Crítica: muito mais que dádiva do terror, "Hereditário" acerta em tudo o que tange o Cinema

O sucessor natural de "O Exorcista" finalmente está entre nós

Atenção: a crítica contém detalhes da trama.

Antes de mais nada, gostaria de pontuar o quanto acho gratuito o rótulo de "pós-terror", termo que vem encontrando modismo após ser cunhado por Steve Rose, crítico de cinema do The Guardian. Basicamente, um "pós-terror" seria um filme do gênero que dispense os jump-scares, focando mais na consolidação de sua história. Exemplos ilustrativos seriam "A Bruxa" (2015), "Boa Noite Mamãe" (2014), "Corrente do Mal" (2014), "Ao Cair da Noite" (2017) e o novíssimo "Hereditário".

Nego a aceitar o termo em meu coração por ele soar muito mais uma ânsia em patentear um sub-gênero do que de fato algo concreto. O próprio prefixo "pós" já derruba o conceito, indicando que essa leva de filmes que se enquadram aqui sejam uma modalidade nova dentro do terror, o que não é verdade. De nomes como "Inverno de Sangue em Veneza" (1973) a "O Homem de Palha" (1973), diversos horrores ao longo da história poderiam ser chamados de "pós-terror", muito mais uma tentativa elitista de classificar filmes "superiores" a outros em seu formato ao invés de sua essência - o mesmo defeito de chamar uma obra de "filme de arte".

Mas nem levo a alcunha para o lado da má fé: Steve Rose acabou soltando o termo com a conotação errada. O xis da questão não habita na produção dos filmes, e sim seu consumo pelo público. É quase unanimidade entre os citados contemporâneos o efeito de serem aclamados pela crítica especializada e rejeitados pelas plateias. O motivo é simplíssimo: filme de terror "de verdade", para quem senta na cadeira da sala escura, é aquele que cause sustos e risadas em seguida - vide "[Rec]" (2007), "Sobrenatural" (2010), "Annabelle" (2014) e tantos outros -. algo que nenhum ali faz (ou, caso faça, está longe de ser a prioridade). Com "Hereditário" não é diferente.


O longa de estreia de Ari Aster começa após a morte da reclusa avó da família Graham - agora composta pela mãe, Annie (Toni Collette); o pai, Steve (Gabriel Byrne); o filho mais velho, Peter (Alex Wolff); e a caçula, Charlie (Milly Shapiro), por quem a avó sempre teve uma fascinação imensa. Após um acidente, as rachaduras da família ameaçam derrubar o resto de sanidade entre eles, enquanto a mãe luta para superar os problemas cada vez mais obscuros.

No velório da mãe, Annie conta o quanto elas sempre tiveram um relacionamento distante. Na volta para casa, se questiona se não deveria se culpar por não ter ficado realmente triste com a morte da mulher - efeito que parece ser regra vigente ali, menos para Charlie. Por terem uma relação mais próxima, a menina é a única que demonstra a mínima dor pelo falecimento da avó. Desde já o filme exala o cheiro acre de que há algo de incomum por trás da falta de luto.

"Hereditário" deita-se sobre um molde bastante usual: vai dando as pistas mais cruciais desde o início, todavia, mesmo não possuindo a bagagem dos fatos, sabemos que vários detalhes ali fazem parte do todo que carrega a explicação, como o símbolo que está no colar da avó e aparecerá repetidas vezes durante a fita. Partindo para a experiência particular, fui assistir a "Hereditário" sabendo quase nada do que se tratava: não li grandes sinopses, não vi entrevistas dos atores, não assisti aos trailers, nada. Queria ao máximo mergulhar na película com um olhar despreparado para o que estava por vir, mas, para os olhos calejados no terror, os elementos expostos com falsa casualidade são as chaves que abrirão os mistérios futuros.


