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Com apenas três episódios, sendo a fase mais curta desde 2013, a quinta temporada de “Black Mirror” estreou há quase um ano na Netflix e, até o momento, ainda não há confirmação de quando a 6ª temporada vai chegar ao streaming.

Com um enredo filtrado em ficção científica e distopia, a produção caiu no gosto do público por apresentar histórias que ainda são incomuns à sociedade moderna, como as consequências da evolução tecnológica para daqui uns anos.

Fora da Netflix, outras séries despontam para tramas similares, como o revival de “The Twilight Zone” e “Upload”, que chegou à plataforma da Amazon Prime Video na última sexta-feira (1). Confira:

The Twilight Zone (2019 -)


A ficção científica de “Black Mirror” não tem a mesma intensidade na nova versão de “The Twilight Zone” - uma ressalva para episódios como “Um Viajante”, por exemplo. Apesar disso, as séries apresentam muitas semelhanças entre si.

Aqui, cada episódio conta uma história diferente, os personagens têm que lidar com as consequências de seus atos e alguns roteiros beiram uma mistura da realidade com distopia.

Outro detalhe interessante - e importante - de “The Twilight Zone (2019)”, que teve sua versão original lançada em 1959, criada por Rod Serling e dirigida por Stuart Rosenberg, é a participação de Jordan Peele, produtor-executivo e uma espécie de “apresentador/narrador” em todos os 10 episódios da produção.

“Upload” (2020 - )


Se “The Twilight Zone estava ao lado de “Black Mirror” principalmente na divisão de episódios, “Upload” é totalmente voltada à ficção científica e revolução tecnológica.

A produção lançada na última sexta-feira (1), gira em torno de um futuro próximo, em 2033, onde os seres humanos podem se “carregar” para uma pós-vida em um paraíso pago.

Em meio à essa inovação, conhecemos Nathan (Robbie Amell), um rapaz de 27 anos que morre acidentalmente e é auxiliado por Nora (Andy Allo), uma assistente na Horizen, empresa responsável pelos uploads na pós-vida.

A série não tem a intensidade dramática das outras produções citadas, mas aborda muito sobre como será o nosso futuro, até mesmo depois da morte.

Além disso, Upload entrega um apelo cômico muito interessante, principalmente nas cenas de Aleesha (Zainab Johnson), uma colega de trabalho de Nora.
A marca gigantesca que é "Black Mirror" não começou com tanta influência; nas primeiras temporadas, seus lançamentos são viravam o tópico central da semana ao redor do mundo como é agora. As duas primeiras temporadas foram lançadas pela Channel 4, que, apesar de ser um cultuado canal da tevê britânica, não alavancava "Black Mirror" como uma das grandes sérias da grade televisiva.

Conheci "Black Mirror" em 2013, após sua segunda temporada, e me impressionei como algo tão inteligente ainda não havia caído no gosto do grande público. A coisa mudou quando a Netflix comprou os direitos de produção do seriado. A partir de 2016, a antologia virou pauta fixa do calendário da plataforma, que cria um verdadeiro evento quando joga cada material na roda.

Depois de 18 episódios, um especial e um filme ("Bandersnatch", 2018), a quinta temporada da série chegou no último dia 5 na Netflix. Composta por três episódios, é o menor número de lançamentos sob o selo da gigante - mas é exatamente o mesmo número das duas primeiras temporadas. É fato que aqui no Cinematofagia eu nunca escrevi sobre séries, porém, cada episódio de "Black Mirror" é como um filme, todos interligados pela premissa central do todo - estudar nossa relação com a tecnologia -, o que permite que eu possa escrever sobre.

Pois bem, vou dividir o presente texto entre os três episódios e analisá-los separadamente, antes de fazer a conclusão sobre a temporada como um todo. Nosso futuro será brilhante?

Striking Vipers: g0ys em seu habitat natural

O primeiro episódio da temporada, "Striking Vipers", já se destaca por ser inteiramente interpretado por atores negros. Danny (Anthony Mackie) é casado com Theo (Nicole Beharie), e ganha de seu amigo Karl (Yahya Abdul-Mateen II) um jogo em realidade virtual. O diferencial do tal jogo é que sua tecnologia permite que os jogadores sintam fisicamente os passos dos personagens. Uma espécie de "Mortal Kombat" futurístico, Danny escolhe um personagem Lance (interpretado no jogo por Ludi Lin), enquanto Karl escolhe Roxette (Pom Klementieff). É hora da porrada.


Os dois começam lentamente, se acostumando com a realidade aumentada da plataforma, e descobrindo que tudo o que é sentido no virtual é replicado no real. É então que os dois, por meio de seus personagens, fazem sexo. A interação vai causar um estranhamento óbvio, só que ambos acabam viciando naquilo, sempre entrando no jogo para transarem - o que é bizarramente curioso. O que começa a derrubar esse universo é a forma paupérrima que o jogo é feito na tela: parece mais o live-action de "Dragon Ball" - o desastroso "Dragonball Evolution" (2009) - de tão ruim.

A crítica do episódio é bem direta: até aonde vamos com essa reposição da existência pelo meio do digital? A fissura dos protagonistas é tamanha que eles se satisfazem sexualmente apenas se o orgasmo for naquela combinação binária - e Theo sente os efeitos-colaterais da brincadeira, já que Danny cada dia mais a procura com menos frequência.

"Striking Vipers" sofre do mal de produção quando a ideia é incrível no papel, não na tela. A hiperbolização da vida artificial que já sofremos hoje mesmo - há quem se perca nos esforços diários para construir uma vida perfeita pelo Instagram - só alcança um determinado ponto de reflexão, deixando de lado os aspectos mais interessantes que a trama em específico costura.


Os dois protagonistas são homens negros, mas seus avatares dentro do game são asiáticos. A atração sexual mútua ali é fomentada a partir das características físicas dos personagens, o que é uma semente fértil para discussões de raça, que nem ao menos são levadas em conta dentro do enredo. Além disso, a personagem de Karl é feminina, e ele transa (e sente) como mulher. Há uma rápida pontuação em um diálogo, mas as questões de gênero também são descartáveis para o todo. Danny e Karl fomentam uma relação com características tão diferentes das reais e nem ao menos parecem se perguntar o porquê.

