Crítica: em "Selvagem", a vida de um garoto de programa gay não poderia ser menos que o título

"Selvagem" já faz parte do panteão do cinema LGBT pela sua sinceridade brutal em cima de um prostituto

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Atenção: a crítica contém spoilers.

Félix Maritaud está se tornando um novíssimo ícone LGBT no cinema. O francês de 26 anos participou de três ícones gays seguidos - "120 Batimentos Por Minuto" (2017), "Faca no Coração" (2018) e "Selvagem" (Sauvage), seu mais novo filme. Interpretando personagens gays em todos os três, Maritaud não parece estar interessado em papéis sutis, e cada vez mais abraça filmes que o desafiam em plenitude. De ativista em meio ao boom do HIV nos anos 80 a um ator pornô, é em "Selvagem" que ele encontra o sucesso absoluto.


Dirigido pelo estreante Camille Vidal-Naquet, "Selvagem" segue Léo, um garoto de programa que se apaixona por um colega de esquina, Ahd (Eric Bernard). A obra nos coloca em uma afastada rua que serve como ponto de vários prostitutos, uma vitrine ao céu aberto onde os clientes passam em seus carros e escolhem seus produtos. Léo e Ahd, cada um em um lado oposto da rua, trocam olhares até que um homem contrata ambos para um programa.


O grande diferencial entre os dois é que Léo aceita beijar os clientes, ao contrário de Ahd. O cliente - um cadeirante - tem que pagar por fora só para assistir os dois se beijando, para o deleite de Léo. Ahd se demonstra agressivo com o nível de intimidade, mas não a câmera do filme, nada sutil quando foca nos membros à mostra. Pudores é uma palavra que não existe na vida de um prostituto - e muito menos no seu retrato em audiovisual.

O cadeirante escolhe dispensar Léo e continuar apenas com Ahd, o que desencadeia um gritante ciúmes sobre o protagonista. A persona de Ahd é construída com complexidades pelo roteiro, quando ele diz que não é gay e apenas está ali por sobrevivência - e não perde tempo em ficar com uma menina na frente de Léo. Não seria um filme gay se o amado do protagonista não ficasse com uma mulher, não é mesmo? Apesar de não entregar respostas sobre o modo ambíguo como ele age - é Léo o eixo de toda a trama, sem grandes espaços para outros personagens -, há um ar de auto-depreciação ao redor de Ahd, que usa da agressividade para mascarar a própria homofobia. Em outras palavras, ele rejeita a própria sexualidade, ao que parece.


Léo tenta tirar Ahd da cabeça com o trabalho. Para ele, não existe cliente ruim - ele não pode se dar ao luxo de escolher. Saindo com um idoso, ele expressa absoluto carinho pelo homem, que pergunta "Você não tem nojo de mim?". Léo nega, pois tudo o que ele anseia é afetividade. Fica claro que a prostituição para ele não é pelo sexo, e sim pelo contato físico, pela troca de energia. O protagonista mora na rua, e não existe uma noção familiar ao seu redor - e nem junto com todos os outros prostitutos -, o que é fundamental para cimentar a sua condição: ele não parece ter passado e, consequentemente, futuro. Um ser sozinho no mundo. Não é de se assustar o melhor instante de toda a fita, quando Léo, durante um exame, abraça a médica num ímpeto humano avassalador.

Outro grande aspecto abordado pelo roteiro é o uso de drogas por Léo, uma consequência de toda a marginalização de sua vida. Não há tempo ruim para ele, e tudo é aceitável contanto que o ajude a sobreviver. Não há clientes ruins, não há drogas erradas, não há amizades desaconselháveis, tudo vale quando o assunto é existir. E a produção não tem piedade, principalmente em sequências que envolvem sexo. Quando é contratado por dois homens, Léo se vê nas mãos de caras que gostam de sexo hardcore, batendo e humilhando o garoto de programa, até chegar na cena do dildo. Literalmente uma tortura, a passividade de Léo irrita quando não há respeito nem mesmo com seu corpo, o que rende um momento física e emocionalmente devastador - nem mesmo pago pelo programa ele é.

Enquanto isso, Ahd encontra um homem mais velho que propõe que o prostituto seja seu, um programa fixo, como um namoro por pagamento. Ahd aceita de prontidão, para o desespero de Léo, que ainda nutre um amor pelo companheiro de vida. É claro que não estamos diante de um conto de fadas, e o final feliz é uma utopia, todavia, Léo se agarra como se sua vida dependesse de Ahd, e a faísca mínima de prazer que ainda reside na sua existência é extinguida. A bebida, as drogas e o sexo não preenchem mais o vazio.


Por nada mais valer a pena, Léo aceita o programa com um homem notoriamente conhecido pelo sadismo, e sai ensanguentado. É correta a decisão da película de não mostrar o que aconteceu - àquela altura as tensões estão altas demais para chocar ainda mais. Ele é resgatado por um ex-cliente que, como o corte temporal mostra, vira o cliente fixo de Léo - a mesma configuração que Ahd aceita. A vida soa mais amigável com ele, que pela primeira vez aparece limpo e visualmente saudável.

O "namorado" dá uma condição nova a Léo, e pela primeira vez ele tem um teto. Mas no meio da belamente decorada sala, ele se senta de maneira desconfortável no sofá; na mesa de centro, um bilhete chamando-o de "amor" acima de dinheiro. Tudo vai bem. Mas não para Léo, que foge e abandona todo o cômodo mundo. Enquanto os créditos subiam, uma sensação de ingratidão me abatia, sem entender como ele escolheu voltar para a rua quando tinha tudo na mão, contudo, o título do filme é a explicação perfeita: aquele mundo não era o de Léo, com a selvageria já impregnada em seu ser. O mais correto que lhe restava era aceitar sua própria humanidade, por mais complexa que seja.

"Selvagem" já nasceu como marco dentro do cinema LGBT pelo seu olhar documental de uma condição que preferimos não encarar. Sua sinceridade brutal não é apenas motor de uma sessão de entretenimento (por mais drenadora que ela seja), é ferramenta de comoção social fenomenal da difícil vida de um garoto de programa. Longe de qualquer glamourização, fetichismo e julgamento moral, o filme vira um documento do quão desumanizadora é a marginalização da prostituição - aproximando o homem da selvageria - e manifesto da intragável solidão de seu protagonista, uma mercadoria à baixo preço que está sedenta por qualquer demonstração de afeto. E não estamos todos nós?

Crítica: em "Selvagem", a vida de um garoto de programa gay não poderia ser menos que o título Crítica: em "Selvagem", a vida de um garoto de programa gay não poderia ser menos que o título Reviewed by Gustavo Hackaq on 4/04/2019 03:53:00 AM Rating: 5