Os 40 melhores filmes de 2018: Parte 2

"A Forma da Água", "Hereditário", "Nasce Uma Estrela" e o top 20 do cinema em 2018

Depois de tantas listas - esse ano eu estava inspirado -, finalmente revelo os meus filmes favoritos de 2018. Começando com uma das melhores temporadas do Oscar na década, até lançamentos comerciais e filmes cults de algum país europeu, neste ano decidi listar 40 nomes, cinco a mais que na lista do ano passado. Então o sistema será diferente.

Para não fazer um só post com 40 textos, algo grande demais, optei por dividir a lista em duas, então você está diante da segunda leva, do 20º ao 1º colocado. O critério de inclusão é o mesmo de todos os anos: filmes com estreias em solo brasileiro em 2018 - seja cinema, Netflix e afins - ou que chegaram na internet sem data de lançamento prevista, caso contrário, seria impossível montar uma lista coerente. E, também de praxe, todos os textos são livres de spoilers para não estragar sua experiência - mas caso você já tenha visto todos os 40, meus parabéns, me adiciona no Letterboxd.

Sem mais delongas, eis os maiores filmes do ano - e todas as listas publicadas estão no fim da postagem.


20. A Arte da Discórdia (The Square)

Direção de: Ruben Östlund, Suécia/Dinamarca.
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017 e indicado ao Oscar 2018 de “Melhor Filme Estrangeiro”, “A Arte da Discórdia” é, colocando em uma só palavra, desconcertante. Não, ele não trata de pesados temas ou possui cenas difíceis de engolir, e sim traz debates emoldurados da forma mais sarcástica possível. Discutindo o que diabos é arte, tudo começa dentro de um luxuoso museu que planeja uma campanha para a nova instalação e, graças a um roubo, tudo vai por água baixo. Desconfortável, estranho e divertidíssimo, Östlund nos obriga a vivenciar as loucas situações, em que não sabemos se rimos ou se queremos que acabe logo, sem perder a mão nas críticas pungentes para o pedantismo da burguesia e a crise de refugiados europeia – e tem Elisabeth Moss.

19. Nasce Uma Estrela (A Star is Born)

Direção de: Bradley Cooper, EUA.
Todas as dúvidas ao redor de "Nasce Uma Estrela" são bombardeadas com argumentos audiovisuais do seu esplendor. Um dos raros exemplos de remakes que não são só realizados da maneira correta como superam seus originais, a obra deixa de ser mera viagem aos bastidores da indústria do entretenimento ou mais uma platônica história de amor para realizar um estudo necessário sobre a fragilidade da mente humana e nossa sucessão diária à ruína e ao sucesso. Se sua maior curiosidade é ver Lady Gaga sem maquiagem ou vestido de carne, prepare-se para ser arrebatado pela avalanche de talento que é "Nasce Uma Estela", um espetáculo na tela (e nos alto-falantes).

18. Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Direção de: Spike Lee, EUA.
Spike Lee é porta-voz do cinema afro-americano há décadas, e provavelmente ele encontrou seu nirvana em 2018. "Infiltrado na Klan" é fincado sobre uma louca história real de um policial negro que arma um plano para se infiltrar na Ku Klux Klan, a seita de supremacia branca que assola os EUA até hoje. A pertinência temporal do longa consegue assustar quando a KKK começa a mostrar suas garras em pleno séc. XXI, consequentemente, o tapa na cara de "Infiltrado na Klan" é forte. Sem o intuito de educar brancos (e sim de empoderar negros), o filme é um terror da realidade - a última cena é para aniquilar qualquer segurança da época em que vivemos.

17. Os Animais (We The Animals)

Direção de: Jeremiah Zagar, EUA.
O filme LGBT mais singelo do ano, "Os Animais" carrega a autenticidade digna do cinema independente, falando sobre três irmãos que boiam sobre a vida conturbada de seus pais. Jonah, o mais novo, abre as portas da imaginação para se refugiar dos problemas que vão de pobreza até a personalidade violenta do pai. Uma odisseia lúdica e poética, é belíssimo o olhar quase documental de um garotinho se perdendo enquanto lida com a própria identidade, e Evan Rosado gera uma atuação que faria qualquer ator adulto suar. "Os Animais" é um sonho que tanto encanta quanto entristece, além de ser um urro de liberdade cinematográfica. Um filme que vem do âmago.