O episódio prefere passar intermináveis minutos num jogo de gato e rato: ora Danny tem interesse em continuar a "brincadeira", ora percebe que aquilo é errado; todavia, o "errado" para ele soa muito mais porque está fazendo com um homem do que desviando seu apetite sexual em detrimento da esposa. "Black Mirror" pegou a cultura dos g0ys em um episódio de 60 minutos, só na broderagem e sem frescura.

O melhor de todo esse desperdício é que "Striking Vipers" foi inteiramente filmado em São Paulo - e é bem divertido reconhecer a cidade nas diversas locações.

Smithereens: a pior corrida de Uber já escrita

"Smithereens" é um dos poucos episódios de "Black Mirror" a se passar no presente - ou, no caso, levemente no passado, já que a história acontece em 2018 -; outros exemplos são "The National Anthem" na primeira temporada, e "Shut Up And Dance", na terceira (coincidentemente, esses são meus dois episódios favoritos de toda a trajetória do seriado).

Dessa vez seguimos Chris (Andrew Scott), motorista de um aplicativo como o Uber. Ele estaciona ansiosamente na frente da Smithereen, empresa de comunicação, e sempre aceita imediatamente as corridas de quem sai de lá. Um dia ele sequestra Jaden (Damson Idris), estagiário do conglomerado. Chris diz que matará Jaden caso não consiga o telefone de Billy Bauer (Topher Grace), o dono da Smithereen.


O episódio é um filme de suspense legítimo, daqueles que passam nos Supercines da vida. Chris é seguido pela polícia, até ameaçar matar Jaden, o que gera uma corrida contra o tempo a nível nacional. Enquanto isso, a ligação passa de mão em mão dentro da Smithereens, subindo de degrau na hierarquia até chegar no CEO, que convenientemente está num retiro espiritual - ou seja lá o que - e sem contato com o resto do mundo.

O primeiro grande problema do episódio é sua duração: 70 minutos. Não há a menor necessidade deste tamanho para o enredo escolhido, e isso fica claro quando Chris está dentro do carro com a polícia na sua cola e nada acontece. Há pequenas sub-tramas para enfeitar o eixo, como uns adolescentes que estão tirando foto do local e postando nas redes sociais, porque claro, a polícia deixou dois meninos no meio de uma cena de crime com um homem armado ameaçando atirar.

É inegável que o episódio consegue demandar a atenção - ou pelo menos o interesse - da plateia, mesmo com tantas inconsistências sendo acumuladas (não entendo o motivo de moldarem Chris como um neurótico cômico que dá surtos dignos do "Zorra Total"). Mas seguimos firmes, até o momento fatídico chega: Chris consegue falar com Billy. Por que ele faz tanta questão? O que aconteceu para o levar até ali?

E a resposta não poderia ser pior: Chris sentia a obrigação de falar com Billy pois ele é o dono do aplicativo que o protagonista usava enquanto dirigia, o que causou um acidente e a morte da esposa. Sim, o personagem sequestrou e ameaçou um inocente porque precisava ligar para uma pessoa que tem a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e nada a ver com tudo o que aconteceu, a fim de expurgar sua culpa. Essa é a brilhante resolução do mistério.


Em artes narrativas, a motivação é centro gravitacional de qualquer história. Por que a última temporada de "Game of Thrones" foi (merecidamente) tão massacrada? Porque os roteiristas criaram motivações incompatíveis para os acontecimentos e toda a construção de seus personagens. A motivação é aquilo que justifica a existência de uma trama, afinal, um personagem só faz X ação por ter algum motivo, por buscar uma conclusão que case com tal ação.

Com essa motivação porca, a existência de "Smithereens" é aniquilada. Todas as boas ideias se perdem, rodeadas de tantos momentos ruins - há uma sub-trama maravilhosa, a da mãe que desesperadamente tenta descobrir a senha de uma rede social da filha, que se suicidou alguns meses antes. E, ao mesmo tempo, há forte cunho religioso no episódio quando Chris precisa se "confessar" para Billy, que é posto em uma casa inteiramente de vidro no ponto mais alto e deserto encontrado. Há precisa composição para evocar a ideia de divindade no personagem (os compridos e louros cabelos, por exemplo), o ser superior e onipotente, contudo, a metáfora também não funciona quando a motivação geral é tão desproposital.

O ódio do protagonista pela geração que está hipnotizada pelos smartphones poderia receber um tratamento menos pobre que esse.

Rachel, Jack and Ashley Too: o sepultamento de "Black Mirror" ao virar "Sessão da Tarde"

E o episódio final da temporada tem como protagonistas Rachel (Angourie Rice, de "Todo Dia", 2018) e sua irmã Jack (Madison Davenport). Após a morte da mãe, as duas vão se enclausurando em seus mundo, imageticamente construído a partir do quarto: de um lado, a alternativa/wannabe-gótica Jack; e do outro, a colorida e pueril Rachel. Esta, carente de autoconfiança, vê em Ashley O (Miley Cyrus) tudo o que queria ter como personalidade. Ashley é a estrela pop teen do momento, cantando, com suas músicas grudentas, sobre sonhos e perseverança.

Rachel então ganha o lançamento do momento: uma Ashley Too, robô com inteligência artificial que fala como a cantora real, que se torna sua melhor amiga. Rachel conversa sobre suas inseguranças com a robô, que a aconselha a entrar em um concurso de talentos na escola, fadado ao fracasso. Se há uma palavra que resuma com esmero a trama central do episódio, essa palavra é "patética".


A protagonista, com 15 anos, parece na verdade ter 7. Há uma breguice latente ao redor de sua história, a pobre garotinha que não se encaixa na escola por não ter autoestima o suficiente e tem a ajuda de uma robô, sua fada madrinha computadorizada. É tudo ridículo, da interação entre as duas às frases de efeito retiradas dos mais batidos livros de "autoajuda".

Concomitantemente, entramos na vida de Ashley, que tem como empresária sua tia, Catherine (Susan Pourfar). A tia está focada em manter o sucesso da sobrinha a todo o custo, mas Ashley está cansada do molde fabricado que é sua carreira. Há uma palpável guerra fria entre as duas, principalmente porque Catherine obriga Ashley a tomar remédios. Quando descobre que a menina há tempos não toma a medicação, a tia a droga, simulando um coma para que seja criada um holograma de Ashley, a próxima aposta comercial que vai encher os bolsos da equipe.

