Análise: "Parasita" e a coroação de uma das mais insanas temporadas da história do Oscar

Troca de favoritos, certezas indo por água abaixo e o maior da temporada vencendo "Melhor Filme" e fazendo história

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Em primeiríssimo lugar, nas palavras da Aja, I don't wanna be the one, but I'm gonna be the one: "Parasita" levou o Oscar de "Melhor Filme" e eu avisei. Em uma reviravolta histórica, a Academia mais uma vez olhou para toda a temporada e falou "Huuum, não, obrigado", coroando "Parasita" assim como deu o prêmio máximo para "Moonlight" quando "La La Land" havia vencido absolutamente tudo. Vamos então mergulhar nos resultados e o que eles nos dizem sobre os rumos que o Oscar decidiu tomar.

É apenas a segunda vez que a Associação de Produtores (PGA) e a de Diretores (DGA) erraram ao mesmo tempo o vencedor do Oscar de "Melhor Filme" e "Direção" - ambos foram para "1917", o absoluto favorito da temporada. A cara do Sam Mendes, diretor de "1917", quando perdeu o Oscar de "Direção" é um bom resumo da ruptura da Academia com o resto das premiações, já que ele havia levado tudo até então - e empatado com o Bong Joon-ho no Critics' Choice. Pelo menos ele já ganhou um por "Beleza Americana", porque "1917" é fantástico, mesmo não sendo o melhor que "Parasita".


A temporada do Oscar 2020 foi uma verdadeira montanha-russa. Favoritos surgiam e caíram; crítica apontando para uns, indústria para outros; foi uma viagem. Antes do Globo de Ouro, a primeira entre as grandes premiações e que oficialmente abre a corrida dourada, a briga era entre "O Irlandês" e "História de um Casamento", os queridinhos da crítica que já eram chamados de Oscar winners...... aí o Globo desceu a regra: não estamos interessados na Netflix. "História de um Casamento" levou apenas um enquanto "O Irlandês" saiu de mãos abanando.

E vamos aqui falar de "O Irlandês". O filme de máfia de Scorsese era a maior certeza da temporada e ganhou o montante de ZEEEERO prêmios relevantes em todas as premiações televisionadas - Globo de Ouro, SAG, Critics' Choice, BAFTA, Oscar - vencendo somente um contestável "Melhor Elenco" no Critics'. Esse é o segundo filme do diretor a ser indicado a 10 Oscars e vencer nenhum - "Gangues de Nova Iorque" foi o primeiro, e ambos já estão no panteão de derrotas em toda a história, perdendo apenas para "Momento de Decisão" e "A Cor Púrpura", que perderam as 11 categorias que foram indicados. "O Irlandês", inclusive, é o único entre os indicados a "Melhor Filme" a não sair com algum careca dourado. Força, Pablo Villaça, te amamos.


"História de um Casamento" acabou sofrendo da síndrome de "Nasce Uma Estrela": ambos abriram a janela do Oscar com aclamação, prêmios e o indicativo de fazer a limpa na noite mais importante do Cinema, mas acabaram perdendo força e levando apenas uma estatueta. Cada um com seus motivos particulares, mas interessante ver como favoritos podem mudar drasticamente em questão de meses - e, claro, há a questão da Netflix, que você pode entender melhor aqui.

Com os dois saindo de cena, foi a vez de "Era Uma Vez em Hollywood" assumir a dianteira. O nono filme de Tarantino levou o Critics' Choice de "Melhor Filme", além "Melhor Filme: Comédia" no Globo de Ouro. O diretor estava sedendo para ganhar seu terceiro Oscar de "Melhor Roteiro Original" e viu ser deixado para trás quando "1917" chegou botando banca e fazendo a limpa em seguida - ganhou sete BAFTAs, incluindo "Melhor Filme". Tarantino é tão viciado em pés que foi pisado no Oscar.


Assim como rolou em 2018, todos os quatro vencedores do Oscar de atuação venceram igualmente todas as premiações televisionadas de uma vez, o que indica como a Academia ainda se mantém conservadora nesse departamento, sem espaço para ousadias. O que não é algo exatamente ruim, porém, previsibilidade não é algo que pode ser apontado sobre a edição.

"Parasita" é o primeiro filme na história do Oscar a vencer sem ter diálogos em inglês. Claro, filmes mudos já venceram, mas eram ou produções americanas ou possuíam intertítulos em inglês. De alguma forma, eram filmes voltados para o mercado de língua inglesa, algo que "Parasita" está longe de ser. E demorou "apenas" 92 anos para isso, muito bem. A Academia é tão resistente à filmes estrangeiros que somente 11 foram indicados dentro dos 563, e "Roma" perdeu ano passado exatamente por ser estrangeiro (e por ser da Netflix).

Bong Joon-ho se mudou da Coreia para Los Angeles a fim de se dedicar completamente à campanha de seu filme e se tornou a segunda pessoa com mais vitórias em uma só noite: quatro prêmios - Walt Disney também recebeu quatro Oscars em 1954. Por isso, "Parasita" empata como "Fanny & Alexander" e "O Tigre e o Dragão" como os filmes estrangeiros com mais Oscars no bolso, quatro para cada.

A noite do dia 09 foi um verdadeiro marco. Foi um daqueles momentos que, daqui a décadas, vamos continuar falando sobre. É bem raro o melhor dos indicados ser o real vencedor pela maneira que a categoria é decidida, por meio do voto preferencial (não é o mais votado que ganha, e sim o que aparece mais vezes entre os primeiros lugares dos votantes). Claro que estamos falando de algo que se debruça no campo da subjetividade - você pode achar "Parasita" o pior dos nove -, mas, pelo menos por aqui, "Parasita" se une a "Moonlight" e "A Forma da Água" como vencedores absolutos que burlaram qualquer expectativa, qualquer aposta de acordo com a temporada, e saíram vitoriosos por serem os melhores de suas edições.


Isso quer dizer que todos os problemas da Academia estão resolvidos? Não mesmo. Esse foi um passo importantíssimo para o Oscar começar a abrir os olhos para produções que não estejam na limitada roda de apreço norte-americano - quem aguenta mais um filme americano sobre a indústria americana vencendo? - e, também, para obras compostas por pessoas não-brancas. Todos os três citados no parágrafo anterior são dirigidos por minorias - "Moonlight" por um homem negro, "A Forma da Água" por um latino e "Parasita" por um asiático. Mas só aqui vemos que vários passos ainda estão pela frente: apenas UM filme dirigido por uma mulher venceu "Melhor Filme", "Guerra Ao Terror" em 2010. 10 anos depois e..... pouca coisa mudou e só mais uma diretora foi indicada a "Direção" - Greta Gerwig por "Lady Bird".

Temos que nos manter positivos em relação ao futuro da premiação. Estaria a Academia se distanciando de sindicados e outros apontadores da temporada e começando a pensar como uma entidade única? Seria uma mudança bem-vinda. Outro motivo para alegria é pelo simples fato de que "Parasita" venceu - e ainda abocanhou, além de "Filme" e "Direção", "Melhor Filme Internacional" (o primeiro coreano) e "Melhor Roteiro Original" (o segundo em língua não-inglesa, "Fale Com Ela", em espanhol, foi o primeiro). Além disso, se olharmos para o vencedor do ano passado, "Green Book", é um assustador avanço. You can't sit with us.

Análise: "Parasita" e a coroação de uma das mais insanas temporadas da história do Oscar Análise: "Parasita" e a coroação de uma das mais insanas temporadas da história do Oscar Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/10/2020 06:07:00 PM Rating: 5