16. Blue My Mind (idem)

Direção de: Lisa Brühlmann, Suíça.
O suíço "Blue My Mind" (belo trocadilho no título) é uma daquelas produções que englobam diversos temas, estéticas e narrativas que arrepiam a minha epiderme. Uma adolescente entra na puberdade e se choca pelas mudanças físicas após a primeira menstruação. Uma mistura de "Cisne Negro" com "Grave", a fita de Lisa Brühlmann utiliza do body horror com o intuito de, fantasiosa e cinematograficamente, embarcar o público nas transformações femininas e a liberdade sem limites da juventude. É usar um clichê ao seu favor e solidificar um longa arrebatador.

15. Oitava Série (Eighth Grade)

Direção de: Bo Burnham, EUA.
Confesso que, ao anúncio da estreia do youtuber Bo Burnham na cadeira de diretor, não coloquei esperança. Assim, quando assisti "Oitava Série", a surpresa foi fabulosa. Seguindo os passos de uma garota afogada em ansiedade, o coming of age não está interessado em somente exibir os dilemas convencionais da faixa temporal, alavancando o roteiro a um patamar de debates que burlam as fronteiras de idade. Com uma atuação refinada de Elsie Fisher, "Oitava Série" é uma obra ímpar acerca de problemas mentais na era do Instagram - e é urgente como garotas são as mais suscetíveis a sofrerem pelas pressões sociais que já espetam desde cedo. Gucci!

14. Dogman (idem)

Direção de: Matteo Garrone, Itália.
O escolhido para representar a Itália no Oscar 2019 de "Melhor Filme Estrangeiro" - e infelizmente fora da lista de indicados -, "Dogman" segue um acanhado dono de pet shop que, para não permitir que a filha viva na mesma precariedade, vende drogas - dar banho em cachorros não é o suficiente. Com a melhor atuação masculina do ano - Marcello Fonte, vencedor de "Melhor Ator" no Festival de Cannes -, "Dogman" é uma aula de como a mise-en-scène é fundamental para composição narrativa, e a fotografia soberba destaca o físico decrépito daquela Itália aos cacos, reflexo absoluto dos indivíduos com suas morais em ruínas.

13. A Sombra da Árvore (Undir Trénu)

Direção de: Hafsteinn Gunnar Sigurðsson, Islândia.
Se você gostou de “Relatos Selvagens”, vai ter a epiderme arrepiada por “A Sombra da Árvore”. Duas famílias vizinhas começam uma verdadeira guerra devido a sombra da árvore de uma bater no quintal da outra (!). Assim como a obra-prima argentina, “A Sombra da Árvore”, selecionado islandês ao Oscar 2018, disseca acidamente a falta de comunicabilidade do homem moderno e como estamos no limite da sanidade ao esbarrarmos na fronteira do outro. Mas claro que os personagens aqui não estão abertos para diálogos, preferindo entrarem num inacreditável jogo de xadrez onde cada movimento é mais tresloucado que o anterior. 

12. Os Iniciados (Inxeba)

Direção de: John Trengove, África do Sul.
Boicotado por manifestações homofóbicas, "Os Iniciados" caiu nos braços da crítica tanto pela repressão escancarada que sofreu quanto pela qualidade ao retratar um amor gay batendo de frente com tradições africanas. Um dos melhores e mais relevantes retratos da masculinidade tóxica que o cinema já viu, "Os Iniciados" é película primordial para citarmos nossos próprios privilégios ao passo que os notamos: vivemos num corpo social que permite liberdade das amarras do patriarcado em vários níveis, enquanto naquele meio do filme não há escapatória. Esse "Moonlight" versão africana, que foi semifinalista ao Oscar 2018, se diferencia da fatia gay no cinema ao trazer grande e valioso reforço cultural para compor suas situações, encurralando seus personagens, encarcerados em tradições tóxicas que oprimem e rendem discussões fortes, cruas e urgentes no ecrã.

11. Aos Teus Olhos (idem)

Direção de: Carolina Jabor, Brasil.
Um professor é acusado de assediar um dos seus alunos. Ao invés de levar o caso aos órgãos responsáveis, a mãe do garoto opta pelos júris da contemporaneidade: os grupos de WhatsApp, que condenam imediatamente o professor. "Aos Teus Olhos" é um acerto atual que se utiliza de tratamento quase documental para entrar na esfera do debate, função seminal da Sétima Arte. O longa de Jabor espertamente não está interessado em dar o veredito final sobre o professor, deixando nas mãos da plateia o voto final pela dinâmica imposta da turba que se forma pelas redes sociais. Isso denuncia que, no momento em que as opiniões das pessoas se tornam notícias e, consequentemente, verdades, estamos com legítimas armas em formato de smartphones. As novas tecnologias cada vez mais deturpando o conceito secular de justiça pelo seu mau uso.

