Crítica: os indicados ao Oscar de "Melhor Curta", quais valem (muito) a pena e como assisti-los

Curtas ainda são subestimados no Cinema, mas podem ser fontes de histórias impressionantes

Cê já segue o @instadoit? Também temos conteúdo te esperando por lá! ;)

Eu sou grande entusiasta de curta-metragens. No Cinema, há uma valorização localizada em cima dos longas, tanto que, no Oscar, a categoria de "Melhor Curta" não tem o menor respaldo perto de "Melhor Filme". Claro, há todo um jogo mercadológico por trás dos longas, o que não acontece com curtas - você alguma vez na vida foi ao cinema assistir exclusivamente um curta? É entendível, mas não por isso precisamos apenas aceitar.

Para tentar diminuir essa áurea de subestimação, vim com o intuito de agregar à comunidade com críticas aos cinco indicados ao Oscar de "Melhor Curta" em 2019 - com seus respectivos links para download (é só clicar nos títulos). Nunca no Cinematofagia disponibilizei links, porém, a situação de curtas é muito diferente dos longas, que possuem lançamento comercial. Se não for por meio da internet, nós provavelmente jamais assistiremos tais filmes, então o intuito de disseminar cultura é válido.


#5 Detenção, de Vincent Lambe

Sinopse: Dois meninos de dez anos são detidos pela polícia sob suspeita de sequestrar e matar uma criança. Uma história verdadeira baseada em transcrições de entrevistas e registros do caso James Bulger, que chocou o mundo em 1993.

Filmes baseados em fatos são produtos de interesse imediato da plateia, na nossa insana busca pela verdade na arte mais mentirosa que existe. Com "Detenção" não é diferente, principalmente quando se trata de um caso tão aterrador. É quase inconcebível a ideia de que duas crianças torturaram e assassinaram um bebê com requintes de crueldade - mas claro, os detalhes gráficos não estão expostos na tela.

A maior polêmica ao redor do curta é que a mãe do garotinho morto não deu permissão para a história ser contata no Cinema, pedindo que o filme fosse barrado e, após a indicação ao Oscar, tivesse a vaga excluída pela Academia. O diretor comentou que não acataria o pedido por acreditar na importância da mensagem da fita: precisamos educar melhor nossos filhos.

A verdade é que "Detenção" não é um filme tão bom, e o motivo é simples: sabendo da premissa, não há muita coisa a ser explorada pela adaptação audiovisual. Tirando as atuações infantis - Ely Solan dá um show -, pouco é desenvolvido, e a escolha da fraca narrativa é a culpada, que vai e vem na linha temporal, introduzindo flashbacks em meio à trama presente. Com cinco minutos já percebemos que tudo aquilo é uma repetição espetacularizada de si mesma.


#4 Fera, de Jérémy Comte

Sinopse: Dois garotos brincando em uma mina abandonada sofrem reviravoltas quando a brincadeira deixa de ser um jogo. Baseado num recorrente sonho do seu diretor.

Colecionador de prêmios em festivais mundo afora, não foi uma surpresa quando "Fera" foi indicado ao Oscar. O curta canadense surgiu a partir de um sonho do diretor - e a impressão é perfeitamente exprimida na tela. Cinematograficamente perfeito - os enquadramentos, as cores e as locações são de tirar o fôlego -, o filme segue intimamente a relação de dois amigos, que brincam e se desafiam enquanto a Natureza está ali, sempre observando.

Não espere grandes arcos dramáticos aqui - "Fera" é um conto sobre a perda da inocência, transformado em uma metáfora sobre o momento exato em que o mundo deixa de ser uma aventura aos olhos infantis e se torna um lugar perigoso. Com uma atmosfera onírica, a manipulação de sensações por parte do curta é fenomenal, daquelas experiências que só o Cinema nos dá. Quando as luzes se apagam, realmente parece que acordamos de um sonho que seguiu um rumo errado.


#3 Mãe, de Rodrigo Sorogoyen

Sinopse: Em casa, em seu apartamento com sua própria mãe na Espanha, uma mulher recebe um telefonema de seu filho de seis anos, que está de férias na França com o pai. O pesadelo começa.