Uma vertente de filmes/séries sobre o estrelado que adoro é quando a história foca nos bastidores da fama. Nomes como "Cisne Negro" (2010) e "Demônio de Neon" (2016) são exemplos da desglamourização de carreiras artísticas, no entanto, o mesmo aspecto é mastigado em "RJ&AT". Há diversas decisões que o roteiro assume que não fazem o menor sentido: por exemplo, Ashley, ao não tomar os remédios, os guarda numa caixinha. Por que ela simplesmente não joga fora? Ela prefere guardar todas as provas que, óbvio, serão encontradas pela tia. É um gancho narrativo burro para empurrar a história.


Durante a notícia do coma de Ashley, a robô "acorda" e sofre (?) com o anúncio. As irmãs, que passam o episódio todo brigando por causa da robô (Jack acha tudo aquilo uma babaquice, sensata), se unem para salvá-la, desbloqueando a "consciência" total da AI, que se torna..........Miley na era "Bangerz". A robô, agora completamente autônoma, xinga e dá ordens, só faltou fazer twerk e a língua de fora.

A gangue parte para a mansão de Ashley, com o plano de resgatar a menina. É então que o episódio vira um clássico do "Scooby-Doo", recheado de alívios cômicos, artimanhas, vilões e aventuras. O final, a cereja do bolo desse desastre, mostra Ashley finalmente encontrando seu "eu" artístico e cantando rock alternativo. Não desistam dos seus sonhos, meninas! Vergonhoso.

Entre armadilhas para ratos e lições de moral de filmes infantis, há apenas um bom aspecto de todo esse caos: há um bem-vindo paralelo entre a vida de Ashley e a de Britney Spears. Estamos em meio ao movimento "Free Britney", surgido após acusações de que o pai de Spears, que serve como seu guardião jurídico, internou a cantora contra sua vontade após a mesma se recusar a tomar suas mediações - mais ou menos o mesmo que acontece no episódio. É uma boa discussão acerca da integridade de estrelas em detrimento de uma indústria, e a luz no fim do túnel dessa que é a pior mercadoria já produzida sob o selo "Black Mirror".

***


Muito se fala sobre "Black Mirror" ter baixado o nível após a migração para a Netflix; a afirmativa nem se deita sobre a síndrome do cult, aquele que deixa de gostar de algo por ser popular. É fato que, mesmo sob as asas do Channel 4, houveram episódios bons e ruins, contudo, o efeito é mais forte quando estamos falando em uma das maiores empresas de entretenimento do mundo. Os erros ficam menos perdoáveis quando existe capital e potencial mais que o suficiente para algo competente ser realizado.

A quinta temporada de "Black Mirror" é uma mácula irremediável em uma série tão brilhante, e continuação da queda meteórica vista desde a quarta temporada, cheia de episódios fracos, e com o filme, uma lástima. Se por um lado a Netflix é dona da melhor temporada do seriado - a terceira, fabulosa -, agora deve aguentar o peso de possuir uma que não consegue salvar um mísero episódio. Os números de audiência com certeza ainda estão nas alturas, e só posso esperar que isso não seja conclusão concreta para a plataforma de que o trabalho aqui está sendo bem feito. Tirando os aspectos técnicos - o design de produção segue perfeito -, não está, nem de longe.

Goste de “Black Mirror” ou não, você assistiu e comentou sobre pelo menos uma de suas temporadas por alguma rede social nos últimos anos. Uma das produções mais hypadas da Netflix, a série nunca termina quando seu episódio chega ao fim e, em sua mais recente cartada, o filme interativo “Bandersnatch”, não foi diferente.

A proposta do longa não é das mais novas: como no clássico global dos anos 90, “Você decide”, a trama desenrola conforme nossas escolhas. Ou, por assim dizer, conforme as escolhas que a plataforma espera – e muitas vezes, induz – que façamos.

Assim como as temporadas anteriores, “Bandersnatch” utiliza da tecnologia para tecer uma crítica que ultrapassa limites de tempo, espaço e universos. Logo, apesar da história se passar em 1984 (o ano que deu nome ao romance de George Orwell, do qual nasceu o “Big Brother” e a expressão “o grande irmão está te assistindo”, que falava sobre o controle e manipulação de um governo autoritário sob uma sociedade diariamente vigiada), passado, presente e futuro se confundem com a linha do tempo narrada. E, quando menos esperamos, nós e a própria Netflix nos tornamos partes da história e de qualquer coisa que possa vir a dar errado dentro dela. 


Desta forma, confundindo – ou mesclando, como você preferir – o lado de cá e de lá da tela, “Bandersnatch” acompanha a trajetória de Stefan: um jovem programador que fica obcecado por um livro de aventuras interativas que leva o mesmo nome do filme e, numa maneira de modernizar a iniciativa, transforma-o num jogo em que os usuários podem opinar nos rumos da história. Assim como o filme, assim como a atração da Globo dos anos 90.

Com o desenrolar da trama, entretanto, a personalidade e estado mental do jovem se aproximam do autor do livro fictício “Bandersnatch”, Jerome F. Davis, que, na história, teria sofrido um colapso durante a criação do livro e assassinado a sua esposa, qual acreditava ser uma agente secreta do governo americano colocada em sua casa pra vigiá-lo. E, neste cenário de confusões, o próprio Stefan passa a surtar e refletir essa bagunça mental em seu jogo.

O que fica perceptível logo de cara é que “Bandersnatch” não é tão guiado pelo espectador quanto alguns esperavam. Suas escolhas ramificam as narrativas que te levarão aos vários finais alternativos da história, mas, tão logo você segue um caminho não previsto ou almejado pela Netflix, a história retorna para algum ponto crucial, até que você repense suas escolhas e faça a escolha deles. E ao contrário do que motivou tantas críticas, é exatamente aqui que eles acertam. “Bandersnatch” não é sobre estar no controle, mas, sim, ser controlado.

Todos os universos e histórias exploradas por “Black Mirror” sempre tiveram como ponto central alguma crítica à tecnologia ou a maneira como a sociedade lida com ela atualmente e, na realidade de “Bandersnatch”, assumimos tanto o papel de vítima – somos forçados a fazer escolhas que não concordamos, mas que precisamos fazer para sairmos de seu labirinto –  quanto de vilões – nossas escolhas, em certos pontos, passam a fazer mal ao personagem central. É praticamente impossível passar pelo filme sem tirar a vida de pelo menos uma pessoa. Nos satisfazendo com a menor das aberturas de estarmos controlando algo, enquanto apenas somos guiados dentro de seus roteiros. Algo familiar para uma realidade habituada ao “on-demand” (inglês para “sob demanda”), mas com acesso limitado ao que definem os algoritmos, presentes na Netflix, Spotify, Youtube, Facebook e até mesmo suas pesquisas do Google.


