontece lá fora.

Os cinco primeiros episódios são focados em Nina e os participantes do “Olimpo”. Há poucos exemplos de redenção ali quando as performances são sofríveis. Para tornar o resultado ainda pior, o roteiro não tem sutilezas em transformar os personagens em completos imbecis que tomarão as decisões mais absurdas possíveis, condenando o destino de todos. Os “deuses” são criados em cima de estereótipos absolutamente clichês e unidimensionais – o malhado tapado e preconceituoso contra a travesti piedosa, o velho sexualmente reprimido contra a gostosa que vive na academia, etc.

Quem controla todo o jogo é Brandão (Guilherme Weber), o Boninho do “Olimpo”. Na minha crítica de “A Ilha da Fantasia” (2020), falei que o vilão do longa era o pior que havia encontrado em muito tempo; pois ele pode dormir sossegado que o título passou para Brandão. Nem me refiro à atuação de Weber, e sim à construção do personagem. Ele não é insuportável porque foi refinadamente pensado para assim ser (tenho uma lista especificamente acerca, com personagens criados para odiarmos), é insuportável por ser tão mal feito. De ser injustificadamente cruel até arrotar e defecar na frente de mocinhas loiras que choram pedindo pela mãe (?), o texto força ao extremo a figura de malvado, levando-o à uma caricatura ambulante que consegue ser a pior coisa pensada ali dentro. Cada cena em que ele está na tela é uma tortura – principalmente porque em vários momentos Divina está com ele - seja viva ou em formato de zumbi (Sato é morta em câmera-lenta, eeerrrr).


A partir do sexto episódio, o foco passa a ser sobre Ana e Levi, os dois polos da luta do bem contra o mal. Como era de se esperar, as composições são preguiçosas e não conseguem levar a história ao rumo que deveria ir. Um dos acertos da segunda metade do seriado é a diferenciação particular que “Reality Z” tem do seu derivado britânico: as discussões de classe e raça. No carro dos policiais que Levi suborna havia Teresa (Luellem de Castro), uma mulher negra presa que será uma das protagonistas na luta contra os zumbis. Ela é a porta-voz do bom-senso no meio das insanidades conduzidas por Levi e é constantemente vítima de racismo pelos outros. Na luta extrema pela sobrevivência, a mulher preta não se surpreende em se ver na posição de descartável - o que é um bom estudo a ser entregue ao público.

Porém, apesar das discussões racializadas (que poderiam ser bem maiores e mais contundentes), há três passagens específicas que possuem um padrão meio desconcertante. Dentro do Olimpo há apenas uma participante negra, e ela é a primeira a morrer. Em uma abordagem policial fora de um supermercado, há cinco pessoas; três vindos do Olimpo, um policial branco e um negro, e o negro é o primeiro a morrer. Na chegada de Levi com a polícia no Olimpo, o motorista é um policial negro, e ele é o primeiro (e único) a morrer ali. Coincidência ou não, isso segue uma tradição em obras de terror em que personagens negros são os primeiros a morrerem, e só me questionava o porquê.

Já levantei uma hipótese em algum dos inúmeros textos desta coluna, e várias recepções sobre “Reality Z” tendem a fomentá-la: quando falada na nossa língua materna, conseguimos perceber atuações ruins com mais afinco. Vi vários comentários muito positivos de expectadores internacionais sobre as performances em “Reality Z”, mas pensemos: como podemos captar as nuances de fala e atuação em uma língua que não dominamos? Um filme em húngaro dificilmente será assimilado por nós da mesma forma que uma película brasileira, por isso, tendemos a ser mais críticos com algo próximo por sabermos como aquelas pessoas agem de verdade – e não estou apontando a “Síndrome de Vira-lata”, que rejeita qualquer coisa só por ser local, e sim do simples fato de que temos o português brasileiro como língua materna. Roteiros nacionais precisam parar de fazer com que seus atores falem da mesma maneira que escrevemos.

Pensando que não teria salvação, “Reality Z” me surpreendeu demais com as escolhas do episódio final, introduzindo trama com uma milícia que ameaça invadir o Olimpo. Toda a criatividade que mal aparecia nos nove episódios anteriores é derramada na finale, que tem plot-twists divertidos e não possui pena dos personagens, finalmente injetando uma sensação de perigo. Achei muito acertada a decisão de salvar nenhum dos personagens, o que provavelmente aconteceria com um mar de zumbis invadindo. A cena final ainda finca um gancho para uma continuação que, caso replique a engenhosidade da conclusão, será bem-vinda.

Realmente me doía ver o quanto estava desgostoso com “Reality Z”: sou um grande entusiasta de qualquer pessoa que desbrave o mercado audiovisual nesse país que ainda põe a cultura em um patamar de menor importância. Qualquer tentativa é bem-sucedida só por conseguir existir. Apesar de ser um seriado distante de uma mercadoria de qualidade – com exceção da ótima maquiagem dos zumbis – e não funcionar como entretenimento trash por se levar a sério demais para ser classificada como tal, “Reality Z” deve ser assistida para fortalecer as produções de gênero no nosso mercado, carente de exemplares do terror.

P.S.: caso exista em segunda temporada, produtores, um apelo: não façam mais cenas de ação com câmera de mão + slow motion. Obrigado.


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