10. Sem Amor (Nelyubov)

Direção de: Andrey Zvyagintsev, Rússia.
Um casal à beira do divórcio nutre ódio mútuo que torna a mera aproximação insustentável. Sobra para o filho deles, esquecido e renegado, já que os pais estão ocupados demais se odiando. Quando o menino foge e desaparece (após uma das cenas mais devastadoras do ano – a da porta), eles terão que se aturar para achar a criança. Depois de estudar seu país com “Leviatã”, Zvyagintsev estuda uma situação extrema e costura seus personagens de maneira homeopática, construindo uma trama universalmente afiada que consegue tirar a fé do espectador pelos momentos frios e egoístas do homem. “Sem Amor” é nome absoluto do que há de melhor da misantropia na Sétima Arte. Demos tão errado assim?

9. As Filhas de Abril (Las Hijas de Abril)

Direção de: Michel Franco, México.
Michel Franco é um dos melhores cineastas mexicanos, apesar de não carregar o mesmo prestígio de Alfonso Cuarón (de "Roma"), Guilhermo Del Toro (de "A Forma da Água") e Alejandro Iñárritu (de "O Regresso"); o motivo pode ser os temas áridos e o estilo seco que ele transporta suas discussões à tela. "As Filhas de Abril" tem uma menina de 17 anos que faz de tudo para que a mãe não descubra sua gravidez. Quando Abril tem a revelação, ela se mostra compreensiva e apta a ajudar no que puder, retrato de uma sororidade lindíssima entre aquelas mulheres. Pobre coitada da plateia que não tem ideia do abismo logo ali do lado, e filme nenhum foi capaz de me deixar tão boquiaberto quanto "As Filhas de Abril" em 2018. Falar mais que isso é entregar a história, todavia, essa é uma película que demonstra o próprio slogan: "o amor de uma mãe não conhece limites".

8. Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Direção de: Martin McDonagh, EUA.
A iconicidade de “Três Anúncios” precede sua qualidade: dos memes com os anúncios da fita até seu uso real em manifestações, o longa não é apenas uma obra-prima pela sua fortíssima realização, é o filme certo na hora certa. Nessa onda feminina de denúncias contra abusos, acompanhar a luta de uma mãe em busca de justiça pela morte da filha é a história que precisávamos ver. Um dos mais originais e bem escritos roteiros da década – que venceu o Globo de Ouro –, “Três Anúncios” deixa chover sarcasmo para apontar o dedo na cara da hipocrisia, do ódio e de como caminhamos sob uma estrutura aparentemente sem conserto. Com seus personagens escancaradamente conturbados e situações ácidas, temos em mãos uma produção atemporal - ou você acha que Frances McDormand, vencedora do Oscar pelo papel, virando caçadora de estuprador e colocando todos os homens ao redor em seus devidos lugares não será um clássico?

7. O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer)

Direção de: Yorgos Lanthimos, Inglaterra/Grécia.
Se você já conhece o cinema de Lanthimos, sabe o quão peculiar ele é. Famoso e aclamado por suas histórias absurdas – “Dente Canino”, “Alpes” e “O Lagosta” –, o diretor usa do estranho para metralhar críticas. "O Sacrifício do Cervo Sagrado" não visa tecer críticas sociais tão evidentes; a obra prefere compor uma família disfuncional que só percebe suas falhas quando pressionada diante de uma situação extrema: uma maldição que ameaça matar um a um. Caminhando sobre o gênero suspense, o longa é para deixar qualquer um zonzo pela construção do universo particular e imperdível do diretor e o quão fora do normal são seus personagens, inseridos em cenas involuntariamente cômicas pelo teor de bizarrice. Não há amor familiar maior do que o de "Cervo Sagrado", disso podemos ter certeza.

6. Eu Não Sou Uma Feiticeira (I Am Not A Witch)

Direção de: Rungano Nyoni, Zâmbia/Inglaterra.
Se “Os Iniciados” é a exposição de tradições masculinas africanas, “Eu Não Sou Uma Feiticeira” é sobre ritos femininos no continente, mais precisamente a cultura da bruxaria. Obra fundamentalmente sobre mais uma exploração feminina sob gananciosas mãos do homem, dessa vez temos um contexto inédito no cinema, o que a faz ainda mais relevante. O plano de fundo da produção pode extrapolar as tradições africanas e se encaixar em diversos modos de tratamento rebaixador e degradante que a figura da mulher passa em diversas sociedades até presente momento. Documento cultural necessário e visualmente espetacular, "Eu Não Sou Uma Feiticeira" é realização cinematográfica que se apropria do status de "obra-prima".