O falso controle aos espectadores não deveria ser visto com surpresa. Em seu trailer, “Bandersnatch” enfatiza a fala de uma senhora, numa propaganda de tevê, que avisa: “você não está no controle.” Já no longa, um dos personagens mais esclarecidos sobre o universo explorado, o programador de jogos Colin Ritman, protagoniza um monólogo maravilhoso num momento de mútua alucinação e lucidez, causado por uma droga que ele diz usar para “sair do buraco” – estado utilizado pelo filme para descrever os momentos em que você se vê preso no labirinto, sem saber quais escolhas fazer.

Longe de não ter falhas, a proposta do filme pode ficar cansativa para quem se recusar a seguir as escolhas da plataforma e, num momento que transborda vergonha alheia, se utiliza de metalinguagem descartável para criar um alívio cômico que acaba meio solto para o tom da trama. Mas, num geral, e, principalmente, sendo um dos primeiros passos da plataforma neste segmento, é um produto que entrega o que propõe. E que, sendo em “Black Mirror”, te obriga a consumir e falar sobre isso.

Que outra produção da casa seria capaz de te fazer ligar a TV – o filme não é compatível com diversos modelos de smartphones – e usar o controle remoto, apenas para te dizer que você é quem está sendo controlado?

Em seu formato convencional, a quinta temporada de “Black Mirror” estreará ainda neste ano. Segundo seus criadores, suas novas histórias continuarão girando em torno da tecnologia e seus efeitos sob a sociedade, mas deverão contar também com histórias felizes, não se limitando ao tom distópico que ditou a série até aqui.
Mais um fim do ano, mais "Black Mirror" na Netflix - e, não é de se estranhar -, mais debates sobre o mesmo assunto pelas redes sociais. Dessa vez, ao invés de uma temporada e seus episódios, a franquia (já podemos chamar assim?) lançou um filme, "Bandersnatch". O diferencial da vez foi o formato do longa: ele é um filme interativo, ou seja, o público recebe opções de escolhas para conduzir a história. Parece legal, não?

Sim, parece. No filme, Stefan (Fionn Whitehead, de "Dunkirk") é um programador que está adaptando o livro "Bandersnatch" em 1984 (o ano é sugestivo). A questão é que o autor do livro surtou ao escrevê-lo e assassinou a esposa, virando um ícone de insanidade sofrida devido à sua obra, e o mesmo efeito começa a abater Stefan e seu jogo. Durante a passagem da obra, ela pergunta ao espectador diversas coisas (se seu dispositivo tiver a opção de interatividade, caso contrário, um filme "convencional" será exibido), desde o que o protagonista vai comer até se ele aceita ou não um emprego, mudando os rumos do mesmo.


A tecnologia é interessante, mas os filmes interativos já existem há décadas: o primeiro deles foi o tcheco "Kinoautomat" (1967); em determinados momentos, um apresentador surgia na sala de cinema e fazia uma votação com a plateia para decidir qual o próximo passo do enredo. Óbvio que a tecnologia que separa "Kinoautomat" e "Bandersnatch" é grande, mas a premissa é a mesma.

Muito já se discutiu sobre a natureza do filme interativo: seria um avanço na linguagem cinematográfica ou outra forma de arte? O consenso nunca foi atingido, porém, para mim, "Bandersnatch" não é cinema, e sim um videogame. O próprio formato é conhecido como "movie game", mas não dá para configurar como uma mistura dos dois. Um jogo é, assim como um filme, uma narrativa que conta determinada história, seja ela complexa ou não; até um "Pac-Man" está contando alguma coisa. O que difere essas artes: a questão do controle de trama.


Se você pode controlar a história, é um videogame, não cinema. Um dos argumentos que diz que um "Bandersnatch" está na Sétima Arte é o fato de ser feito com pessoas reais, não gráficos, o que não sustenta a afirmativa. Então um longa-metragem em animação com interação não é mais um filme - por não ser um live action

Não me leve a mal, não estou diminuindo "Bandersnatch" ao não chamá-lo de cinema, não há arte superior a outra, e videogames - que sim, é uma arte - tem seu valor como qualquer uma. O meu ponto é, além de levantar essa discussão, deixar claro o quão difícil foi analisar o projeto - sou crítico de cinema, não de games. Pensei muito em nem escrever essa crítica, contudo, decidi fazê-la pela produção se autodenominar cinema e para explorar seus aspectos narrativos. Na verdade, a Netflix vende "Bandersnatch" muito mais como filme, e sim como um "evento".

É importante também deixar claro que analisar o roteiro da obra é mais complexo ainda por ter vários roteiros dentro dela, afinal, as escolhas levam a história para caminhos diferentes. Minha análise corresponde ao caminho que "Bandersnatch" me apresentou - me perdoem os que possuem tempo, mas não vou voltar milhares de vezes a trama com o intuito de ver todos os finais.


Note, eu falei que o caminho me foi "apresentado", e não que eu "escolhi" tal caminho. Isso contradiz a ideia do livre-arbítrio que o projeto vende? Sim, porque esse livre-arbítrio não existe. Esse novo "Black Mirror" é uma mentira, já que possui um roteiro central fincado, e várias vezes me forçou a escolher a opção que eles queriam ao finalizar o enredo com a opção que eu apertei - a escolha de Stefan falar sobre a mãe apareceu milhares de vezes em loop infinito, e diversas vezes caí em becos sem saída.

Para resumir, não há escolha quando você é forçado a escolher - na cena com a psicóloga, o próprio projeto reforça que eu vou para um lado que ele não quer, perguntando se eu tenho certeza da opção. Se a história, com 10 minutos de duração, apresenta caminhos que terminam a exibição rapidamente, qual o sentido? Colocar à força a plateia em outro trajeto é aniquilar a própria premissa. E nem como videogame dá para salvar "Bandersnatch": rapidamente fica chata a interatividade, afinal, a produção empurra você para o caminho que ela quer.

