"Titânio", "Casa Gucci", "Nomadland" e nossos favoritos do Cinema no ano


A melhor época do ano para o escritor que cá se encontra é a época de fazer as listas de melhores do mundinho cinematográfico no ano. Gasto horas catalogando tudo o que assisti ao longo do ano a fim de trazer a você, leitor, o que considero o suprassumo dos lançamentos (dentro da enorme cerquinha da subjetividade, é claro).


Com a pandemia que afetou 2020, a indústria cinematográfica teve sua retomada (mesmo que gradual) em 2021. No entanto, mesmo com o fluxo de obras ainda reduzido, conseguimos assistir a filmes imperdíveis que salvaram nosso ano e nos levaram de volta às salas escuras (quem também estava com saudades?). Aqui estão meus 20 longas favoritos de 2021.


De indicados e vencedores do Oscar a pérolas de todos os cantos do mundo, os critérios de inclusão da lista são os mesmos de todo ano: filmes com estreias em solo brasileiro em 2021 - seja cinema, Netflix e afins - ou que chegaram na internet sem data de lançamento prevista, caso contrário, seria impossível montar uma lista coerente. E, também de praxe, todos os textos são livres de spoilers para não estragar sua experiência - mas caso você já tenha visto todos os 20, meu amor por você é real.

Uma curiosidade que só percebi ao escrever sobre cada um dos escolhidos, é o montante de filmes vindouros de diretores estreantes. Muito grato em receber tantos nomes novos já colocando banca e demonstrando como a década pode ser um berço de vieses inéditos para a Sétima Arte. Preparado para uma maratona do que há de melhor no cinema mundial de 2021?
 

20. Zola (idem)

Direção de Janicza Bravo, EUA.

Se você também é, assim como eu, um veterano no Twitter, deve se lembrar da saga de Zola, uma stripper que em 2015 fez um thread de 148 tweets sobre uma viagem que terminou com prostituição, assassinato e tentativa de suicídio. Eis o enredo de "Zola", a adaptação dessa thread. Embalado em uma estética ácida e colorida, o filme é uma diversão caótica sobre o fim de semana de Zola (belamente interpretada por Taylour Paige) que ultrapassa o apelo da chamativa premissa e da nossa obsessão por redes socais com uma trilha-sonora elétrica e quebras da quarta parede hilárias, dessa que é a maior saga de uma stripper já contada. "P*ssy is worth thousands, bitch!".


19. Colmeia (Zgjoi)

Direção de Blerta Basholli, Kosovo/Albânia.

O primeiro filme do Kosovo, pequeno país europeu da região dos Balcãs, a conseguir figurar na lista de semifinalistas do Oscar de "Melhor Filme Internacional" na edição de 2022, "Colmeia" realiza um trabalho que particularmente amo: vai a fundo em uma pequena cultura que é influenciada por preconceitos estruturais. Fahrije é uma mulher que, com o desaparecimento do marido graças à guerra, deve assumir a liderança da família em uma cultura sufocantemente misógina. Ela monta um grupo de mulheres, todas viúvas da guerra, para montarem o próprio negócio, um ato de traição contra os costumes e morais do local, e, sem surpresas, enfrentará uma coleção de violências. "Colmeia" venceu o prêmio de "Melhor Filme Internacional" no Festival de Sundance 2021 e é apenas uma fagulha do grande incêndio que é a luta da libertação feminina por autonomia, e um lembrete do quão ainda precisamos avançar nos lugares mais remotos do planeta.


18. Meu Coração Só Vai Bater Se Você Pedir (My Heart Can't Beat Unless You Tell It To)

Direção de Jonathan Cuartas, EUA.

Com a explosão do fenômeno "Crepúsculo" em 2008, vampiros sofreram uma saturação absurda na Sétima Arte, todavia, o tema demandou reinvenção para continuar vivo (mesmo se tratando de criaturas mortas, uau) com nomes como "Amantes Eternos" (2013) e "A Transfiguração" (2016), e "Meu Coração Só Vai Bater Se Você Pedir" senta na mesa dos heróis de vampiros. Dois irmãos devem tomar de conta do irmão mais novo, um vampiro severamente debilitado pela escassez de sangue, afinal, como conseguir sangue humano no mundo que possui uma câmera a cada esquina? Distante da fantasia que a maioria das produções na temática abraçam, "Meu Coração Só Vai Bater Se Você Pedir" decide colocar os pés no drama e fazer um filme que se aproxima da realidade de um vampiro caso a criatura existisse - e a palavra "vampiro" é menciona nenhuma vez. Até onde vale abdicar da sua vida para cuidar da família? 


