Crítica: "Fora de Série" fortalece o coming-of-age voltado às vozes femininas

"Fora de Série" é mais um (muito bom) filme focado nos dramas femininos em período escolar

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Qualquer pessoa que viva no mundo globalizado e consuma material dos EUA, já deve ter percebido como a escola - ou, no caso deles, o high school - é terreno infinitamente fértil na cultura. São filmes e séries aos montes que focam nesse período específico da passagem de (quase) todas as pessoas. Apesar da maioria, querendo ou não, soar demasiadamente parecida, há pérolas icônicas saídas do sub-gênero ao longo das décadas, como "Clube dos Cinco" (1985), "As Patricinhas de Beverly Hills" (1995) e, o maior de todos, "Meninas Malvadas" (2004).

Até mesmo aqui no Brasil temos exemplos, afinal, "Malhação", que estreou em 1995, está no ar até hoje desbravando os dramas da adolescência. O que devemos levar em conta é que esse sub-gênero é majoritariamente voltado na chamada "revolução dos nerds": a vingança dos excluídos ao estarem no palco principal. Com o maior exemplo na cultura pop atual sendo a série "The Big Bang Theory" (2007-19), há uma incrível leva de produções que buscam focar dos dilemas femininos, os "Superbad: É Hoje" (2007) ao contrário.

Mais curioso ainda, é que, desde 2016, virou anual o lançamento desse tipo de filme: coming-of-ages que focam na emotiva e realística vida de protagonistas femininas (e que possuem as mesmas paletas de cores e cenas-chaves em piscinas!); coincidência ou não, podem continuar saindo: "Quase 18" (2016), "Lady Bird" (2017), "Oitava Série" (2018) e o novíssimo "Fora de Série" (2019), a estreia de Olivia Wilde na cadeira de direção.


Com exceção de "Oitava Série", todos os outros são dirigidos por mulheres (o que não é um demérito para "Oitava", o melhor entre os quatro); "Fora de Série" vai ainda mais longe, com todas as roteiristas sendo mulheres, além da maioria das produtoras. O filme segue os últimos passos de Molly (Beanie Feldstein, que também estrela "Lady Bird") e Amy (Kaitlyn Dever) na escola. Pretes a entrar na universidade, Molly tem orgulho de ser uma aluna exemplar, daquelas que abdicou de todas as loucuras da fase para ficar em casa estudando. Com a matrícula pronta em uma das maiores universidades do país, a garota não é sutil em esfregar este fato na cara dos bagunceiros que, segundo ela, não terão futuro; só que, para seu desespero, eles também vão para universidades tão grandes quanto a dela.

Molly então arrasta Amy para a última noite de escola, planejando irem à maior festa da classe, algo inédito na vida de ambas, a fim de compensar o tempo perdido presas em lições de casa. Essa trama em específica, a de nerds pirando o cabeção com bebida e música eletrônica para estarem no mesmo patamar da galera descolada, é nada nova: o delicioso "Projeto X" (2012) é inteiramente sobre isso. A magia de "Fora de Série" está numa discussão que qualquer um que cresceu dentro desse mundinho "CDF" vai se identificar.


Como lidar quando nos esforçamos violentamente em busca de um objetivo e vemos pessoas que não fazem metade do que fazemos conseguirem o mesmo? Você passa a semana estudando para um prova e aquele colega de classe que mal aparece na aula tira uma nota maior que a sua; ou você arrasando no trabalho e é o colega da firma que sempre chega atrasado a ganhar a promoção que você queria. Tal discussão é riquíssima dentro do gênero - e basicamente inédita, não lembro de filmes que abram o tema de maneira tão firme.

O primeiro terço da película é a construção e intimidade do público com as protagonistas, e é aqui que habitam os melhores diálogos. Seja pela simpatia contagiante de Molly, interpretada brilhantemente por Feldstein; à serenidade de Amy, uma lésbica em início de vida da atividade sexual, a dupla rende momentos hilários - a cena do panda, meu deus. É importantíssimo também, enquanto percorremos pelo corpo de personagens, ver o cuidado em dar uma larga gama de diversidade em atores e composições: temos todas as cores, tamanhos e sexualidades dentro de um contexto absolutamente crível, evocando a pluralidade que nos é natural.

O meado do longa é resumido pela corrida das meninas em busca do endereço da tal festa, e é aí que o bonde desanda. O ritmo da obra dá uma estancada brusca, com muitos vai-e-vens sem nunca chegar na tal festa; e há blocos de cenas em situações diferentes - como o encontro no barco, a pizzaria e a murder mystery party -, com a maioria delas sendo insossa. Não há o frescor do início e nem a química incontestável da dupla dinâmica consegue alavancar a morosidade - há uma sequência em que Molly e Amy, sob efeito de drogas, se enxergam como bonecas e, apesar de pontuações importantes sobre a padronização dos corpos, é chata demais.


Então elas finalmente chegam na tão almejada festa. O texto da fita é um longo (até demais) caminho em busca de tal objetivo, e ele não faz jus à expectativa. Lembrando de "Projeto X", que também vai passo a passo em busca da festa perfeita, "Fora de Série" empalidece quando não entrega momentos incríveis ou memoráveis ou emocionantes ali no fatídico evento. Existem resoluções comoventes e próximas do público, todavia, com um início tão promissor, não dá para abandonar a sensação de que o filme decresce.

O maior problema de "Fora de Série" é esquecer completamente o que havia de melhor em seu pontapé: o tal estudo sobre esforços diferentes renderem os mesmos objetivos. Isso serve apenas para motivar Molly a cair na noitada, sendo deixado de lado pelo resto do longa, o que é uma pena, já que garantiria um diferencial de todos os outros coming-of-ages que não saltam a superfície do ordinário.

No entanto, tais problemas não são o suficiente para derrubar a produção. Não dá para negar que o filme não mergulha em construções que não sejam tão comuns, porém, sua principal meta é alcançada: abraçar cinematograficamente cada garota que se enxergar na tela. A obra não é tímida em gerar um sentimento de sororidade, exalado pela dupla protagonista ao passar a duração inteira vomitando elogios uma à outra. Nessa fase tão complexa, é um louvor o roteiro evocar a auto-estima de meninas nada dentro do padrão de formas tão criativas. Sujeitas à tantas pressões, Molly e Amy são uma unidade de parceria absoluta que, apesar dos desentendimentos, estarão ali sempre, prontas para dar apoio.

"Fora de Série" é mais uma produção que fortalece o cinema que dá voz às garotas, mesmo não se levando tão a sério - e este é um dos charmes do filme, a forma como tantos dramas são lidados com humor e coração. As competências em diversos setores (a trilha sonora é fenomenal) fazem com que a película esteja acima de um "Sessão da Tarde", mesmo fazendo o mesmo processo de transformar excluídos em maneiros. Pode não ser um "Lady Bird" ou um "Oitava Série", que empurram suas discussões mais profundamente, contudo, "Fora de Série" é sessão divertida que acrescenta a um molde pra lá de cansado.

P.S.: o diálogo sobre a Cardi B deve ser protegido a todo o custo.

Crítica: "Fora de Série" fortalece o coming-of-age voltado às vozes femininas Crítica: "Fora de Série" fortalece o coming-of-age voltado às vozes femininas Reviewed by Gustavo Hackaq on 6/26/2019 03:18:00 PM Rating: 5

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