Quando pensamos em "Black Mirror", sua "marca" ou "identidade", o que deduzimos? A série é uma franquia que visa criticar o impacto da tecnologia sobre nossas vidas, em diversos graus, desde a tecnologia atual até desenvolvimentos mais longínquos. Contudo, o cerne da série não existe em "Bandersnatch": ele critica nada de tecnologia.


Não é como em "Playtest" da terceira temporada - que também foca em um jogo -, e o único aspecto tecnológico da trama é a construção do videogame de Stefan. Todo o estudo da sociedade e sua relação com a tecnologia não existe na obra, que dialoga muito mais com a questão de universos múltiplos e realidades paralelas. O que dá para encaixar no formato da série é uma crítica não-diegética, no fato de que nós estamos nos relacionando com a tecnologia por meio das escolhas de interatividade, mas nem isso é o suficiente para integrar "Brandersnatch" na marca.

Esse viés, pelo menos, retira o que há de melhor: quando o enredo conversa, explicitamente ou não, com quem está do lado de cá da tela. Stefan começa a afirmar que sente como se não possuísse controle de seus atos, como se uma força maior estivesse tomando decisões para ele. Inteligentemente charmoso, o roteiro aqui carrega empatia e empurra a ideia ao máximo, quando Stefan começa a conversar conosco de forma direta, perguntando o que deve fazer e, às vezes, até comentando a nossa decisão. É uma quebra da quarta parede espirituosa.

Com uma parte técnica sensacional - a fotografia, mixagem de som e trilha sonora são incríveis -, "Bandersnatch" não é um bom trabalho como cinema (afinal, nem cinema é) e tampouco como videogame. Tudo o que a trama tem de mais forte - os diálogos sobre Teoria do Caos e a relação de cada escolha impactando nossos destinos - é manchado por furos no roteiro e uma interatividade que se vende como absoluta, mas é limitada e limitadora de qualquer paciência - ter que voltar repetidas vezes para entrarmos na linha que o projeto quer é chatíssimo. Não há o anunciado livre-arbítrio e não há a crítica do relacionamento humano/tecnologia da marca "Black Mirror", então, o que sobra de "Bandersnatch"?


A série "Black Mirror" surgiu em 2011 no Channel 4, canal britânico de entretenimento. Fora dos grandes holofotes, o seriado já possuía público fiel nas duas primeiras - e curtas - temporadas exibidas pela tevê. Mas foi com a compra pela Netflix que transformou "Black Mirror" num fenômeno. Composta por antologias, cada episódio se passa num futuro diferente e estuda o impacto da tecnologia em nossas vidas - geralmente de forma negativa.

Como tudo que cai nas mãos da Netflix, todo lançamento vira o tópico principal da semana, o que gerou o meme "isso é tão Black Mirror" a qualquer coisa que envolva a tecnologia de maneira exagerada e cômica. Mas engana-se quem acha que foi com o seriado que surgiu esse questionamento sobre até onde nossa segurança pode ser resguardada contra a ameaça dos avanços tecnológicos. Diversos filmes pela história já traziam tais debates - o clássico "Metrópolis" falava do tópico em 1927.

Tendo isso em vista, escolhi 10 filmes que você poderá tranquilamente falar "isso é tão Black Mirror!". Para categorizar os longas, há uma escala de "blackmirrorização", composta por números que representam qual o patamar da realidade desenvolvida pela obra, disposta da seguinte maneira:
1: realidade que está acontecendo neste momento ou em um futuro muito próximo;
2: futuro um pouco mais distante, porém palpável e facilmente vislumbrado;
3: sociedade longínqua, com extremos tecnológicos interferindo na vida humana.

Aos Teus Olhos (idem), 2018

Nível de blackmirrorização: 1

"Aos Teus Olhos" é o patamar mais elementar da crítica contra o mal uso da tecnologia: o filme se passa agora, enquanto você lê a isso. Quando um professor é acusado de assediar um dos alunos, a situação, que requer o máximo de calma possível para ser administrada, encontra solução oposta: é arremessada nas redes sociais e grupos de WhatsApp, gerando uma turba raivosa que explode a situação. A premissa pode lembrar o já clássico "A Caça", porém o brasileiro conta com os smartphones como peça preponderante para sua trama, revelando o quanto possuímos armas em formas de celulares, prontas para atirar no primeiro alvo que apareça.

Ingrid Vai Para o Oeste (Ingrid Goes West), 2017

Nível de blackmirrorização: 1

Ingrid é uma garota com sérios distúrbios psicológicos que se trata através do Instagram. É pela rede social que ela descobre um universo incrível, e, ansiando fazer parte do mesmo, cria uma vida completamente falsa para poder se encaixar na vida de sua ídola, uma blogueirinha hipster que você encontra ao abrir o Explorar do aplicativo - isso se você não seguir várias. "Ingrid Vai Para o Oeste" não abre mão da veia humorística para jogar na nossa cara o quanto nos esforçamos para ter uma vida perfeita no Instagram, deixando de viver o real, afinal, quem quer ser o chato e sem amigos quando pode ser o belo e popular por trás dos filtros? Se ao fim da sessão você quiser desativar o Instagram, não se reprima #pensativo.

Ela (Her), 2013

Nível de blackmirrorização: 1

Você já amou e sofreu por personagens de livros, filmes e séries, tenho certeza. Mas já parou para pensar como é possível amarmos algo que não existe? "Ela", que venceu o merecido Oscar de "Melhor Roteiro Original", apropria-se desta discussão e coloca um homem se apaixonando por um computador - ou melhor, pelo sistema operacional dele. Mesmo num futuro um pouco mais distante, "Ela" é reflexo absoluto do nosso tempo, com máquinas cada vez mais antropomorfizadas - as Siris da vida não me deixam mentir. Como resistir algo que foi montado - literalmente - para se adequar 100% a você? Que conversa, interage, pensa e suspira? A tecnologia, que ao invés servir como ponte, levanta muros, fortalecendo a solidão e o distanciamento humano.