17. Casa Gucci (House of Gucci)

Direção de Ridley Scott, EUA.

Baseado em um dos casos mais chocantes do mundo da moda - o assassinato de Maurizio Gucci a mando de sua ex-esposa, Patrizia Reggiani Signora Gucci -, "Casa Gucci" é um resgate transloucado da Hollywood de Ouro e seus filmes """estrangeiros""". É até estranho colocar tais palavras juntas, mas "Casa Gucci" é um "O Poderoso Chefão" (1972) gay. Intrigas familiares com carregados sotaques italianos, mas adicionando roupas de luxo, remix de "I Feel Love", e, claro, Lady Gaga em cima de saltos agulha e casacos de pele se vingando do marido infiel? Mais queer impossível. O impacto cultural do longa é comprovado no momento em que quase toda a sala do cinema fez o sinal da cruz durante a já icônica fala "Em nome do pai, do filho e da Casa Gucci", e isso vale muito mais do que qualquer prêmio por aí.


16. Depois do Amor (After Love)

Direção de Aleem Khan, Reino Unido/França.

Mary é uma mulher que se converteu ao islamismo quando se casou com seu marido anos atrás. Vivendo inteiramente dentro da cultura islã, ela é inesperadamente surpreendida com a morte do esposo e o surgimento de um segredo: ele possui outra família a menos de 35km de distância. Sem haver o responsável para confrontar, ela decide ir pessoalmente até a casa da outra família e, fingindo ser uma empregada doméstica, entra na casa da amante e do filho. "Depois do Amor" é conduzido por uma ótima performance de Joanna Scanlan e toca em temas complexos sem julgamentos: o que fazer com a descoberta desse segredo e com a outra família, que não sabe o que aconteceu com o marido? Vencedor de seis prêmios no British Independent Film Awards, incluindo "Melhor Filme", esse é um drama tocante que merece ser descoberto.


15. Reze pelas Mulheres Roubadas (Noche de Fuego)

Direção de Tatiana Huezo, México.

Mais um representante ao Oscar de "Melhor Filme Internacional", dessa vez do México, "Reze pelas Mulheres Roubadas" vai até uma vila no interior do país para contar como é a vida das famílias aprisionadas entre o tráfico de drogas e de pessoas. Assim como "Projeto Flórida" (2017), a narrativa se passa pelos olhos das crianças, ou seja, todo o horror é fantasiado pelos adultos para que os pequenos não sofram o baque daquela terrível realidade. Meninas têm os cabelos cortados para parecerem homens e os pais devem se tornar escravos para tem a mínima proteção antes que suas filhas sejam roubadas. Um filme duro e corajoso de Tatiana Hueza baseado em uma história triste e real.


14. A Nuvem (La Nuée)

Direção de Just Philippot, França.

No interior da França, uma família tenta sobreviver à morte do pai com o trabalho que ele deixou: eles cultivam gafanhotos, vendendo-os em forma de pó rico em proteína. A situação vai piorando quando os gafanhotos começam a morrer, até que a mãe descobre que eles não estão conseguindo o que querem comer: sangue. "A Nuvem" é inspirado no movimento "New French Extremity": obras de terror francesas que focam em elementos extremos, principalmente o body horror (subgênero que vislumbra a destruição do corpo humano), e coloca o corpo de sua protagonista como banquete para executar um simbolismo doentio: aquilo que você precisa para sobreviver é o que vai te matar. Bon appétit, baby.


13. A Morte de Dois Amantes (The Killing of Two Lovers)

Direção de Robert Machoian, EUA.

