Crítica: a frustração de "Se a Rua Beale Falasse" vem do fato de ela ter esquinas demais

Do diretor de "Moonlight", "Rua Beale" não consegue alcançar o antecessor nem soar um forte filme por si só

O maior medo e desejo do artista é chegar no topo. Barry Jenkins conseguiu. Com "Moonlight: Sob a Luz do Luar" (2016), o cineasta, em seu segundo filme, foi além do topo e orquestrou uma das maiores obras-primas da história. Pode até soar uma hipérbole, mas "Moonlight" é um marco para a arte e para a indústria: primeiro longa LGBT e totalmente negro a vencer o Oscar de "Melhor Filme".

Qualquer artista da Sétima Arte deve querer o mesmo. Porém, aí surge concomitantemente o maior medo. Jenkins, que levou o Oscar de "Melhor Roteiro Adaptado", enquanto ainda saboreava as glórias merecidas de "Moonlight", foi recebido com a questão: "E agora?". Essa é a cobrança constante, o que você vai fazer para igualar o sucesso anterior. "Moonlight" se torna o ápice e a maldição eterna: todo trabalho de Jenkins será inevitavelmente comparado.

Quando fui assistir "Se a Rua Beale Falasse" (If Beale Street Could Talk), a nova fita de Jenkins, tentei ao máximo deixar as impressões de "Moonlight" de lado, para não cair na armadilha de ver o filme com as lentes do trabalho anterior, afinal, cada produção é única - e, sendo bem sincero, seria impossível superar a saga de Chiron. Felizmente, também, não li o aclamado livro de mesmo nome de James Baldwin, então pude analisar "Rua Beale" unicamente pelo o que me foi apresentado durante a sessão.

O texto - adaptado por Jenkins - gira ao redor de Tish (KiKi Layne), uma garota de 19 anos perdidamente apaixonada por Fonny (Stephan James). Ela, grávida, tem que correr contra o tempo e, com a ajuda da mãe, Sharon (Regina King), deve provar a inocência do namorado, preso por um crime que não cometeu, antes que o bebê venha ao mundo.


A narrativa utilizada através da montagem é não-linear: a história vai e vem entre períodos diferentes, desde a infância do casal, amigos há anos, até o período atual, com a gravidez de Tish avançando. Para unir todas as cenas, a protagonista narra tanto o que está acontecendo como suas impressões sobre o relacionamento. Me doeu quando percebi que a sensação passada por tudo isso foi mascarar a simplicidade do todo.

Não dá para fugir: o enredo de "Rua Beale" é absolutamente básico. Não há grandes arcos ou ineditismos, e a linha temporal que se desloca parece uma enrolação para que o ordinário soe um pouco mais complexo. Acrescentando a isso, há alguns momentos em que a montagem assume um tom semi-documental, com reconstituições de situações com os personagens olhando para a câmera em uma filmagem não-diegética. A linguagem adotada pela película é muito fraca. São tantas quebras de ritmos, coadjuvantes descartáveis e fugas do eixo central que as duas horas se arrastam.

O primeiro grande conflito do roteiro não passa pela relação de Tish e sua gravidez, já que Fonny, mesmo preso, fica contente com a notícia. O problema é que a família do namorado não aprova Tish, mais especificamente a sogra, Sra. Hunt (Aunjanue Ellis). Enquanto sua família celebra a vinda do bebê, a notícia não cai com leveza nos ouvidos da sogra, extremista religiosa. Por algum motivo - que já quebrei muita cabeça sem alcançar a solução - esse é um dos inúmeros exemplos no decorrer do filme que não exprime a emoção devida.


Há pausas dramáticas deslocadas, atuações muito rasas (as cunhadas de Tish, principalmente), diálogos aos gritos que não parecem reais, enfim, a demonstração que "Rua Beale" realiza é a de artificialidade. Dá para entender que o erro não está na adaptação - Jenkins está mais uma vez indicado ao Oscar pelo roteiro -, e consegui ver que, no papel, os diálogos seriam fabulosos. Na tela, todavia, o filme não chega lá. Posso destacar uma sequência: quando Tish está no advogado e ele chama o namorado como Alonzo (seu real nome), a garota interrompe e faz um discurso de que ele deve ser chamado como Fonny. Lendo o roteiro, poderíamos pensar "nossa, esse momento vai ser bom". A cena finalizada passa longe, funcionando na teoria, não na prática.