Ex Machina: Instinto Artificial (Ex Machina), 2015

Nível de blackmirrorização: 2

Um jovem programador é recrutado para realizar um teste numa robô com altíssima inteligência artificial. Mas, chegando lá, ele se vê envolvido demais pela desenvoltura da máquina, que, se não fossem os fios e circuitos à mostra, seria humana (até demais). O longa coloca na mesa discussões interessantíssimas e dilemas humanos universais sobre o instinto de sobrevivência. Da concepção visual incrível da robô - que já debate objetificação feminina - até os diálogos carregados de filosofias, "Ex Machina" é um clássico da ficção científica que aborda a velha (mas, no caso, muito boa) dúvida: o que criamos pode se voltar contra nós? Num determinado momento, o espectador não sabe mais se é o programador que está testando a robô ou o oposto.

Portal Negro (Black Hollow Cage)

Nível de blackmirrorização: 2

"Portal Negro" é uma obra independente e espanhola (mas falada em inglês) que se passa num tempo e lugar que não sabemos. O design de produção nos dá pistas sobre o futuro em que o filme está inserido, mas excluindo todo o contexto - a casa é inteiramente tecnológica, todavia, não dá uma televisão à vista. Uma garota, aprendendo a se adaptar com o braço mecânico recém adquirido, encontra um enorme cubo preto na floresta ao lado de sua casa. Dentro do cubo há uma estranha mensagem, que está ligada diretamente ao destino de todos. Os mistérios de inserção de "Portal Negro" são um charme a mais desse quebra-cabeças que não está interessado em explicar sua tecnologia, e sim guiar o espectador na corrida contra o tempo dos personagens.

O Show de Truman: o Show da Vida (The Truman Show), 1998

Nível de blackmirrorização: 2

Truman é um homem normal, que vive numa cidade normal, com uma família normal, vivendo o normal "sonho americano". Nada parece fora do lugar. Só que ela não sabe: sua vida, desde o nascimento, é um reality show, sendo transmitida 24h para todo o planeta. A premissa de "O Show de Truman" já cola qualquer um na cadeira, e a execução deve em absolutamente nada: um dos melhores trabalhos de Jim Carrey, a película é uma insana viagem sobre a fragilidade que é o ato de viver. Enclausurado em sua vida montada, Truman é reflexo das nossas bolhas da verdade, onde as pessoas são meros atores e os acontecimentos calculados e planejados. Não estaríamos todos nós vivemos da mesma forma que Truman?

A Ilha (The Island), 2005

Nível de blackmirrorização: 3

Se alguém um dia me dissesse que eu colocaria um filme do Michael Bay numa lista com bons nomes, não acreditaria. E cá estou. "A Ilha" mostra uma sociedade distópica, onde todas as pessoas vivem dentro de um gigante edifício, já que o exterior foi permanentemente arruinado pela poluição. Mal sabem eles que aquele universo é uma mentira e todos são clones, cultivados para servirem de doadores de órgãos aos seus compradores. É claro que "A Ilha" tem toda a afetação e milhares de cenas de ação com tiros e explosões sem muito sentido, marca registrada de Bay, entretanto, consegue ser divertido, mantendo o interesse pela curiosa premissa. É farofa, mas tem qualidade.

Sr. Ninguém (Mr. Nobody)

Nível de blackmirrorização: 3

Nemo Ninguém tem 120 anos e é, além do homem mais velho do planeta, o último mortal existente. Uma nova raça de seres humanos imortais regem o globo, e Nemo, à beira da morte, discorre sobre sua vida, ponderando se ela valeu a pena ou não. A coisa complica quando ele não tem apenas uma versão, mas três diferentes. Qual a verdade? Seria alucinação de alguém tão idoso? Muito mais que uma suposta narrativa complexa - que na verdade é bem simples -, "Sr. Ninguém" é um exercício estilístico feito com primazia, colocando o pé no experimental sem se tornar hermético ou inacessível. O roteiro basicamente se deita sobre a Teoria do Caos e mostra três rumos diferentes da vida de seu protagonista - todas são corretas pois todas existem em seus determinados planos. Os imortais então assistem aos últimos momentos de Nemo pelas construções do novo mundo.

Hardcore: Missão Extrema (Hardcore Henry), 2015

Nível de blackmirrorização: 3

"Harcore" fez muito barulho na internet em 2015 por ser um filme feito inteiramente em primeira pessoa - nós vemos o que Henry vê, como um jogo de tiro à la "Counter Strike". A técnica não é nova, porém sobe mais um degrau pela altíssima qualidade de produção, inegavelmente só uma desculpa para fazer o terror na tela. A história é básica: Henry é ressuscitado ao fundirem seu corpo com uma máquina, tornando-o um cyborg pronto para resgatar sua esposa. A porraloucagem, assim como a dor de cabeça, é grande, e, mesmo com o roteiro elementar demais, a sessão gera uma experiência única - um videogame na telona.

Upgrade (idem), 2018

Nível de blackmirrorização: 3

"Upgrade" e "Hardcore" compartilham de várias similaridades: ambos são através da óptica dos homens que, após fundirem seu corpo com alguma parafernália tecnológica, viram uma máquina de luta. "Upgrade" possui a convencional narrativa em terceira pessoa, e não tem medo de ser um autêntico filme de ação quando seu protagonista sai à caça daqueles que assassinaram sua esposa. Nele é colocado um chip que não só recupera seus movimentos - ele fica tetraplégico do assassinado da mulher - como vira um segundo e poderoso cérebro. Com cenas lindamente fotografadas e boa dose de humor, a pipoca está mais que garantida nesse pequeno e descompromissado filme.

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Prometo que esse post não foi patrocinado pela Netflix, atual detentora dos direitos de produção de "Black Mirror", porém, qualquer coisa, meu e-mail está aberto à negociações. Qual foi aquele filme que te fez gritar "bicho, isso é muito blequemiror!"?
“Black Mirror” está de volta! A série de Charlie Brooker vem conquistando cada vez mais fãs ao redor do mundo, principalmente após ser adquirida pela Netflix e ter viralizado por seu enredo único. A nova temporada, apesar de não ser a melhor entre as quatro já lançadas, tem suas preciosidades e a gente resolveu ranquear cada episódio, do melhor ao pior.


6. "Metalhead"

O único episódio completamente em preto e branco de toda a série, “Metalhead” tem uma fotografia espetacular, mas os elogios param por aí. O plot pode ser resumido em Bella (Maxine Peake) sendo perseguida por um robô chamado dog após tentar roubar um objeto de um armazém. 

