Crítica: a glória de "Infiltrado na Klan" é não querer educar brancos, mas sim empoderar negros

O filme usa do humor para criticar a pouca evolução da igualdade racial quando a KKK volta a mostrar suas garras

Indicado a 06 Oscars:

- Melhor Filme
- Melhor Direção
- Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver)
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Montagem
- Melhor Trilha Sonora

Spike Lee é - e sempre foi, desde a década de 80 - um dos grandes nomes do cinema afro-americano. E, mesmo assim, é um diretor bastante subestimado. É certo que em sua filmografia há algumas escolhas duvidosas - se meter com o remake de "Oldboy" (2013) foi uma mácula -, porém, Lee merecia muito mais apreço do que recebe - ele é o diretor do icônico vídeo de Michael Jackson, "They Don't Care About Us", aquele mesmo filmado no Brasil.

Sua carreira é marcada com inúmeros expoentes negros - "Malcon X" (1992) e "Chi-Raq" (2015), por exemplo -, mas há dois grandes pilares que comprovam a expertise do diretor: "Faça a Coisa Certa" (1989) e seu novo filme, "Infiltrado na Klan" (BlacKkKlansman). Desde a estreia no Festival de Cannes 2018, "Infiltrado" era chamado de "o retorno à boa forma" de Lee, recebendo na premiação o Grand Prix, segunda maior honra do festival.

"Infiltrado" segue Ron Stallworth (interpretado por John David Washington), o primeiro policial negro do Colorado. Em plena ascensão da Ku Klux Klan nos anos 70, ele, juntamente com Flip Zimmerman (Adam Driver), arma um plano para se infiltrar na organização e desmantelá-la de dentro para fora. Apesar de uma cinebiografia, e de levantar assuntos pra lá de sérios, o tom usado por Lee na película é a de humor negro (sem trocadilhos): a cena em que Ron liga para a KKK e, imitando a "voz" de um homem branco, fala como odeia negros, é hilária.


Fica ainda mais absurdo quando sabemos que essa é uma história real: Ron é um policial de verdade e (quase) todos os acontecimentos são verídicos. O primeiro passo do protagonista, entrando na polícia mesmo sendo negro, já é uma vitória. É claro, todos os policiais o olham com desconfiança, um corpo estranho que destoa dentro do todo. Isso quando não é sumariamente rebaixado pelos colegas de trabalho, que tentam intimidá-lo pela hierarquia profissional.

As funções de Ron são irrisórias; ele cuida da papelada, ficando escondido no arquivo. Sua maior vontade é ir para as ruas, enfrentar os dilemas do cotidiano, função negada pelos superiores, até que surge uma oportunidade de ouro: ele infiltra-se na reunião de um ativista negro, a fim de ver se há perigos dentro do evento. Para os outros policiais, um policial negro era perfeito para o tal trabalho, mas mal esperavam eles que Ron acabaria não apenas vigiando, mas também acordando para a questão racial.

Naquele oceano de black-powers, os discursos evocam a valorização da beleza, história e dignidade da pessoa negra. Lee usa o filme como palco para reivindicações que burlam a cerca da ficção e atingem a plateia diretamente - ele está quase que quebrando a quarta-parede narrativamente, propulsionando emoções quando seus personagens gritam "Nós somos negros e nós somos lindos" atrás de um palanque escrito "PODER". Há descrições do fenótipo negro e construções preciosas, como os métodos que a supremacia branca usa para o negro odiar o próprio corpo.


E esses tapas na cara são em menos de 20 minutos da fita. Não posso falar em nome de ninguém além de mim mesmo, mas eu, enquanto pessoa branca, transbordei de uma sensação de realização enquanto ser humano logo nesse primeiro ato. Lee não palestra, não dá uma aula, contudo, gera desconstruções efetivas no plano social real. O sucesso é ainda maior quando não existe a sensação de que a narrativa é não interrompida para subir a bandeira da igualdade racial; tudo é diegeticamente fluido.

O encontro transforma as ambições de Ron, e ele tem a ideia de se infiltrar na KKK - maior ameaça existente aos negros. Tudo parece uma loucura descabida - a instituição demandava muita influência através de seus líderes, a polícia não queria mexer com algo tão grande e, óbvio, um policial negro batendo de frente seria preza fácil demais. Ron se esgueira através dos canais de informação da KKK e, quando percebe, está idealizadamente dentro. "Idealizadamente" porque seu nome foi aceito no clã, porém, seu corpo era uma história muito mais complexa.

A saída foi: Ron é a cabeça do falso "Ron", enquanto Flip, que é branco, é o corpo, aquele que vai ao encontro da KKK. De início o plano dá mais que certo, e Flip volta ao quartel recheado de informações sobre os propósitos da seita, porém, ele levanta desconfiança em alguns membros, principalmente de Felix (Jasper Pääkkönen). Flip é judeu, e Felix, não satisfeito em ser um psicopata racista, é antissemita. As relações vão se tornando cada vez mais instáveis - e sabemos que a bomba vai explodir em breve.


Os momentos mais interessantes de "Infiltrado na Klan" são aqueles em que estamos dentro da KKK. A áurea de supremacia é venenosa, e produz asco notar como aquelas pessoas se alimentam do ódio, da intolerância e da ignorância. Os encontros não se resumem a discussões sobre como deus fez o homem branco em sua perfeição, mas chegam a níveis em que os membros armam atentados para matar negros, tudo com um tom leve e jocoso. É de revoltar qualquer um.

Mas a sequência que me fez comprovar a excelência do longa foi quando Lee escancara a nocividade de "O Nascimento de Uma Nação" (1915). O épico de D. W. Griffith, um dos maiores diretores da história e revolucionário em termos de linguagem cinematográfica, tem mais de 3h puras de racismo. É inegável o talento de produção da película, que é sempre referenciada nesse quesito, mas Lee sabe que não há técnica irretocável que justifique o conteúdo deplorável. Os associados da KKK e suas esposas assistem ao filme como na Sessão da Tarde: pipoca, aplausos e gargalhadas, enquanto negros são postos em posição de lixo.

100 anos depois de "O Nascimento de Uma Nação", o Cinema pode já ter adquirido uma consciência de classe, mas a realidade do negro continua precária. Não por acaso, o trecho final de "Infiltrado na Klan" traz imagens reais de manifestações contra a população negra, e não há misericórdia para a plateia, que leva para casa cenas assustadoras de ódio e violência. Lee tem consciência da urgência de gritar seus discursos quando ainda temos movimentações racistas e genocídio negro - ele próprio, dentro de sua pele, não pode transitar em paz pela bandeira que levanta.

Se seu filme é afiado, é resposta da mesma espada que corta a pele negra diariamente, e o maior acerto de "Infiltrado na Klan" é não estar preocupado em educar brancos, mas sim lembrar que a luta é diária. Sua glória é ver que, apesar de estar dentro de uma zona de conforto enquanto temática, a fonte de Spike Lee parece inesgotável, e, além disso, cinematograficamente magistral com "Infiltrado na Klan".

Crítica: a glória de "Infiltrado na Klan" é não querer educar brancos, mas sim empoderar negros Crítica: a glória de "Infiltrado na Klan" é não querer educar brancos, mas sim empoderar negros Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/19/2019 12:40:00 PM Rating: 5

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