De "História de um Casamento" (2019) a "La La Land" (2016), a representação do fim de um relacionamento gerará filmes para o resto dos tempos - é incrível como a morte de um amor consegue produzir tanto conteúdo que, em boas mãos, terminará em uma história a ser vista. "A Morte de Dois Amantes" é um desses casos: um casal decide dar "um tempo" e conhecer pessoas novas; para a mulher, o acordo funciona perfeitamente, mas o homem não consegue respirar com a ideia da esposa com outra pessoa. Caminhando perigosamente na linha do extremo, a fita é crua e sem maquiagens na exibição de sentimentos que constantemente queremos esconder: o ciúmes, a inveja, o egoísmo, a posse. Um verdadeiro nocaute.


12. O Cavaleiro Verde (The Green Knight)

Direção de David Lowery, EUA/Canadá.

David Lowery já nos presenteou com a obra-prima "Sombras da Vida" (2017), e não decepciona em seu novo projeto. "O Cavaleiro Verde" fortalece a veia de narrativas não convencionais de Lowery ao dar luz um conto medieval do séc. XIV. Gawain, sobrinho do Rei Arthur, aceita o desafio do Cavaleiro Verde: se ele conseguir atingi-lo com um golpe, ganhará o poder de possuir o machado mágico; porém, deverá ir até a Capela Verde, local onde o Cavaleiro mora, para receber também um golpe um ano depois. A obra de Lowery se questiona: como seria um filme se fosse feito na mesma época que esse conto? Como as pessoas na antiguidade contariam esse filme? O resultado é uma fábula fantástica sobre nobreza, orgulho e honestidade, com imagens deliciosas e uma originalidade inigualável. "Off with your head!".


11. Playground (Un Monde)

Direção de Laura Wandel, Bélgica. O representante da Bélgica ao Oscar de "Melhor Filme Internacional", "Playground" é um pequeno e íntimo filme que decide embarcar em uma empreitada que não é a das mais fáceis: ser inteiramente conduzido por crianças. Mas Laura Wandel escolheu a dedo seus protagonistas, gerando uma película imperdível. Dois pequenos irmãos estão sofrendo uma das maiores dificuldades da vida escolar, o bullying. Filmes sobre o tema estão por aí aos baldes, entretanto, poucas vezes vimos a temática receber um aparato tão sincero e cru. Enquadrado em closes, enclausurando os personagens em um mundo sem escapatória, "Playrground" demonstra a inabilidade dos adultos em cuidar de crianças e como a violência é um ciclo vicioso que pode não ter fim. 


10. A Nuvem Rosa (idem)

Direção de Iuli Gerbase, Brasil.

"A Nuvem Rosa" é um daqueles raros caos de filme certo na hora certa. Escrito em 2017, o longa acompanha um casal que se conhece em uma noite. Indo para a casa da mulher, eles acordam no dia seguinte com a notícia de uma nuvem rosa que mata quem entra em contato com ela, devendo permanecer em quarentena imediatamente. "A Nuvem Rosa" previu nossa pandemia do Covid-19? As similaridades são surpreendentes, nesse estudo que fortalece uma veia grossa do novíssimo cinema nacional, a extrapolação criativa de enredos que hiperbolizam nossa realidade a fim de estudá-la e criticá-la. Essa veia contraposta o estilo mais clássico da nossa indústria, o "cinema verdade", e não quer fincar as unhas no crível, pelo contrário, almejando desenvolvimentos mais fantasiosos que (absurdamente) soam mais do que reais - e a explanação de "A Nuvem Rosa" sobre o "novo normal" é um espelho desconfortável de ser encarado.


9. Ovelha (Dýrið)

Direção de Valdimar Jóhannsson, Islândia/Suécia.

Valdimar Jóhannsson estreou no Cinema com um calibre fenomenal em "Ovelha". Um casal sem filhos é dono de uma fazenda no meio do nada na Islândia, tendo sua vida mudada com o nascimento de uma criatura metade ovelha e metade humana. É bem claro que o longa não será de largo apelo popular por inúmeros motivos - o ritmo lento, a ambientação contemplativa, as alegorias complexas, a falta de explicações diretas e até mesmo a língua acabam afastando -, sendo um daqueles filmes que precisam ser digeridos para não ficarem na superfície do "o que diabos foi isso?". Mais um pilar na nova onda de horrores que focam no drama ao invés da gratuidade que muitos exemplares do gênero acabam caindo, "Ovelha" é um retrato declaradamente estranho sobre a morte, a culpa e como encontramos nas mais diferentes coisas um motivo para nos trazer a felicidade. No fim das contas, a moral é que a natureza é a maior mãe de todas, e com ela é olho por olho e dente por dente.