A ambientação parece ser em um mundo pós-apocalítico, mas nenhuma confirmação é dada. Talvez esse seja o maior problema do episódio, todas as informações dadas são superficiais e deixam o telespectador sem entender coisas básicas como motivação dos personagens e de onde surgiram esses robôs.

O episódio ter a menor duração da temporada talvez não seja mera coincidência, já que após dez minutos de duração, a vontade de que ele acabe e que algo mais interessante comece parece apenas aumentar.

5. "Crocodile" 

O terceiro episódio da temporada foca em Mia (Andrea Riseborough) que, após ajudar seu amigo Rob (Andrew Gower) a encobrir uma morte que ele causou, tem sua vida mudada.

Apesar de ter sido ideia de Rob não reportar o crime, após quinze anos, ele encontra Mia e diz que não consegue mais conviver com a culpa e que irá revelar tudo para a polícia. Ela se vê aterrorizada com a confissão do antigo amigo, pois, com sua vida já estabelecida, tudo desmoronaria. Ela então mata Rob em seu quarto de hotel e se livra do corpo dele.

Em uma trama paralela, Shazia (Kiran Sonia Sawar), que trabalha para uma companhia de seguros, investiga um atropelamento atrvés de uma tecnologia Recaller, que consegue registrar a memória das pessoas. A partir daí, passando por várias testemunhas, ela chega em Mia que presenciou esse atropelamento no dia em que matou Rob.

Mia acaba tendo suas lembranças vistas por Shazia, entrando em desespero e matando-a e, para não levantar ainda mais suspeitas, assassina seu marido e filho.

“Crocodile” não soma em praticamente nada na temporada, parecendo um episódio para “encher linguiça” e chocar pelo fato de mostrar como o ser humano por ir longe para esconder um segredo – nada que não tenhamos visto em uma novela da globo.


4. "Black Museum"

O episódio que encerra a temporada parece também ter deixado um gostinho de final de série. Na trama, somos apresentados a Nish (Letitia Wright), uma jovem que vai visitar o Black Museum, museu onde se encontram artefatos criminosos – vários deles, de outros episódios, estão lá em exposição.

Rolo Haynes (Douglas Hodge), anfitrião e proprietário, apresenta a Nish tudo sobre como e onde cada um dos objetos foi utilizado. A principal atração é o holograma de Clayton Leigh (Babs Olusanmokun), um criminoso condenado a morte que vendeu o direito sobre sua consciência para Rolo após sua execução, sendo transformado posteriormente em um holograma.

O que ele não sabe é que, na verdade, Nish é filha de Clayton e foi visitar o museu em busca de vingança por tudo o que fez seu pai passar.

“Black Museum” parece um pouco arrastado e a tecnologia utilizada nos dois principais crimes foi explorada exaustivamente em episódios anteriores, trazendo talvez ao público uma sensação de “de novo?” ao assistir. Apesar disso, a trama acerta em fazer uma critica ao racismo e ligar as outras temporadas em um único núcleo.

3. "USS Callister"

"USS Callister" é a introdução a nova temporada da série. O episódio gira em torno do jogo Infinity, criado pelo programador Robert Daly (Jesse Plemons), que foi lançado pela empresa Callister Inc., fundada por ele e seu sócio James Walton (Jimmi Simpson).

Robert se sente totalmente desvalorizado em seu ambiente de trabalho, muitas vezes nem sendo visto como dono da empresa e motivo de deboche por outros funcionários. Isso muda quando um pouco com a chegada da nova programadora, Nanette Cole (Cristin Milioti), que acha seu trabalho simplesmente fantástico.

Quando Nanette mostra sua admiração por ele, outra funcionária, Shania Lowry (Michaela Coel), a adverte para não se aproximar demais, fazendo com que ela  comece a calcular um pouco mais suas atitudes – sendo um pouco mais fria talvez do que em seu primeiro contato com Robert, despertando uma certa “ira” em seu chefe.

É a partir desse descontentamento que somos apresentados a  uma versão crackeada de Infinity que Robert mantém em sua casa com clones digitais – feitos através de DNA –  de pessoas que de alguma forma o menosprezaram, e agora estão presas em sua nave, sendo ele o comandante.

O grande acerto do episódio é a sua crítica a todo o machismo inserido na cultura nerd, visto a total influência da famosa franquia sci-fi Star Trek, além da indagação sobre o quanto o “poder” pode subir a cabeça. Piadas e frases de impacto, que não são vistas comumente em Black Mirror, também são uma forte contrapartida para balancear o clima “pesado” de temas que a série aborda.

“Roubar minha xota ultrapassa a porra dos limites”.

2. "Arkangel"

Após perder Sara (Brenna Harding) de vista em um parque, Marie (Rosemarie DeWitt) decide testar uma nova tecnologia chamada Arkangel, um implante neural que a permite monitorar tudo o que sua filha vê.

Através de um tablet, Marie além de ver tudo pelos olhos de Sara, ainda pode “alterar” sua realidade embaçando coisas que possam causar um distúrbio na menina, como por exemplo um cachorro que sempre latia quando ela passava em sua rua.

Por causa disso, a jovem cresceu sem ver  coisas sangue, pornografia e muito mais que foram bloqueadas por sua mãe, causando um sentimento de frustração e curiosidade que a levaram ao ponto de pedir para sua mãe desligar o dispositivo.

As coisas começam a desandar quando Sara descobre que na verdade, sua mãe ainda a estava monitorando e viu até mesmo sua primeira relação sexual, despertando uma raiva que resultou em um evento trágico.

Apesar de ser um pouco previsível, o episódio mostra como o protecionismo em excesso de pais com seus filhos pode levar a uma privação de importantes experiências, além de uma falta de confiança na relação e um bloqueio entre eles.


1. "Hang The DJ"

“Hang The DJ” é talvez a nova tentativa de ter um "San Junipero" na série – as coincidências ficam pela temática romântica e ambos serem o quarto episódio de suas respectivas temporadas.

O enredo conta a história de Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) que utilizam um aplicativo que encontra parceiros para você automaticamente de acordo com suas personalidades, além de ainda revelar quanto tempo o casal ficará junto.

O sistema baseia-se na premissa de que, após vários relacionamentos, uma hora ele definirá o seu parceiro ideal, afinal, a assertividade é de quase 100% – mesmo que, para isso, você tenha que passar por relações que irão durar apenas uma hora ou até mesmo cinco anos.

