Reprodução/Divulgação Indo ao molde clássico do filme de detetive, "Entre Facas" sustenta seus 130 min com mistérios e reviravoltas

Crítica: “Entre Facas e Segredos” e o malabarismo funcional entre tensão e diversão

Indo ao molde clássico do filme de detetive, "Entre Facas" sustenta seus 130 min com mistérios e reviravoltas
Crítica: a crítica contém detalhes da trama.

Histórias de mistério, plots e assassinatos percorrem a cultura há gerações. Dos livros da Agatha Christie até os filmes de Alfred Hitchcock, o público sempre demonstrou imenso interesse pela clássica pergunta "Quem matou insira aqui o nome da vítima?". "Entre Facas e Segredos" (Knives Out) é uma releitura desse mote, o "filme de detetive" (ou "whodunit", o subgênero em inglês).

A noite do aniversário de 85 anos do patriarca da família Drysdale, Harlan (Christopher Plummer) termina com o homem morto. O que inicialmente sugeria um suicídio esconde segredos muito mais complexos, algo que o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) está ávido em desvendar. "Entre Facas em Segredos" tem como solo o questionamento sobre quem matou Harlan, e os suspeitos são inúmeros.

O casting do filme é repleto de estrelas - como Chris Evans, Janie Lee Curtis, Michael Shannon, Toni Collette, Katherine Langford e Jaeden Martell -, e basicamente todos têm culpa no cartório. A estrutura do filme é feita (por meio de uma montagem fabulosa) com cada personagem contando sua versão do enorme quebra-cabeça da noite do crime e flashbacks para que o espectador saiba o que era verdade ou mentira. O que poderia sugerir uma família feliz é rapidamente demolida com os depoimentos, cheios de ressentimentos por parte dos familiares - e a reconstituição das falas criativamente começa com muita simpatia e camaradagem (a maneira como o personagem conta para o detetive) e logo expõe a inconveniente verdade.


Basicamente, todos os principais suspeitos brigaram com Harlan por um único motivo: dinheiro. O patriarca era um famosíssimo autor e proprietário de grande fortuna, e todos ligados à família estão como urubus dentro da casa. A única que parece genuinamente preocupada é Marta (Ana de Armas em uma atuação excelente), a enfermeira particular de Harlan que tinha uma íntima relação com o falecido. Ela, que é fisicamente incapaz de mentir (ela vomita sempre que tenta), é a peça-chave do mistério, sabendo exatamente o que ocorreu naquela noite.

Uma das escolhas corretas do roteiro é não tentar sustentar o filme inteiro com a dúvida sobre quem matou Harlan - na metade da projeção já sabemos. A sacada é dar uma virada e mudar o foco da trama, que sai de "quem matou o patriarca?" para "como Marta vai se livrar da culpa?". É deveras evidente várias surpresas do filme - ele é aberto na casa de Marta, o que já dá a entender que ela é o gancho que prende toda a história -, além do exagero tremendo em jogar peças que gritam culpabilidade, mas que sabemos serem apenas desvios de foco para o real vilão do todo.

E falando em exagero, "Entre Facas e Segredos" tem de sobra. O estilo pode incomodar, porém, assim como um "As Panteras" (2000), você precisa ter em mente que o trem se move em uma constante de absurdos propositais. O longa é tanto uma homenagem quanto uma sátira do subgênero, remetendo a "Disque M Para Matar" (1954) e "Assassinato no Expresso Oriente" (1974) - é válido pontuar que ambos, dois dos maiores nomes do gênero "detetive", são baseados em livros, o que faz de "Entre Facas" uma agradável revelação por se tratar de uma obra original.