8. Nomadland (idem)

Direção de Chloé Zhao, EUA.

Desde sua estreia no Festival de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro - o equivalente a "Melhor Filme" do festival italiano -, "Nomadland" basicamente vinha com uma nota de rodapé: o Oscar é dele. Dito e feito. Apesar de ser o terceiro longa da chinesa Chloé Zhao, "Nomadland" a transformou em uma cineasta espetacular, sendo apenas a segunda mulher e abocanhar a estatueta de "Melhor Direção" em sua viagem nos interiores dos Estados Unidos e a vida de nômades que moram em casas com quatro rodas. Repleto de cenas que apertam o coração e o pescoço pelas imagens arrebatadoras e diálogos delicadíssimos, esse road movie encanta e denuncia uma enorme mazela da modernidade com um poder cinematográfico único. "Eu não sou sem teto, sou sem casa. Não é a mesma coisa".


7. Meu Pai (The Father)

Direção de Florian Zeller, Reino Unido/França.

Baseado na peça de mesmo nome de Florian Zeller, "Meu Pai" foi a transição do diretor francês dos palcos para as telas, e chegou com imensa competência. "Meu Pai" já fisga a curiosidade com um elenco estrelar - Anthony Hopkins e Olivia Colman encabeçam como pai e filha: Anne vai mudar de cidade e deve deixar alguém a cargo dos cuidados de Anthony, que se recusa a receber ajuda. Já vimos inúmeros filmes que pincelam em diversos graus os problemas mentais que somos acometidos, muitas vezes sendo completos desserviços, no entanto, não é exagero afirmar que "Meu Pai" seja uma das melhores fitas sobre o tema já feitos na história do Cinema. A atuação do monstro Anthony Hopkins talvez seja a melhor de sua rica carreira, rendendo a cena mais triste e tocante de 2021: "Eu sinto que estou perdendo todas as minhas folhas". Não foi de se espantar que o Oscar de "Melhor Ator" e "Melhor Roteiro Adaptado" tiveram "Meu Pai" como dono.


6. A Filha Perdida (The Lost Daughter)

Direção de Maggie Gyllenhaal, EUA/Grécia.

Estreia de Maggie Gyllenhaal na cadeira de direção, "A Filha Perdida" é o melhor filme já lançado com o selo "Original Netflix", deixo aqui claro. Olivia Colman, dona de um Oscar por "A Favorita" (2018), é Leda, uma professora de meia-idade de férias na Grécia; por lá, ela encontra uma família com uma jovem (e agonizante) mãe (interpretada por uma ótima Dakota Johnson). A partir de então, Leda começa a recordar como foi seu próprio papel de mãe - e como ela falhou miseravelmente. "A Filha Perdida" tem inúmeras glórias - a direção e a adaptação certeira de Gyllenhaal e as atuações magistrais de Colman e Johnson -, entretanto, o que há de mais devastador aqui é a desglamourização da maternidade. O que é considerada a melhor "profissão" que uma mulher pode ter, o filme despe todos os filtros cores-de-rosa para recordar o público do quão passíveis a erros somos. O momento em que Leda diz que "Foi incrível" (você que viu o filme sabe do que estou falando) é de chocar e admirar.


5. Bela Vingança (Promising Young Woman)

Direção de Emerald Fennell, Reino Unido/EUA.

O atual (e merecidíssimo) detentor do Oscar de "Melhor Roteiro Original", "Bela Vingança" tem uma embalagem de filme mainstream norte-americano, contudo, é apenas uma fachada que esconde uma história sombria: Cassie tem 30 anos e abandonou o promissor futuro quando a melhor amiga foi estuprada, resultando em sua morte. Ela dedica suas noites a fingir ser uma garota bêbada na balada, e vê a quantidade de homens se aproveitariam da situação para estuprá-la. A fita é colorida e energética, apenas um contraponto para toda a dor do seu conteúdo, e Cassie se torna uma entidade mística em busca de justiça - tanto dentro quanto fora da tela. Todas as cenas em que ela se vinga das pessoas envolvidas com o caso da amiga são violentamente brilhantes.