Quando Amy e Frank percebem que se gostam e ficam juntos novamente após um intervalo de um ano desde o seu primeiro encontro, ambos decidem dessa vez não conferir quanto tempo terão, pois querem apenas curtir o momento sem se preocuparem com isso.

Depois alguns meses, Frank não aguenta mais de curiosidade e descobre que eles teriam 5 anos juntos, mas, quando ele burla a decisão que ambos tomaram de não olharem a validade, o tempo é recalculado para apenas vinte horas.

Após mais um término, os dois entram novamente no looping  de novos encontros, até que seus parceiros ideais são encontrados pelo aplicativo, o que também os dá a chance de se despedir de um de seus relacionamentos anteriores como uma forma de “encerramento” do ciclo. E é aí que ambos decidem fugir juntos e burlar o sistema.

Saber ou não a data de validade de uma relação é algo que poderia ser levado como uma vantagem e uma desvantagem. Por um lado, poderia te poupar de diversos encontros que não resultarão em nada, talvez apenas em “tempo perdido”, por outro, você poderia acabar descobrindo coisas indesejáveis como o fim de um relacionamento que você tanto preza ou que ficará preso a uma situação infeliz.


A realidade é que o episódio te leva a pensar que, talvez não exista o par perfeito. Cada um tem suas singularidades, qualidades e defeitos e é a partir dessas diferenças que as pessoas podem dar o melhor de si para ter algo feliz e duradouro,  sem se preocupar com a margem de erro.
O sucesso antológico da Netflix, “Black Mirror” está de volta à plataforma a partir de hoje com seu quarto ano. Badalada em todos os meios sociais, a produção sempre abusou de nossos medos e ansiedades quanto ao uso de tecnologias digitais cada vez mais presentes no cotidiano, analisando possíveis consequências, quase sempre sombrias.

Aclamada, mas não perfeita, a série tem alguns episódios regulares, mas outros que valem a pena o esforço de ficar 1 hora em frente à TV roendo unhas. Pensando nisso, bolamos uma lista com os 5 melhores episódios de “Black Mirror” pra você relembrar ou começar com o pé direito caso ainda não conheça a série. Ainda não conseguimos devorar a nova temporada, então o conteúdo novo ficou de fora desta vez.

White Bear (Urso Branco)

Um dos episódios mais intensos, o capítulo da segunda temporada, "White Bear", nos apresenta um mundo em que o conceito de reality show é bem diferente. Uma mulher (Lenora Crichlow) acorda em uma casa desconhecida sem lembrar-se de quem é. Todas as pessoas a sua volta parecem hipnotizadas e obcecadas por filmá-la. Tudo fica mais estranho quando Tuppence Middleton ("Sense8") aparenta ser uma das únicas pessoas não afetadas e, juntas, precisam destruir o transmissor de sinal White Bear, suposto causador disso tudo.

Por Marcos Antonio Moreira

Playtest (Versão de testes)


Esse é bem divisor, fato. Nas rodinhas de conversa, quando a terceira temporada foi lançada, teve quem amou e quem torceu o nariz. Verdade seja dita: esse episódio é demais. O roteirista e criador da série, Charlie Brooker é ótimo quando brinca com o horror, e mesmo que “Black Mirror” seja conhecida por sua distopia tecnológica, fica muito bem quando flerta com sustos inesperados.

Cooper (Wyatt Russell), um mochileiro precisando descolar uma grana, topa ser cobaia de uma nova realidade aumentada para jogos. A simulação começa tranquila em uma sala de testes, mas se estende até um casarão antigo, onde os piores medos de Cooper são revelados a ele. O grande diferencial desse episódio são as diversas reviravoltas, algo que pode ter incomodado alguns mas que são ótimos e inesperados. Tudo sai do controle, e fica mais divertido pra gente.

Por Marcos Antonio Moreira

Nosedive (Queda Livre)


Esse episódio com certeza deixou muitas pessoas incomodadas – principalmente aquelas que usam redes sociais desenfreadamente. Isso porque a história se passa numa sociedade onde as pessoas têm o status definido através de uma nota que lhes são dadas pelo o que postam nas redes sociais. Confuso? Vamos traduzir para a vida real: pessoas que têm mais curtidas têm, consequentemente, um maior status. 

É óbvio que no episódio tudo é retratado de forma escrachada – uma pessoa mal avaliada, por exemplo, não consegue pegar um voo –, mas o motivo do choque é porque, talvez, estaríamos nos encaminhando para essa realidade. É por conta dessa obsessão para alcançar uma alta pontuação que Lacie, personagem principal interpretada por Bryce Dallas Howard (“Histórias Cruzadas” e “Jurassic World”), perde sua sanidade após alguns infortúnios que fizeram com que a nota dela caísse, literalmente, em “queda livre”.

Por Júlia Guimarães Arneiro

White Christmas (Natal Branco)

Talvez um dos episódios mais complexos (e o mais longo) da série, “White Christmas” conta com diversos plot twists, pois a cada revelação que a história entrega você tira uma conclusão distinta – e aposte: o final é totalmente diferente do que imaginou no começo. Neste, o “monstro” não é a tecnologia, mas sim a própria complexidade humana e, aos poucos, o espectador descobre que raios Joe Potter (Rafe Spall) e Matt Trent (Jon Hamm) estão fazendo juntos numa casa no meio da neve no Natal.

Por Júlia Guimarães Arneiro

San Junipero


A redação do It Pop adverte: ciscos entrarão nos olhos de quem assistir esse episódio. Com um tom mais leve e sem grandes críticas sociais, “San Junipero” comove pela forma que retrata o amor; além de abordar o relacionamento homossexual de forma muito delicada e bela. A história se passa numa cidade que parece ser na Califórnia nos anos 1980 e, numa festa, Kelly (Gugu Mbatha-Raw) e Yorkie (Mackenzie Davis) se encontram, surgindo então uma paixão. Porém, San Junipero é, na verdade, um sistema de realidade simulada onde a consciência de mortos e moribundos é instalada para que “vivam” pela eternidade. E você? Gostaria de ser imortalizado num local onde pode ser quem quiser, mas sem aqueles que amou durante a vida?

Por Júlia Guimarães Arneiro


A nova temporada de "Black Mirror" já está disponível na Netflix. Corre pra se chocar um pouco mais com as pirações dessa série - enquanto tudo não passa de ficção.