Em questão de competência em atuação, o trio principal não sofre danos. KiKi Layne (em sua estreia no cinema) e Stephan James (de "Selma: Uma Luta Pela Igualdade", 2014) basicamente carregam o longa, afinal, é o amor dos dois que fomenta a trama. No entanto, mesmo chovendo no molhado, o filme é de Regina King. Em sua primeira indicação ao Oscar - de "Melhor Atriz Coadjuvante" -, King exala coesão e domínio, mesmo não aparecendo com tanta frequência. Ela faz o que Naomie Harris fez em "Moonlight", transformando um papel de apoio em peça fundamental do produto. Jenkins está se tornando mestre em catapultar boas atrizes - mas subestimadas - ao estrelato.

Falando no romance dos protagonistas, há esmero para que seja criada uma poetização daquele amor. Tish descreve o nascer da paixão como num conto de fadas, e cria alusões belíssimas - em um momento, ela diz que se surpreendeu quando viu Fonny em seu mundo, mas que, mesmo assim, ele não solta a mão dela; como se eles criassem uma ponte entre os dois mundos, metáfora linda para um relacionamento. As cenas de sexo são quase fabulescas, tudo o que qualquer pessoa pode idealizar como a perda da virgindade irretocável - quase beirando a passar do ponto e cair na forçação. A fotografia cria vários quadros dos dois de perfil, um de frente ao outro, cimentando a impressão de que estamos diante de um amor perfeito.


O primeiro ato, que finca todo o enredo, é como uma construção deslocada do resto do filme. Há uma motivação central bem clara: "Rua Beale" quer pôr na mesa particularidades da vivência negra, o que não existe no começo do filme - aberto por um trecho do romance de Baldwin, falando que a rua Beale é o berço da cultura negra e do jazz, mas nada disso é realmente explanado pelo começo. A prova? Se os personagens fossem brancos, toda a trama da mãe querendo tirar o inocente marido da cadeia mudaria em nada. É só da metade para o final que o filme embarca nas particulares, como se algo o lembrasse de que deveria fazer aquilo: Fonny foi enquadrado criminalmente por um policial (branco). Repressão policial contra o corpo negro? Que novidade.

A representatividade e o estudo das dificuldades daquela população, à mercê de um sistema opressor, é o que faz "Rua Beale" ter seu valor. Várias produções protagonizadas por negros e que abordam o racismo - como o indicado a "Melhor Filme", "O Guia" (2018) - acabam falando diretamente com pessoas brancas, no intuito de educar plateias, o que é ainda importante. "Rua Beale", contudo, está mais interessado em lembrar da dignidade física e social do negro. Enquanto Tish fala, envergonhada, que está grávida, a irmã com firmeza rebate: "Não curve sua cabeça".

Barry Jenkins, antes mesmo de falar com imagens, fala com textos: "A Rua Beale é barulhenta e deixo a você o entendimento desse barulho". Só que quase não temos barulho, nem vida, nem pulsação, nem energia. "Se a Rua Beale Falasse" não abraça originalidade e identidade, nem mesmo quando entra nos quartos da população negra e sua luta diária por existir e manter o amor que os une. A sensação de frustração é iminente quando temos um "Moonlight" como antecessor, mas, mesmo analisando "Rua Beale" como produção unitária, são esquinas demais e história de menos. Se a rua Beale falasse, ela não teria tanto a dizer.

Crítica: a frustração de "Se a Rua Beale Falasse" vem do fato de ela ter esquinas demais Crítica: a frustração de "Se a Rua Beale Falasse" vem do fato de ela ter esquinas demais Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/15/2019 02:06:00 PM Rating: 5

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