A característica dentro de "Hereditário" que faria qualquer fã do termo "pós-terror" ter a epiderme arrepiada é a preocupação na fita em desenvolver os problemas daquela família. Talvez um efeito colateral das tramas rasas como uma colher de chá que vemos repetidamente nos terrores mundo afora, com dois ou três diálogos que informam que algo aconteceu no passado e, atualmente, ainda assombra os personagens - o recente e péssimo "Os Estranhos 2: Caçada Noturna" (2018) sofre do mesmo mal -, "Hereditário" pode, sem medo, ser classificado como um drama familiar.

E esse drama no seio daquelas quatro pessoas restantes é primordial para a orquestração do terror, que só vem a crescer com o aprofundamento de seus personagens. Tudo começa orbitando ao redor de Charlie, a mais estranha das peças familiares presentes. Há pesada carga psicológica sob os ombros da menina, tão reclusa no seu próprio universo e vendo-se perdida sem a presença da avó. Annie chega a falar que a avó não a deixava amamentar Charlie, cabendo à ela esse papel. Não choca então quando a garota começa a sentir - e ver - a avó morta.

O que choca de verdade é como ela, que aparentava ser a protagonista da película, é morta logo no início num medonho acidente. Mesmo possuindo ares de previsibilidade - o filme, momento antes, mostra um poste com o estranho símbolo do colar da avó, já dando a entender que alguma tragédia vai acontecer ali -, me senti da mesma forma quando vi "Psicose" (1960) pela primeira vez, uma reviravolta no cinema de horror ao matar sua protagonista no começo da fita, algo nunca feito antes. Passei um tempo considerável achando que a sequência do acidente não era real ou que Charlie não tenha morrido, apenas se machucado, para provar em seguida que minha expectativa estava errada - com uma cena brilhante, focando apenas no rosto do irmão enquanto a mãe, ao descobrir o cadáver decapitado da filha, grita ao fundo, fora do quadro.


"Hereditário" acaba alcançando paralelos curiosos com "O Sacrifício do Cervo Sagrado" (2017): além de possuírem raízes no conto da Ifigênia de Eurípedes, ambos retratam uma família normal que é obrigada a enfrentar suas mágoas e rancores diante de uma situação extrema. A cena fundamental desse drama é um jantar após o falecimento de Charlie. Peter, que involuntariamente causou a morte da irmã, é remoído tanto pela culpa da morte em si como pela angústia que causou na família, e confronta a mãe sobre ela o achar o responsável pelo incidente. Carregada com emoções à flor da pele, a sequência é sincera e guarda o cerne das rachaduras daquela casa, expostas para quem está diante do filme compreender a complexidade da situação e os laços únicos entre os envolvidos.

Todo o luto ausente pela ida da avó cai como uma bomba na família com a morte de Charlie, um baque fundamental para abrir ainda mais todos os machucados falsamente cicatrizados. Annie decide ir a um grupo de apoio para tentar encontrar consolo, e lá conhece Joan (Ann Dowd, a Tia Lydia da série "The Handmaid's Tale"), que perdeu o filho e o neto afogados. Expansiva e carismática, a mulher logo desenvolve uma amizade com Annie e a convida para sua casa, mostrando um ritual que a faz conversar com o neto falecido. Para seu total desespero, Annie sai às pressas do apartamento, sendo convencida por Joan a levar o necessário para ela mesma realizar o ritual e falar com Charlie.

A produção então mistura dois subgêneros: o drama familiar e o terror sobrenatural, quase uma salada entre "Álbum de Família" (2013) e "Invocação do Mal" (2013). Enquanto o lado dramático é a faceta mais "cult" da obra, a veia sobrenatural é seu prisma comercial. Temos espíritos escondidos em cantos de cômodos, objetos se movendo sem força física aparente e eventos inexplicáveis que podemos ver em quaisquer longas que aliem o formato sobrenatural. O que difere de "Hereditário" de outros nomes da categoria é que tudo é costurado muito lentamente - enquanto a maioria dos terrores contemporâneos tem, em média, entre 80 e 90 minutos, "Hereditário" possui 127.