5. A Casa que Jack Construiu (The House That Jack Built)

Direção de Lars Von Trier, Dinamarca/Suécia
O nome de Lars Von Tier está sempre de mãos dadas com a polêmica, já que o diretor não tem papas na língua e coloca no ecrã temas tabus e controversos. "A Casa Que Jack Construiu" não foge da regra: ao seguir 12 anos na vida de um serial killer, Trier passa a faca sem piedade no império cultural e político de Donald Trump, expondo as brutalidades sociais afloradas pela vitória do presidente norte-americano - cada um dos segmentos são brutais em termos visuais e violentos como crítica. Mesmo sutilmente (foco nos bonés vermelhos), "Casa Que Jack" escancara a América que ensina crianças a amarem armas, que gera massacres em escolas e que vira as costas para não ajudar o próximo. Uma sátira não só ao "homus trumpus" como ao cinema de horror, Trier nos leva até ao Inferno a fim de mostrar que o conservadorismo virou uma praga.

4. A Forma da Água (The Shape of Water)

Direção de: Guilhermo Del Toro, EUA.
O mais novo vencedor do Oscar de “Melhor Filme” – e um dos mais merecidos títulos da década, “A Forma da Água” é uma triunfal realização ao dar veracidade a um dos amores mais estranhos já feitos no Cinema. Reavendo um período clássico da Sétima Arte, a produção tanto homenageia uma época como distorce padrões ao usar estereótipos em prol de discussões sociais importantes. Milagre visual com um dos finais mais violentamente arrebatadores do ano, eis uma fita sobre excluídos, marginalizados e sem voz. Quando os mocinhos são uma trupe formada por uma mulher muda, uma negra, um homem gay e uma criatura anfíbia da Amazônia, enquanto o vilão é o homem branco americano, é a conclusão de que Del Toro fez um filme político de forma mágica e encantadora. “Incapaz de distinguir sua forma, eu te encontrei todo ao meu redor”.

3. Hereditário (Hereditary)

Direção de: Ari Aster, EUA.
Em boa parte da duração, parece que "Hereditário" se contentará em ser um filme que, ao invés de produzir medo, vai explanar acerca do seu impacto sobre o ser humano, o que é concreto até chegarmos ao clímax, um pesadelo assustador na tela que não mede limites para catapultar o espectador no meio do pandemônio instaurado. Tudo é milimetricamente justificável, e, por isso, ainda mais aterrador e impactante, parindo diante dos nossos olhos um dos melhores finais da história do cinema de terror – soando ainda mais delicioso quando percebemos que “Hereditário” é o trabalho de estreia de Ari Aster, logo num gênero tão difícil. Daqueles filmes fundamentais não só para o terror como também para o Cinema. "O Exorcista" finalmente encontrou seu filhote no novo século.

2. Projeto Flórida (The Florida Project)

Direção de: Sean Baker, EUA.
Quase que completamente esnobado na temporada de premiações – concorreu a apenas UM Oscar –, “Projeto Flórida” é um milagre em audiovisual. Contado através da ótica das crianças, a produção é o retrato agridoce de uma fatia esmagada à margem e varrida para debaixo do tapete: a nova geração de sem tetos. Carregado pela, talvez, melhor performance do ano – de Brooklynn Prince, que tinha SEIS anos durante as filmagens –, seguimos os pequenos criando seus contos de fada para burlarem aquela precária condição, culminando num dos finais mais puros e desoladores já colocados na tela do Cinema. O contraste entre o realismo sufocante que impera sobre os personagens e a magia intoxicante do reino privado moldado pelas crianças é recibo do quão poderoso é esse singelo filme, narrativamente único e esteticamente fabuloso.

1. Direções (Posoki)

Direção de: Stephan Komandarev, Bulgária.
"Direções" entra no banco do carona de inúmeros taxistas após um motorista cometer assassinato e suicídio por não conseguir pagar as taxas altíssimas do banco. O crime se espalha rapidamente entre a população, e a classe, numa noite, leva passageiros enquanto discutem o acontecido. O filme de Stephan Komandarev é um road movie búlgaro, porém, poderia estar nas ruas brasileiras: aquela noite é um espetáculo misantropo e entra nas veias urbanas com o intuito de fixar no globo ocular da plateia uma cidade cuja esperança já foi embora. De suásticas nazistas pichadas nas paredes à corrupção impregnada em cada um pelo sistema capitalista, "Direções" é uma irretocável obra-prima que extrai o que há de mais extraordinário no pessimismo artístico, um alerta sobre os rumos que escolhemos enquanto humanidade.

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Os 40 melhores filmes de 2018: Parte 2 Os 40 melhores filmes de 2018: Parte 2 Reviewed by Gustavo Hackaq on 12/30/2018 06:12:00 PM Rating: 5

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