O aspecto homenagem/sátira cai principalmente em cima do personagem de Daniel Craig. Uma caricatura ambulante, ele é o ápice da figura clássica do detetive: sotaque esquisito, habilidade for farejar culpa e sacadas de cena feitas ao máximo. Não estranhamente, conversa (de maneira histriônica) com o Inspetor Hubbard de "Disque M", Hercule Poirot de "Expresso Oriente" e, claro, Sherlock Holmes - o personagem até passa o filme chamando Marta de "Watson". Essa é uma fita que não tem vergonha de escancarar suas referências literárias, cinematográficas e pop (um dos policiais fala que a casa é como o tabuleiro do jogo "Detetive", o que foi uma flechada no meu coração).


Rian Johnson, que assumiu a responsabilidade de dirigir "Star Wars: Episódio VIII - Os Últimos Jedi" (2017), comprova ser um habilidoso diretor quando sustenta um filme que aparenta ser simplório, mas é uma realização longe disso. "Entre Facas" é assumidamente uma comédia, contudo, sua fundamentação é o mistério. Portanto, como fazer a plateia rir sem que a tensão da trama seja perdida (uma reação mais que comum em inúmeros filmes que tentam - e falham - unir essas duas sensações contrastantes, não é mesmo, "A Freira", 2018)? Ainda por cima, temos os elementos hiperbólicos, que poderia ainda dar mais errado; e o filme funciona muito bem.

Pelo menos até o terceiro ato. A partir da cena que Marta cede à uma chantagem, a película começa a andar em círculos, jogando reviravolta em cima de reviravolta. Imediatamente lembrei do badalado "Um Contratempo", que deve ser o filme com mais reviravoltas por segundo na história do Cinema (sempre brinco que, caso você pisque durante o filme, perderá 15 reviravoltas e vai ter que recomeçar do início). O que faz "Um Contratempo" funcionar em termos de "temos que surpreender o público" é que seus plot twists são limpos e certeiros, apesar de excessivos. No caso de "Entre Facas", soa como se o roteiro estivesse fazendo malabares com os fatos dados no decorrer do filme, na esperança de que a solução caia nas mãos da produção ao invés de atingirem o chão - e tem pontos que caem de cara, como por exemplo a cena do pingo de sangue, que não é explicada mesmo sendo usada como motivação de um dos personagens.

Dentro todos os erros e acertos (felizmente aqui há mais acertos), o que mais me afeiçoou na fita é a maneira como o texto vai para o campo político. Tentei ao máximo deixar essa crítica livre de spoilers, todavia, abrirei mão da empreitada apenas no presente parágrafo. Marta é uma imigrante latina; sua mãe está nos EUA ilegalmente, um dos temores da protagonista ao se ver enrolada na morte de Harlan. Durante a projeção, inúmeros pontos envolvendo a problemática são inseridos, como o neto simpatizante do Nazismo e o marido xenofóbico e a favor da prisão de imigrantes latinos. Além de fomentar a persona dos peões envolvidos, o roteiro tem uma claríssima mensagem a passar - é hilário ver como cada um deles diz que Marta veio de um país latino diferente, pois, bem, para eles são todos iguais. Aquela burguesia que se esconde atrás de sorrisos perfeitos é cheia de ódio e interesses mesquinhos, e Marta, tomando seu café na sacada da sua nova mansão, assiste com prazer os abutres preconceituosos perdendo tudo. É uma vingança textual deliciosa e um dedo do meio para a Era Trump.

"Entre Facas e Segredos" se sobressai por ser um "filme família" capaz de agradar a todas as faixas etárias sem ser genérico ou redutivo - pelo contrário, é sólido e divertidíssimo. Há caminhos frescos percorridos que demonstram o quanto ainda é possível resgatar estilos com personalidade e eficiência. Grandioso pelo seu batalhão de estrelas e pelo roteiro que estrutura a trama sabiamente, os excessos podem até diminuir a sessão - o filme se esforça para parecer mais complexo do que realmente é -, mas, mesmo sendo familiar e até previsível, é capaz de gerar interesse por todos os 130 minutos e terminar socialmente afiado, sem perdão pelo trocadilho. E Chris Evans como um personagem que odeia cachorros é aula de atuação.