Talvez por isso que a nota do público esteja tão discrepante em relação à da crítica. Enquanto atingiu 90% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes e status de "aclamação universal" no Metacritic, o público do CinemaScore deu nota D+ para o filme, o que seria algo entre 5 e 4 de 10 - efeito similar ao que aconteceu com "A Bruxa" e "Ao Cair da Noite", para citar apenas alguns. No entanto, entre vários terrores que se apropriam do drama, talvez "Hereditário" seja o que possua o maior montante de comercialidade dentro do seu recheio: após um vagaroso primeiro ato, a força sobrenatural do texto vai tomando conta, até tocar o terror sem piedade no último ato, a orquestração absoluta de todo o pavor da fita.

Não abrindo mão da sua qualidade em prol de sustos gratuitos com barulhos estridentes, há, sim, diversos moldes que seriam absolutos clichês. Sabe as cenas de sonhos genéricas que servem de absolutamente nada para a narrativa? Em "Hereditário" há uma cena assim, porém o sonho em questão, partindo de Annie, que sofre de sonambulismo, é peça preponderante para aumentar as tensões entre os envolvidos. E o próprio tema fundamental do seu horror, a religião católica, é usada exemplarmente em seu roteiro, ao contrário de orquestrações baratas que já saturaram no gênero - "Invocação do Mal", tão amado pela plateia, se utiliza do catolicismo de maneira porca.


Com tantos elementos dispostos tão genialmente, Ari Aster entra para o seleto hall de diretores de primeira viagem no terror moderno a chegarem mostrando como se faz, juntamente com Robert Eggers por "A Bruxa", Veronika Franz & Severin Fiala por "Boa Noite Mamãe", Jordan Peele por "Corra!" (2017), Julia Ducournau por "Grave" (2016), John Krasinski por "Um Lugar Silencioso" (2018), Oz Perkins por "A Enviada do Mal" (2015) e Trey Edward Shults por "Ao Cair da Noite". Essa safra jovem e disposta a abdicar do terror fast-food é a salvação do gênero e pilar importante para a reeducação da plateia, tão viciada em sustos fáceis e roteiros mal feitos. Quem ganha são os produtores incansavelmente ávidos a macular ainda mais o terror em troca de sucessos comerciais.

E me sinto na obrigação de dedicar um parágrafo inteiro para falar exclusivamente de Toni Collette. Indicada ao Oscar pelo clássico "O Sexto Sentido" (1999), a atriz, tão subestimada, está abrindo as portas do Inferno na tela. Por ser o elo fundamental da malfadada família, Collette tem que - e consegue - entregar todas as camadas dificílimas que o roteiro demanda, desde os momentos de pura dor até o medo mais genuíno possível. O elenco está afiadíssimo, da falsamente animada Joan de Dowd até o sóbrio e cético Steve de Byrne, que tenta desesperadamente dar um jeito na irreparável situação, mas todo mundo desaparece quando Collette pisa o pé no ecrã, e entrega a atuação de sua carreira. Ela deveria, no mínimo, ser indicada ao Oscar de "Melhor Atriz" - se Kathy Bates conseguiu por "Louca Obsessão" (1990), por que não?

Em boa parte da duração, parece que "Hereditário" se contentará em ser um filme que, ao invés de produzir medo, vai explanar acerca do seu impacto sobre o ser humano, o que é concreto até chegarmos no clímax, um pesadelo assustador na tela que não mede limites para catapultar o espectador no meio do pandemônio instaurado. Tudo é milimetricamente justificável, da parte técnica à condução, e, por isso, ainda mais aterrador e impactante, parindo diante dos nossos olhos um dos melhores finais da história do cinema de terror. Daqueles filmes fundamentais não só para o gênero como também para o Cinema, repleto de cenas icônicas que permanecerão na nossa cabeça por dias após o rolar dos créditos. "O Exorcista" (1973) finalmente encontrou seu filhote no novo século.

Crítica: muito mais que dádiva do terror, "Hereditário" acerta em tudo o que tange o Cinema Crítica: muito mais que dádiva do terror, "Hereditário" acerta em tudo o que tange o Cinema Reviewed by Gustavo Hackaq on 6/28/2018 12:47:00 PM Rating: 5

0 COMENTÁRIOS

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.