Crítica: "Detetive Pikachu" é uma fofa propaganda de 1h e meia para vender pelúcia

Carregado nas costas pelos pokémons, o filme tem uma requentada trama que só serve como vitrine dos efeitos visuais

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Se você nasceu nos anos 90, provavelmente não escapou do tsunami cultural que foi "Pokémon". Crescer com aquelas criaturas fantásticas no anime, exibido nos finados programas infantis matinais, basicamente fez parte da história de muita gente - e eu aqui me incluo. Da primeira geração, com Squirtle, Charmander e Bulbasaur, até a atual e oitava, acompanhamos a expansão da franquia, que nasceu com o "Pokémon Red & Blue", videogame lançado em 1996.

O processo de transmídia já alcançou níveis gigantescos: já foram lançados mais de 20 filmes e mais de mil episódios do anime. Enquanto tudo ainda habitava o campo da animação, o anúncio do primeiro live action foi recebido com entusiasmo: "Detetive Pikachu", baseado no jogo de mesmo nome, é dirigido por Rob Letterman, diretor veterano em efeitos especiais e mistura entre filmagem real e computadorizada - ele assina "O Espanta Tubarões" (2004) e "As Viagens de Gulliver" (2010).

A trama é conduzida por Tim (Justice Smith, de "Todo Dia", 2018), um jovem de 21 anos que desistiu de treinar pokémons quando seu pai o abandona para estudar os bichinhos. Ao descobrir que o pai morreu em um acidente, ele esbarra em um Pikachu falante (dublado com energia por Ryan Reynolds), o pokémon parceiro do pai, que tem convicção de que o homem não morreu no acidente. Os dois se unem para tentar descobrir a verdade.
 
É claro, apesar das filmagens reais, as criaturinhas foram feitas com CGI - a mesma técnica usada no próximo "O Rei Leão", em "Animais Fantásticos e Onde Habitam" (2016) e no vencedor do Oscar, "Mogli: O Menino Lobo" (2016). E não dá para fugir: são elas que guardam o coração do longa. A magia de "Detetive Pikachu" acontece cada vez que um pokémon surge na tela, e felizmente eles estão por toda parte. No universo da obra, existe o mundo convencional, onde os pokémons vivem na natureza e são capturados pelos humanos com as pokebolas; e há a cidade de Ryme, projetava especificamente para a coexistência de humanos e pokémons.


É bem criativa a forma que a cidade é construída, mais precisamente na maneira em que os pokémons, de acordo com suas habilidades, são incorporados nas atividades humanas. Por exemplo, Pidgeotos cuidando dos correios, Loudreds como caixas de som vivas nas festas e Jigglypuffs como estrelas da música (ou nem tanto). Na primeira ida de Tim em Ryme, a câmera passeia pela área enquanto a plateia caça pokémons com os olhos, maravilhado pelo design verossímil deles. É uma explosão de cultura pop, algo que vemos em "Jogador Nº 1" (2018) e "Uma Aventura LEGO" (2014)

Seja com pokémons estranhos, como o Mister Mime, até os peludinhos, como o protagonista Pikachu, o esmero com a orquestração dos reais protagonistas da película é incrível. Em uma cena, Pikachu se molha, e é glorioso como os efeitos visuais dão vida aos pelos escorrendo da criatura - dá vontade de apertar. Quanto mais eles aparecem, melhor.

Se esses aspectos técnicos são a glória da fita, talvez o melhor ponto de "Detetive Pikachu" esteja no fato de Tom, o Ash da vez, ser interpretado por um ator negro. Um produto de apelo comercial tão massivo se preocupando com uma boa representatividade é um júbilo, prova da consciência da indústria pela diversidade de suas obras mais abrangentes - a produção tem a maior abertura para um filme inspirado em videogame. Os aspectos de sua negritude não são explorados pelo roteiro - até porque não são importantes dentro do mote escolhido pela narrativa -, todavia, é reconfortante imaginar a quantidade de crianças negras que vão se encantar ao se verem num filme tão grande.


Porém, as qualidades do longa acabam aqui. É decepcionante, mas não surpreendente, ver o quão ordinário é o roteiro na construção de seu plot - e digo que não é surpreendente porque Rob Letterman nunca encabeçou uma obra com um roteiro verdadeiramente bom ("O Espanta Tubarões", mesmo sendo um primo pobre de "Procurando Nemo", 2003, é o melhor de seus filmes). A coisa complica quando o texto foi escrito por q-u-a-t-r-o pessoas - e uma delas, Derek Connollu, é responsável pelo roteiro de várias farofas hollywoodianas, como "Jurassic World" (2015), "Monster Trucks" (2016) e "Kong: A Ilha da Caveira" (2017). Não dava pra esperar algo muito diferente.

Com exceção de Tim e o Pikachu, personagens se tornam quase descartáveis, entrando e saindo de cena para empurrar a trama, sem consistência alguma. Sobrou até para Rita Ora (da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", 2015-18, auge), um dos vários atores que devem ter filmados suas cenas em um ou dois dias. Parece que todo o orçamento ficou a cargo dos artistas visuais responsáveis pelos pokémons, enquanto todo o resto saiu como dava - a trilha sonora é especialmente insossa, um compilado de qualquer mísero filme de animação.

Sustentado pela nostalgia avassaladora criada por meio da magia das criaturas, "Detetive Pikachu" pode até ser um dos melhores filmes adaptados de um videogame, mas o rótulo serve de nada quando podemos contar em uma mão a quantidade de adaptações de consoles que valem a pena - e sobrariam dedos. Todo o encantamento com o design dos pokémons vai sendo empalidecido por um roteiro que não entrega um momento de autenticidade, apenas reciclagens preguiçosas de histórias já esgotadas (não dá nem para lembrar do vilão, tamanha irrelevância). A impressão que fica é que o filme é uma propaganda de 1h e meia para vender produtos licenciados da marca ao invés de uma mercadoria competente em audiovisual - tão verdade que eu quero uma pelúcia do Gyarados o mais rápido possível.

Crítica: "Detetive Pikachu" é uma fofa propaganda de 1h e meia para vender pelúcia Crítica: "Detetive Pikachu" é uma fofa propaganda de 1h e meia para vender pelúcia Reviewed by Gustavo Hackaq on 5/27/2019 01:26:00 PM Rating: 5

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