Crítica: "Tinta Bruta" e o cinema de resistência brasileiro quando a cultura vira descartável

Campeão no Festival de Berlim, o longa aborda a vida LGBT na imensidão das grandes metrópoles

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Sempre quando tenho a oportunidade, abro espaço nessa singela coluna para enaltecer o cinema nacional, que ainda sofre preconceito dentro do nosso próprio país. Estamos em meio a uma era histórica do audiovisual tupiniquim, com longas fenomenais que infelizmente são mais apreciados lá fora. Acho ainda mais notório quando tais bons filmes são feitos fora do eixo principal da nossa indústria - São Paulo/Rio de Janeiro -, como é o caso de "Tinta Bruta".

Dirigido pela dupla Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, o longa estreou no Festival de Berlim 2018, onde ganhou o Teddy Award, dado ao melhor filme LGBT da seleção - prêmio esse vencido também pelo oscariado "Uma Mulher Fantástica" (2017) e nosso conterrâneo "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" (2014). O Teddy é um dos três grandes prêmios voltados ao cinema LGBT no mundo, junto com a Queer Palm no Festival de Cannes e o Queer Lion no Festival de Veneza, o que garante o prestígio da honraria.

Passado em Porto Alegre/RS, Pedro (Shico Menegat) é um garoto tímido e retraído que, a fim de fugir de uma crise pessoal, ganha fama como "GarotoNeon", se exibindo na webcam em um site gay - seu diferencial é dançar sob a luz negra com tintas fluorecentes. Existem três pontos-chaves dentro da trama que vai conduzir a narrativa da obra. O primeiro deles é o fato de que Pedro está sendo julgado por um crime que inicialmente não sabemos qual é. A primeira cena já é o protagonista no tribunal, com apenas uma pessoa o apoiando, sua irmã, Luiza (Guega Peixoto).


Entrando na intimidade dos irmãos, fica claro que Luiza é a única pessoa que consegue compartilhar o mundo fechado de Pedro. Sem as figuras paternas, eles têm somente um ao outro para cuidar, só que aqui reside a segunda ruptura do roteiro: a irmã está indo embora da cidade, o que deixará Pedro completamente sozinho. Ela demonstra real preocupação com a saúde do irmão, fazendo-o jurar que irá sair de casa todos os dias ao invés de se enclausurar ainda mais.

O terceiro fincamento de narrativa surge quando Pedro descobre que outro cara do mesmo site em que trabalha roubou a ideia de suas tintas neons - e também seus clientes. Pedro vai até o tal concorrente, Leo (Bruno Fernandes) - ou "Guri25", seu nick do site - e descobre que, muito mais que uma cópia, ele é um rapaz simpático até demais, o que gerará um casal no trabalho e na cama.

A trama-central de "Tinta Bruta" é deveras simplória: o florescer de uma relação que surgiu com uma rivalidade. Leo demonstra desde o primeiro momento uma atração por Pedro, todavia, há pesadas e grossas barreiras construídas ao redor do protagonista, um ser estranho que não permite (nem se permite) estranhos em seu universo. O grande valor da película reside nas sutilezas que surgem com o decorrer de sua duração.


"Tinta Bruta" é fundamentalmente um filme urbano: o relacionamento das pessoas com a cidade é fundamental para o entendimento do que a história quer nos contar. A fotografia privilegia vários takes de Porto Alegre, esmagando seus personagens na imensidão de concreto - e é exatamente assim que eles se sentem; é o velho "sozinho no meio da multidão". Por se passar através dos olhos de Pedro, a metrópole é ditadora de solidão, e mesmo com tanto a ser visto, há a latente sensação de que não há lugar para ele.

Quando conhece (quase obrigatoriamente) os amigos de Leo, Pedro nota que tal sentimento é compartilhado. "Todo mundo vai embora da merda dessa cidade", fala um em determinado momento, e o espectador vê personagens chegando e indo embora, num fluxo que, mesmo morando em cidades entupidas de arranhas-céus, muitas vezes não absorvemos. "Tinta Bruta" não foge da agonia da juventude, tema universal e atemporal que o Cinema já explora desde os primórdios - vide "Os Incompreendidos" (1959) e "Juventude Transviada" (1955), grandes nomes a abordarem o tema.

Talvez a sacada mais engenhosa dos diretores é a maneira como a obra observa Pedro, de maneira literal. Seu trabalho é ser visto por estranhos através da internet, e enquanto caminha pela cidade, a fita insere pessoas em suas janelas, como se observassem cada passo do protagonista. O quadro é ainda mais impessoal quando tais pessoas estão em contra-luz, apenas com suas silhuetas à vista. Seja na vida real ou no virtual, Pedro é seguido por seres que não mostram seus rostos.


Essas composições visuais se transformam quando o roteiro expõe o passado de Pedro, e como o bullying sempre se fez presente em sua vida - o que tem relação com o crime que cometeu. Até presente data, ele é ameaçado, humilhado e agredido por ser quem é, o que explica em demasia sua personalidade extremamente fechada, e até porque ele evita sair de casa. No entanto, não conseguia ignorar o fato de que tal personalidade também afeta a plateia, que encontra dificuldade em se conectar com Pedro - sua história é mais imersível, principalmente para quem também é LGBT. Curioso é perceber como a vida de Pedro é composta em cores mortas, encontrando cores apenas na frente da webcam - único momento em que ele se solta.

Como comento no início, acho louvável quando um filme é produzido e filmado fora do eixo industrial do Cinema brasileiro pois acaba, diretamente ou não, sendo um documento. Nós temos cenários no imaginário popular de inúmeras cidades, porém, há tantas outras, centros urbanos em destaque, que não possuem uma "cara". Porto Alegre é capturada com melancolia em "Tinta Bruta", mas sua identidade é guardada e, quem lá reside, vai imediatamente se sentir em casa. Entretanto, a universalidade é mantida sem problemas, revelando como estamos em uma enorme confusão entre os conceitos de "ação" e "movimento": vemos os mesmos lugares e as mesmas pessoas e continuamos com a impressão de que a vida não avança. Quando vamos fazer algo a respeito?

A jornada do protagonista reflete com esmero a jornada do espectador diante do ecrã: o pesar está presente em quase todos os quadros, mas por fim aprendemos que temos que perder para nos libertar. Nessa grande exposição do isolamento urbano, é difícil não se pegar repensando na maneira que estamos inseridos nas cidades e como a constante ocupação do dia a dia nos enclausura ainda mais. Filmes como "Tinta Bruta" largam distantes do puro entretenimento quando levantam a bandeira da resistência e reflexão. E não apenas na abordagem da vivência LGBT, mas também por nascer no auge de um governo que mutila a cultura como vertente descartável de um país. 

Crítica: "Tinta Bruta" e o cinema de resistência brasileiro quando a cultura vira descartável Crítica: "Tinta Bruta" e o cinema de resistência brasileiro quando a cultura vira descartável Reviewed by Gustavo Hackaq on 4/23/2019 02:47:00 PM Rating: 5

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