O curta de Rodrigo Sorogoyen é aberto com um travelling numa praia deserta, cenário paradisíaco de férias festivas ou um romântico fim de semana. O corte geográfico é afiado, e somos jogados no apartamento de uma mulher que, com sua mãe, jogam papo fora. Quando o celular da mulher toca, tudo vai por água abaixo.

Filmes que giram ao redor de uma ligação não são novos, e "Mãe" não se preocupa com ineditismos. Sabendo disso, a produção investe pesado em sua técnica, com toda a história transcorrendo em um glorioso plano-sequência - tudo na tela está em tempo real, e embarcamos na insana montanha-russa junto com as personagens - e a atuação da protagonista sustenta o curta.

Temos aqui uma aulinha de condução climática, com dois pólos gritantemente distintos: o início leve e descontraído até o pavor do clímax. Deu tão certo que já está sendo feita a versão em longa da mesma história - o que, confesso, acho que não proverá o mesmo sucesso. A grandiosidade da história é vindoura do plano-sequência (o que provavelmente não se repetirá com um longa) e a maneira direta que a trama é apresentada. Mas estamos aqui para ver.


#2 Marguerite, de Marianne Farley

Sinopse: Uma senhora idosa e sua enfermeira desenvolvem uma amizade que a levará a desenterrar desejos e paixões não confessados, ​​e assim fazer as pazes com seu passado.

Atenção para "Marguerite", o curta LGBT para guardarmos nos nossos corações. Um filme puramente feminino - é dirigido, escrito, atuado e produzido por mulheres -, Marguerite é uma idosa absolutamente fofa que, mesmo com os problemas de saúde, carrega um sorriso no rosto. Ela e sua enfermeira se dão absolutamente bem, até o dia em que a senhorinha descobre que a enfermeira é lésbica. Aquilo vai girar seu mundo.

Mas acalme-se, essa ruptura de realidade era tudo o que Marguerite precisava. Com menos de 20 minutos, "Marguerite" me fez chorar com poucos longas, tamanha sensibilidade. Melhor ainda: toca em uma temática quase esquecida, a sexualidade na terceira idade. O que podemos esperar de uma idosa lésbica que não viveu no mesmo mundo em que nós vivemos, tão mais liberal?

"Como é amar uma mulher?". "É lindo". Para morrer de tanto amor.


#1 Pele, de Guy Nattiv

Sinopse: Em um pequeno supermercado em uma cidade operária, um homem negro sorri para um menino branco de 10 anos. Esse gesto inocente provoca uma guerra implacável entre duas gangues.

O vencedor  da categoria no Oscar 2019 foi "Skin", do iraniano Guy Nattiv - deveras merecido, era o melhor entre os fortes indicados. O objetivo principal do curta é óbvio: retratar a América do momento presente. "Pele" é uma fatia temporal incisiva e discorre em cima da era Trump, que representa mudanças drásticas do corpo social da maior potência mundial - que infelizmente é derrama através do globo, como podemos ver aqui mesmo.

A fita foca na vida da família branca, supremacistas raciais. Com zero preparo para a função paterna, os pais criam seu filho das maneiras mais irresponsáveis possíveis - o menininho sabe atirar e bebe cerveja quando quiser. A receita para o desastre é terminada com o encontro com o homem negro no supermercado, uma cena assustadora pela violência gratuita.

"Pele" nada mais é que uma obra-prima avassaladora sobre o câncer do conservadorismo, que parece atingir níveis cada vez mais desumanos. Alguns acontecimentos, conduzidos com brilhantismo, são ridiculamente reais - o clímax é o ápice do absurdo -, mas essa é a questão: soam reais e atuais. A comprovação cereja-do-bolo do impacto do filme é a enxurrada de comentários negativos vindos principalmente de norte-americanos brancos - no site Letterboxd, um dos maiores banco de dados de filmes, mais de 30% dos votos são das menores notas possíveis (meia e uma estrela). Se doeu, então é bom.

Crítica: os indicados ao Oscar de "Melhor Curta", quais valem (muito) a pena e como assisti-los Crítica: os indicados ao Oscar de "Melhor Curta", quais valem (muito) a pena e como assisti-los Reviewed by Gustavo Hackaq on 3/16/2019 02:53:00 PM Rating: 5

0 COMENTÁRIOS

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.