Crítica: o filme trans "Garota" e quando local de fala não é garantia de competência

Baseado na vida de uma bailaria trans real, o longa é uma delicada visão que foge do fetichismo

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De todas as letras da sigla LGBT, o "T" é o que ainda está um pouco atrás no quesito produção cinematográfica. Mas nos acalmemos: o cinema trans, felizmente, vem crescendo ano a ano, não só em termos de produção, mas também em qualidade. Só vermos "Uma Mulher Fantástica" (2017), o primeiro longa trans a vencer o Oscar de "Melhor Filme Estrangeiro" ano passado - e merecidamente. A obra chilena foi aclamada mundo afora tanto pelo filme em si como por um detalhe relevante: sua protagonista, a fabulosa Daniela Vega, é uma mulher trans.

Essa é uma discussão que circula a indústria: buscar artistas LGBTs para realizarem filmes LGBTs. A problemática é moderna, e demonstra como o público está consciente da importância por trás da representatividade, porém, um efeito extremista vem sendo posto na mesa. Podemos observar bem com as críticas ao redor de "Garota" (Girl), escolhido da Bélgica para representar o país nas premiações internacionais. Indicado ao Globo de Ouro e vencedor de vários prêmios no Festival de Cannes 2018, incluindo a Queer Palm, mostra exclusiva para longas LGBTs, o filme tem sido desvalidado por sua protagonista, Lara, ser interpretada por um garoto cis, Victor Polster.

Somando a isso, o diretor da fita, Lukas Dhont, também é um homem cis. O resultado? "Garota" foi taxado de "filme trans para pessoas cis", um limitador alarmante. Sim, eu também sou um homem cis, contudo, me preocupo fortemente com representações diversas no Cinema, principalmente no meio LGBT, já que estou dentro dessa população. Fui assistir a "Garota" receoso, esperando um trabalho que transforma sua protagonista em objeto, não em sujeito. Felizmente, obtive o oposto.

Antes mesmo de entrar nos trâmites da narrativa, preciso discorrer sobre o processo de produção de "Garota". Em primeiro lugar, a ideia do filme surgiu quando Dhont quis fazer um documentário sobre a vida de Nora Monsecour, bailaria trans belga. Ao declinar a proposta, Monsecour se uniu a Dhont para criarem um filme de ficção baseado na vida da mulher, com a própria Nora sendo co-roteirista (apesar de pedir para ser deixada de fora dos créditos).

Só isso derruba o argumento de "cisgenerização" do filme: há uma base sólida de fundamentação do que está na tela. Mesmo evitando a mídia, Nora foi a público dar diversas entrevistas defendendo o filme, que dividiu a comunidade LGBT e recebeu pesadas retaliações. Todavia, até mesmo a escalação de Victor Polster é justificada. A produção fez testes com 500 pessoas, e só 7 delas eram mulheres trans. Polster nem estava nesse grupo, e sim naquele que fez a audição para os bailarinos figurantes - ele é dançarino profissional. Nora escolheu pessoalmente Polster como protagonista juntamente com os produtores e estava presente nos sets durantes as filmagens.


Aonde quero chegar com tudo isso é: nós não podemos dizer quem pode falar o que dentro da arte. Não devemos segregar temáticas para determinadas pessoas em nome da inclusão, porque, ao invés de incluirmos, estamos excluindo. A celebração da diversidade deve ser posta na mesa por quem quiser celebrá-la. Sebastián Lelio, diretor de "Uma Mulher Fantástica", não é trans, e isso não o impediu de realizar um filme maravilhoso.

É claro, a vivência de alguém trans rende muito mais ao contar uma história trans que a imaginação de uma pessoa cis, todavia, querer silenciar "Garota" por não ser dirigido e protagonizado por trans é um desserviço. Isso só vira algo ruim em três pontos. 1: quando a produção tem condições de recrutar artistas que fazem parte da minoria em específico; 2: quando o tratamento dado para essa minoria é desrespeitoso e; 3: quando o trabalho desse artista que emula a minoria é ruim.

Temos exemplo de filme que tem os três pontos na ficha? Temos sim, "A Garota Dinamarquesa" (2015). O filme sobre uma das primeiras mulheres trans a se submeter à cirurgia de resignação sexual é dirigido por Tom Hooper (ganhador do Oscar), protagonizado por Eddie Redmayne (ganhador do Oscar) e distribuído pela Universal (uma das maiores produtoras do planeta). A escolha do diretor e do ator foram feitas, também, por motivos mercadológicos. Seus trabalhos - sim, entrando na enorme esfera da subjetividade - são rasos e injustificáveis. Mesmo dando visibilidade, "A Garota Dinamarquesa" é ruim dentro do cinema trans.

Durante a sessão de "Garota", fica visível a preocupação dos envolvidos em dar um respeitável trato à vida de Lara, de 15 anos. Logo em uma das primeiras cenas, a vemos furando as orelhas, ação tão simplória mas que ainda define bastante nossas barreiras de gênero - ela, por ter nascido "homem", não teve as orelhas furadas quando pequena. Lara vive em um ambiente bastante acolhedor, com seu pai, Mathias (Arieh Worthalter), trabalhando duro para compreender sua transexualidade. Ela a leva às consultas e demonstra preocupação com a saúde da filha.