4. Aonde Vai, Aida? (Quo Vadis, Aida?)

Direção de Jasmila Žbanić, Bósnia e Herzegovina.

O selecionado (e indicado) da Bósnia para o Oscar 2022, "Aonde Vai, Aida?" tem uma superfície que pode soar enfadonha para uns: Aida é uma tradutora da ONU que intermedia os eventos da Guerra da Bósnia de 1993 - e que historicamente terminou no Massacre de Srebrenica. Não se preocupe, esse não é um daqueles filmes que parecem aula de História na tela: muito mais um drama de suspense, a direção de Jasmila Žbanić é perfeita ao conduzir o dilema avassalador de Aida, que usa seus privilégios dentro da ONU para resgatar sua família, a um ponto em que terá que fazer escolhas que podem ser o ponto final entre a vida e a morte. Todo o amor para "Mais Uma Rodada" (2020), que levou o Oscar de "Melhor Filme Internacional", mas esse era de "Aonde Vai, Ainda?", uma das mais doloridas exibições da guerra.


3. Benedetta (idem)

Direção de Paul Verhoeven, França/Holanda.

De longe, o filme mais polêmico de 2021, o que podemos falar de "Benedetta"? Sucessor do também controverso "Elle" (2016), Paul Verhoeven adapta o livro "Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy" de Judith C. Brown, que narra a história real de Benedetta, uma freira do séc. XVII que foi presa e condenada por ser lésbica. O tema já é complexo por si só, todavia, Verhoeven não vai poupar a plateia nessa viagem desconcertante de descoberta da sexualidade de Benedetta. Tão corajoso quanto blasfemo (é aqui que estão as cena mais desafiadoras de 2021, como a da estátua de Virgem Maria e a visão de Cristo na cruz), "Benedetta" empurra limites para escancarar os meios tortos da Igreja Católica em condenar mulheres por seus corpos e perseguir minorias, em uma enxurrada de hipocrisia e falso moralismo que ainda assombra nossos tempos, 400 anos depois.


2. Titânio (Titane)

Direção de Julia Ducournau, França/Bélgica.

A francesa Julia Ducournau estreou no cinema em 2016 com o apetitoso "Grave", uma fábula pitoresca sobre uma família de canibais. O body horror, característica seminal do cinema ducournauniano (mais um inspirado no "New French Extremity"), é elevado a patamares absurdos com "Titânio", que começa com sua estranha premissa: uma garota, após sofrer um acidente, tem que colocar placas de titânio em seu crânio, o que a faz sexualmente atraída por.........carros. É isso aí. O longa é uma jornada insana que, por trás de sua imagem bizarra, carrega infinitas camadas de reflexão sobre gênero, sexualidade, humanidade e amor, liderado pelas atuações lendárias de Agathe Rousselle e Vincent Lindon. Vencedor de uma das melhores Palmas de Ouro que o Festival de Cannes já viu, "Titânio" é recheado de ousadia, genialidade e sim, pretensão. Os melhores filmes possuem esses três elementos.


1. Santa Maud (Saint Maud)

Direção de Rose Glass, Reino Unido.

A A24 (a melhor distribuidora do planeta em atividade, não me canso de falar) está especialista em terrores com viés religiosos e mitológicos, e "Santa Maud" é mais uma adição à lista. Seguindo a personagem título, uma enfermeira que não almeja apenas salvar o corpo de sua paciente, mas também sua alma, os horrores orquestrados ao seu arredor são castigos da condição humana: a de estarmos constantemente em busca de algo que nos dê sentido, e Maud achou esse sentido, no entanto, era o sentido errado. Um espetáculo fadado ao insucesso, "Santa Maud" é uma estreia irretocável que estuda o impacto do fanatismo religioso na percepção da realidade e questiona o conceito de divindade e a megalomania crente de maneira jamais vista. O corte abrupto de dois segundos na última cena é um daqueles raros casos em que você tem a mais absoluta certeza de estar diante de uma obra-prima.