Só que Lara, no pico da adolescência, está cansada da espera. Seu corpo é uma prisão, e ela quer ao máximo passar logo pela cirurgia de resignação - e não de "mudança de sexo", como é popularmente chamada. O roteiro explica com detalhes os procedimentos que ela será submetida, gerando efeitos distintos e curiosos. O pai fica aflito com a descrição da cirurgia, complexa, demorada e de pós-operatório longo, no entanto, para Lara, é música para seus ouvidos. A ânsia de se encarar no espelho e se sentir totalmente realizada com o corpo é maior que qualquer medo da maca médica.


Lara também passa pela terapia com um psicólogo especializado na vivência trans. Particularmente, busco me aprofundar em relatos de pessoas transgêneras sobre tanto sua visão de mundo como as etapas que passa na vida, e o filme é fidedigno quando entra na terapia: sua função é fazer com que Lara entenda seu corpo e consiga dialogar de uma maneira mais pacífica consigo mesma. A questão é que ela trata a ideia da cirurgia como um deus ex machina, aquilo que vai resolver todos os seus problemas.

Acho que o serviço mais importante que "Garota" faz no âmbito da educação básica da plateia é quando Mathias pergunta se Lara está interessada em algum menino da escola. Ela rapidamente responde "Como você sabe que eu gosto de meninos?". A cena, bem descontraída, é uma pontuação clara de que identidade de gênero e sexualidade são coisas totalmente distintas, uma confusão recorrente.

E tem, também, o balé. A melhor óptica dessa arte no Cinema desde "Cisne Negro" (2010), "Garota" encontra sucesso ao embarcar na rotina de treino de Lara. A fotografia requintada, ainda melhor pelo trabalho de edição, observa o corpo da protagonista sem a sensação de fetichismo - como temos em "Love" (2015) -, e essa observação é inevitável. No balé, o instrumento que produz a arte é o próprio corpo. Além disso, há gritante binarismo dentro da dança, o que faz a existência de Lara ali ainda mais rica.

Com a pesada rotina de treinos, Lara entra numa espiral de ansiedade. Ela aumenta por conta própria a dosagem de hormônios que toma e fica obcecada por uma mudança imediata. A pressão externa massacra - ela está diariamente rodeada de meninas com corpos que ela mesma deseja ter -, o que aumenta ainda mais a pressão interna. Quando mal notamos, o balé deixa de ser algo gracioso e prazeroso para virar um desconto físico da menina. Cada passo que destrói os seus pés existe para esconder a dor psicológica que a consome.


O contexto aqui empregado é prisma do quão ainda estamos despreparados para entender a transsexualidade. Mesmo em uma realidade favorável - com boas condições financeiras e uma família acolhedora -, Lara está afogada em dilemas. Ela se distancia do pai e acompanhamos sua lenta danificação emocional, que vai ecoar no físico. Muitas críticas apontam o dedo para isso, chamando o filme de estereotipamento da riqueza, o que acho patético. Os conflitos emocionais de uma pessoa LGBT podem ser atenuados pelo contexto em que ele habita, mas não é uma certeza de pacifismo. A relação que temos conosco é muito profunda para ser resumida dessa forma. Até mesmo a maneira como a crítica enxerga o filme, em pólos tão distintos, é sinal da necessidade que ainda temos em ampliar os estudos do tema.

Enquanto mantinha um olhar clínico em cima de Victor Polster, lembrava de "Tomboy" (2011), que possui a situação oposta: é um filme sobre um menino trans interpretado por uma menina cis. E, assim como Zoé Héran - protagonista de "Tomboy" -, Polster está magnífico no ecrã. Sua entrega é louvável, tanto nas complicadas sequências de dança como nos vários momentos em que ele dá vida àquela menina trans cheia de bloqueios. Há verdade, há paixão e há excelência em tudo que está ao seu redor. Ele é um dos raros exemplos de atores cis a fazerem jus à escalação em papéis trans, como Felicity Huffman em "Transamérica" (2005) e Georges Du Fresne em "Minha Vida em Cor-de-Rosa" (1997). Mas sim, precisamos de mais Danielas Vegas e mais "Tangerine" (2015), interpretado também por atrizes trans.

É importante lembrarmos que as críticas (tanto positivas quanto negativas) ao redor de "Garota" são válidas e ajudam no crescimento no que tange esse - ainda - tão complexo tema que é a transsexualidade. A sessão é impactante não só pelo o que a fita mostra, mas pelo o que ela gera como sensações, navegando pelas ansiedades, medos e momentos mais obscuros que um LGBT passa ao se ver em uma sociedade que não está capacitada para entendê-lo. Porém, a maior lição que retirei de "Garota" foi óbvia: o local de fala é importante, mas não garante coisa alguma, principalmente se tratando de expertises artísticas. Sua bagagem não vai, necessariamente, fazer um bom filme. Felizmente, não foi o caso de "Garota", um delicado filme baseado na vivência de uma real mulher trans, não uma fantasia erotizada de uma pessoa cis.

Crítica: o filme trans "Garota" e quando local de fala não é garantia de competência Crítica: o filme trans "Garota" e quando local de fala não é garantia de competência Reviewed by Gustavo Hackaq on 2/23/2019 03:13:00 PM Rating: 5

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